Itaquê Fontenele
Itaquê Fontenele

Sem turismo, plataformas online ajudam artesãos a vender

Comunidades que viviam do trabalho manual ficaram sem renda com a falta de visitantes em razão da pandemia; saiba como ajudar

Nathalia Molina, Especial para o Estado

08 de agosto de 2020 | 05h00

Cada peça de artesanato, doce típico ou objeto genuíno trazido de uma viagem carrega um pouco das histórias, das pessoas e dos lugares. No sentido inverso, muitos artesãos e produtores vivem da venda aos visitantes. Com o coronavírus e a alta média de 1 mil mortes por dia no Brasil, o turismo parou, rompendo esse elo cultural e econômico. É possível retomá-lo, ainda que remotamente: comprando online o que eles produzem. Em ascensão em várias áreas ao longo do isolamento social, o ecommerce também foi a saída encontrada no setor de turismo.

Nesta semana, a Gol lançou o projeto Aproximando Distâncias, site para a venda de produtos de empreendedores de todas as regiões do País. Outras iniciativas Brasil afora seguem esse movimento. De Pernambuco, a tradicional Feira de Caruaru ganha sua versão digital ainda neste mês. A GaleriAmazônica, em Manaus, se viu obrigada a criar uma loja online para seguir gerando renda para comunidades indígenas, caboclas e ribeirinhas. A interrupção das viagens, obviamente, também abalou artistas urbanos, o que levou a Open Feira de Design, de Porto Alegre, a desenvolver um marketplace para designers independentes.

Iguarias e artesanato de todas as regiões brasileiras

“Isso é de uma importância muito grande. Não dá visibilidade só para a Cerâmica Família Sant’Ana”, diz Heitor Sebastian, que decidiu migrar totalmente da pele para o barro no início deste ano. “A cerâmica precisa ser conhecida. Queremos uma alternativa para o uso do plástico, algo sustentável. Ela veio da terra e vai voltar para a terra.” As peças que estarão à venda a partir de 31 de agosto no site criado pela Gol.

A olaria, existente desde 1975, pertence aos pais de sua mulher, Maynara. “Ele é mestre em cerâmica. Faz peças com inspiração arqueológica, já trabalhou no museu”, elogia Sebastian. Hoje o casal e os pais dela, Guilherme e Marly, tocam o negócio juntos.

Sebastian migrou totalmente da pele para o barro no início deste ano. Sua paixão pela botânica é carregada no corpo de quem ele tatuou em Belém. “Já fiz costela de adão, comigo-ninguém-pode, arruda. São plantas de proteção.” Atualmente os traços de brasilidade afloram em pratos decorativos da Família Sant’Ana, no polo paraense de Icoaraci.

Já estão no ar empreendedores do Sudeste – a Paneleiras de Goiabeiras, de Vitória, vende utensílios a partir de R$ 37,80 para servir a moqueca capixaba –, um do Centro-Oeste e um do sul (a Bananina do Paraná, especialista em balas e doces de banana (desde R$ 32,20 um kit).

Até o fim de agosto, serão cerca de 25 no aproximandodistancias.com.br. “A Gol não está fazendo uma ação para este período, é um programa para longo prazo”, explica Eduardo Bernardes, vice-presidente de Vendas e Marketing da empresa. “Já temos 700 potenciais fornecedores cadastrados.” Interessados em participar podem se inscrever no site do projeto. Segundo Bernardes, o dinheiro obtido com a venda vai para os empreendedores: “Não é pra gol, o projeto não tem fins lucrativos”.

“O turismo vai voltar, e essas comunidades precisam estar vivas”, afirma Bernardes. E cita um questionamento que serviu de embrião para o Aproximando Distâncias: “Como mantenho acesa no cliente a vontade de viajar e como ajudo essas comunidades?” Para o projeto, em parceria com a agência Spray Content, foi criado um comitê, responsável por avaliar a qualidade e as características dos produto, garantir que os clientes recebam a mercadoria e verificar se a produção não envolve trabalho infantil e respeita o meio ambiente. Além de trabalhos individuais, o Aproximando Distâncias inclui cooperativas como a Bichos do Pantanal – as reproduções do Mato Grosso do Sul, em madeira, estarão à venda a partir de 13 de agosto – e a cearense Renda da Prainha, cujos produtos chegam ao site em 24 de agosto.

