Werther Santana/Estadão
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Mônica Nobrega
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Será que a gente vai saber voltar a viajar?

Viajar tem códigos implícitos, coisas não ditas que só a quilometragem e a repetição mostram. Como será esse retorno?

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2021 | 03h00

Entre engravidar, parir, amamentar e desmamar, fiquei dois anos e dois meses sem viajar. Mais especificamente, sem viajar a trabalho, sem ir longe e por períodos mais longos, porque escapadas no Brasil, de carro e avião, isso teve. Daí que na primeira ida ao exterior depois disso, sem filho, para cobrir uma megafeira de turismo, nos EUA, eu me sentia perdida, sem prática. E, por isso, ansiosa, atrapalhada, cometendo erros bobos. Tipo não planejar direito deslocamentos no transporte público e acabar gastando um dinheirão de táxi. 

Com mais de um ano de pandemia, a sensação agora parece que é a mesma. Viajar é fácil mas, ao mesmo tempo, não é. Quanto mais você treina, menos erra, e a essa altura a gente tá tudo meio destreinado, né? Aeroporto, por exemplo. Eles têm códigos implícitos de funcionamento, aquelas coisas não ditas que só a quilometragem e a repetição mostram. No de Congonhas, o painel de voos costumava não ser garantia de nada, portas eram alteradas até poucos minutos antes do embarque. Como faz 14 meses que não piso lá, não sei o que pode ter mudado com a pandemia. Vou descobrir perdendo um voo, talvez.

Graças a uma bolsa de pesquisa, minha irmã passou a pandemia toda na Dinamarca. O confinamento, lá, foi muito rigoroso e, por isso mesmo, durou pouco. Em julho do ano passado ela e as duas filhas já estavam aproveitando as férias de verão viajando pelo país. Mas ainda hoje os passeios delas me causam um misto de alegria e agonia. Todas aquelas fotos dentro de museus, espaços fechados. Às vezes acho que nunca mais terei coragem de entrar num museu. 

Semana passada, os EUA deixaram de recomendar o uso de máscaras para quem está totalmente imunizado, ou seja, tomou as duas doses de alguma vacina contra a covid-19. Na sexta-feira, essa parcela representava 35% da população, enquanto quase 50% tinham tomado ao menos uma dose. 

No mesmo dia, a jornalista brasileira Raquel Krähenbühl, correspondente na Casa Branca, tirou a máscara do rosto ao vivo durante sua participação em um telejornal, emocionando a apresentadora e o público nas redes sociais. Que agonia que me deu. Ao mesmo tempo, minha amiga, que mora em Las Vegas, postava fotos com suas duas filhas e amigos em uma praia na Califórnia, depois num restaurante, numa mesinha de sorveteria… 

Acho que não sei mais comer num restaurante sem esfregar as mãos, e as mãos do meu filho, com álcool em gel a cada 3 minutos. Como vou dormir tranquila numa cama de hotel de novo? Deixar o menino brincar na piscina? 

Perdoe, leitora, leitor, a melancolia dessas linhas. É que viver num país com gestão errática da pandemia vai deixar sequelas nas nossas vidas, não tenho dúvidas. Nada será como antes – nem nosso jeito de viajar. Teremos de reaprender muitas coisas, adaptar outras. Depois da licença maternidade, em um contexto de vida desabrochando, esse processo foi intenso, mas bonito. Agora, ainda contando e chorando tantas mortes, será que vamos saber voltar? Quando? 

 

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