Ser turista ou viajante?

Consternado com o acidente que vitimou o candidato Eduardo Campos (“sempre fui um grande amigo de seu avô, Miguel, e lembro-me de tê-lo conhecido ainda nos braços da querida Ana, sua mãe”), nosso viajante confessa que, “em virtude da monumental movimentação de turistas no Hemisfério Norte e do calor que atinge níveis insuportáveis”, nunca simpatizou com este mês, criado pelo imperador César Augusto, na Roma Antiga. E aproveita para desejar que, apesar do infausto acontecimento, o Brasil encontre os caminhos que precisa trilhar. A seguir, a pergunta da semana:

Mr. Miles*, O Estado de S. Paulo

19 Agosto 2014 | 17h23

Mr. Miles: nunca entendi muito bem a diferença entre turismo e viagem. São dois termos muito empregados. Eles não significam exatamente a mesma coisa?

Clóvis Ortiz Machado, por e-mail

“Well, my friend, desde que viajar se tornou uma atividade economicamente organizada, delineou-se uma diferença filosófica entre o ato de ser turista e o ato de ser viajante. O turista, as you know, é o cidadão (ou a cidadã) que viaja – e nesse sentido é (why not?) um viajante – com a finalidade de lazer ou entretenimento. Costuma fazê-lo nos intervalos de que dispõe no meio do que chama de sua atividade principal e, unfortunately, em função desta prioridade, poucas vezes tem tempo de viajar convenientemente preparado. Eis porque, in most of cases, delega a organização de sua viagem a empresas especializadas, deixa-se conduzir por guias, come nos restaurantes aos quais é levado e fotografa muito, para poder ver, later, os detalhes que não lhe foram possíveis capturar in loco.

Ao contrário do viajante, my friend, o turista costuma ser veloz e gregário. Sua relação com o que conhece é fugaz. Como um jovem enamorado, é capaz de roubar um beijo, mas não terá tempo de se apaixonar ou de se arrepender do que fez. Guarda impressões, mas não leva marcas. Vê, mas não tem a chance de enxergar. Essas características, however, não o desmerecem. Turistas, fellow, podem ser pessoas mal vestidas (nunca lhes é possível organizar uma bagagem conveniente), mas jamais são infelizes.

By the way, é dos turistas, em geral, que nascem os viajantes. Se a maioria deles retorna, ano a ano, ao seu mister com algumas histórias para contar aos amigos e um novo retrato na parede, há os que, nessas jornadas turísticas, deixam-se inocular pelo vírus da descoberta. Não há, I’m afraid, qualquer tipo de vacina que iniba essa afecção.

Os primeiros sintomas, catalogados por Sir Henry Stepleton O’Leary Ferguson III em seu célebre Das Compulsões Viajoras e outras Obsessões Benignas, são uma irresistível nostalgia daquilo que o paciente sequer conhece. Quase sempre acomete turistas, mas há registros de sintomas semelhantes em cidadãos que sequer saíram de suas cidades. Os enfermos sentem-se projetados em lugares sobre os quais apenas leram, sonham com eles (sometimes even awake) e, em alguns casos, desenvolvem estados febris.

A única terapia possível é a viagem: em 99% dos pacientes avaliados por Sir Henry, os sintomas desapareceram quando lhes foi dado desembarcar em algum lugar do mundo, inspirar novos ares, com a devida liberdade para flanar, perder-se e se espantar. ‘A realização de um viajante – descreve-nos o cientista de maneira um tanto crua – é como a libertação de um abscesso. A dor se vai, a inflamação cede e a vida ganha novo sentido.’

As you see, a julgar por ele, o viajante é um turista doente. E eu ouso aduzir: da mais adorável das moléstias.”

*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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