O Mulheres Coralinas, da cidade de Goiás, entra no cardápio de opções na próxima quinta-feira. “É uma variedade muito grande de produtos. A gente está selecionando algumas peças que a gente julga serem mais viáveis para enviar”, diz Ebe Lima Siqueira, professora de Literatura da Universidade Estadual de Goiás e presidente da associação, nascida em 2014 para amparar vítimas de violência contra a mulher.

O trabalho junta poesia, habilidades manuais e direitos humanos. “Não basta só você dar um conhecimento técnico para que a mulher se desenvolva na área do artesanato. Ela precisa também ter essa independência intelectual”, afirma. Durante o isolamento social, as participantes da associação já bordaram em torno de 4 mil máscaras com versos de poetas, relacionados ao situação atual do País, enfrentando a covid-19. Os trechos, nesse caso, vão além dos escritos por Cora.

“Apesar deste momento difícil, estamos otimistas. Daqui a uns 40 dias, teramos uma coleção com estampas inspiradas no jardim imaginário de Cora e com fragmentos de seus poemas.” Serão vestidos, saias e também objetos para casa como forro de mesa e jogo americano. Já as novas biojoias de cerâmica vitrificada irão retratar o casario colonial da cidade, declarada Patrimônio Mundial pela Unesco em 2001.

Novo site com produtos da Feira de Caruaru

Conhecido apenas como Feira de Caruaru, o espaço do Parque 18 de Maio na cidade de interior engloba umas 30 feiras. “São 40 mil m² de área e cerca de 60 mil pessoas trabalhando. Por lá, circula uma média de 240 mil clientes por semana”, diz a prefeita, Raquel Lyra.

O governo de Pernambuco autorizou ontem a volta das feiras; as barracas de Caruaru reabrem hoje fisicamente, com uso de máscara, álcool em gel e protocolos de segurança. Mas a página nafeiradecaruaru.com, prevista para a segunda quinzena de agosto, está mantida. Criado com suporte do Magazine Luiza e apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresa (Sebrae) para orientar os comerciantes, o site terá calçados e bolsas de couro, peças de renda e artesanato de barro.

Foram as figuras moldadas por Mestre Vitalino que deram ao Alto do Moura, polo de artesanato da cidade. “Abriga mais de 300 artesãos e artesãs que perpetuam a arte do grande mestre, ceramista e tocador de pífano, que iniciou a arte do barro na cidade e fez escola”, diz Raquel.

Elias Vitalino ajuda a perpetuar a arte na família, criando peças e cenários que reproduzem o cotidiano do sertão, exclusivamente na cor natural do barro. “Comecei a trabalhar com 6 anos”, conta o ceramista, hoje com 60. “Esse site é importante porque é mais divulgação para a nossa história e cultura”, diz o neto do mestre.

Feitos por indígenas e poulações ribeirinhas

Manaus foi uma das cidades brasileiras mais duramente atingida pela covid-19. Com isso, a GaleriAmazônica viu sumir os turistas. O espaço expõe e vende peças produzidas por 30 etnias indígenas, caboclos e ribeirinhos e depende das vendas da loja para conseguir gerar recursos para essas comunidades. Há dois meses passou a oferecer os produtos online.

“Vendíamos algumas peças pelo Instagram e pelo Facebook. Com a pandemia, tivemos de criar outros mecanismos”, conta Maria da Fé de Souza Moreira, responsável pela gestão administrativa da galeria, criada após uma parceria entre o Instituto Socioambiental (ISA) e a Associação Comunidade Waimiri Atroari. Segundo ela, as vendas pelo galeriamazonica.org.br/loja irão continuar mesmo que os visitantes voltem a aparecer, “até para dar mais visibilidade ao artesanato indígena, que para algumas comunidades é a única fonte renda”.

Na loja online, há de artigos para casa a acessórios. Um cesto de arumã, do povo Baré, custa R$ 60, já o colar com semente de morototó, da etnia Saterê-Mawé, sai a R$ 18. “Toda a renda volta 100% para os artesãos, realizamos a prática do comércio justo. Eles se deslocam de suas aldeias até a galeria. Nós os recebemos, pagamos pelos produtos, eles dão o preço”, diz Maria da Fé. “O produto vendido já vai gerar recursos para atender outra etnia que venha até a loja. Assim, o artesanato comercializado volta sempre em forma de ajuda para as populações e etnias atendidas pela GaleriAmazônica.”

Os indígenas estão entre os mais atingidos pela covid-19. No Xingu, o chefe Aritana Yawalapiti morreu nesta semana da doença. A loja.socioambiental.org, do ISA, vende livros, artesanato e ingredientes naturais – mel do Xingu (R$ 27), cogumelos Yanomami (inteiros a R$ 20) e camisetas da etnia Panará (R$ 70).

Ajuda a empreendedores de áreas urbanas

Como Porto Alegre segue com índices altos de covid-19, nenhuma das 11 edições previstas da Open Feira de Design ocorreu. Com seis anos de existência, o evento realizado em três formatos sempre expõe peças de designers independentes. “A gente encara o design como uma manifestação cultural. É uma feira muito eclética, tem um mix. Sou bem orgulhosa desse nosso processo curatorial”, diz Camila Farina, diretora da Maria Cultura, agência à frente de projetos que combinem arte e empreendedorismo.

A Open nasceu perto de um dos principais hotéis da cidade, o Sheraton, no bairro Moinhos de Vento. A própria ideia de organizar algo assim surgiu a partir de viagens. Professora de cursos de Design, Camila levava os alunos a incursões a Buenos Aires, onde observava que havia “feiras a cada esquina”.

O cuidado na escolha das peças vendidas nos eventos com até 120 expositores passou para o ambiente digital, na página opendesignstore.com.br, lançada em maio. “O marketplace já era um projeto incubado porque a gente sempre tem o pós-feira, em que a pessoa quer comprar do expositor que conheceu no evento”, explica.

No site, 30 marcas da região metropolitana da capital gaúcha apresentam suas peças de roupas, acessórios, mobiliário, objetos de decoração e brinquedos. Camila pretende expandir para até 100 designers autorais ainda neste ano. os produtos são tão ecléticos quanto peças com estamparia inspirada em fotos de lugares e hábitos da cidade – caso do vestido da Praça da Alfândega (R$ 170) e da bolsa de cuias (R$ 70) de Cyllene Dallegrave – e produtos veganos para cuidados pessoais, como a máscara facial (R$ 20; 30 gramas) da Anne’s Ateliê e o desodorante de alecrim (R$ 18; 20 gramas) do Atêliê do Químico.

“As estatísticas do site mostram o quanto está recebendo interações e pedidos de fora de Porto Alegre. Mas precisamos entender esse novo mercado, o processo de logística, porque ninguém é exatamente de mundo online. Quando acabar isso tudo, a gente vai estar muito mais forte.” Pode comprar pela internet algo genuinamente de um lugar é, segundo Camila, “uma forma de viajar sem viajar, por uma identidade”.

A mineira Tiradentes é desses cantos do País de onde é praticamente impossível voltar sem comprar nada que seja a materialização do destino. Na cidade histórica, muitos lojistas já mantinham entrega nacional. A bandeja em marchetaria da loja de móveis Joelma Marques, por exemplo, é um espaço charmoso para servir delícias como as vendidas pelo Armazém Mineiro (Instagram @armazem_mineiro).

Em todas as iniciativas citadas, o plano é manter as lojas digitais mesmo após o fim da pandemia. Então, se você esteve em algum lugar do Brasil que amou e quer ajudar de longe, dê uma busca na internet, muitos artistas e empreendedores já vendiam ou passaram a oferecer seus produtos online após a pandemia. Em roteiros nacionais, aquelas lembrancinhas citadas no início do texto vêm com o bônus: celebrar a diversidade que faz do Brasil um país tão interessante.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.