Será que eles vão lembrar?

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Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2017 | 03h00

Há tempos escuto essa angústia: será que vale mesmo a pena viajar com filhos pequenos, já que não vão lembrar de quase nada – ou de nada mesmo – depois?  Uma dúvida justa. Afinal, viajar custa dinheiro. A partir de 2 anos completos, a criança já paga o voo, sem essa de meia passagem: o aperto nas contas das companhias aéreas tornou os descontos modestos ou mesmo inexistentes. Para ir ao exterior é preciso fazer o passaporte do pequeno, que custa os mesmíssimos R$ 257,25, mas tem validade menor, de um a cinco anos, enquanto o dos adultos vale por dez anos (veja a tabela em bit.ly/validadepassaporteinfantil).

Além da questão dinheiro, a criança não necessariamente altera a escolha do destino, mas com certeza muda o tipo de viagem que se faz. 

Eu mesma já decidi ir sem meu filho para Nova York porque o que a gente queria naqueles dez dias era ver um monte de shows musicais da temporada de verão. Ele também não foi convidado à nossa recente semana no Rio, quando planejávamos passar todo o tempo que fosse possível em companhia da amiga local tão festeira quanto bem informada sobre novidades culturais e noturnas. Nos dois casos, os destinos eram superadaptáveis a crianças (quase todo destino é), mas nós, os adultos, não queríamos fazer as adaptações. Os avós estão aí (também) para isso.

Voltando à questão das lembranças. Segundo a professora Luciene Tognetta, do departamento de Psicologia da Educação da Unesp de Araraquara, a criança “começa a evocar objetos ausentes e torná-los conscientes por volta dos 4 ou 5 anos”. Em outras palavras, é com esta idade que seu filho pode começar a narrar algumas lembranças da rainha Elsa ou do Buzz Lightyear que viu na Disney, ou as delícias do toboágua daquele hotel na serra.

Mas lembrar é mais do que ser capaz de relatar as lembranças. No livro O Erro de Descartes, o neurocientista Antonio Damasio apresenta o conceito de paisagens corporais. Simplificando bastante, a ideia é que a criança é afetada por tudo aquilo com que tem contato. “Quanto mais possibilidades de contato com climas, sons, sabores, cheiros, temperaturas, quanto maior variedade de experiências a criança tem, melhor será o seu desenvolvimento”, diz Luciene Tognetta. E não é exatamente pela variedade de paisagens e vivências que viajamos? 

Independentemente de quando a criança vai começar a ser capaz de lembrar das viagens que fez, acho que há outra questão a ser considerada. Falei ali atrás que criança muda o tipo de viagem que se faz; ou seja, sua presença altera a experiência dos pais. E isso, acredite, pode ser delicioso. 

Num verão recente, fomos passar uma semana na Ilha Grande, no litoral do Estado do Rio. Era época de jaca nas árvores e guaiamum na areia. Meu filho, curioso a respeito da jaca desde a chegada à ilha, decidiu experimentar a fruta depois de ver um guaiamum agarrar com a pinça um pedaço caído na trilha e carregá-lo para dentro da toca cavada na terra. Eu não como jaca de jeito nenhum; o pequeno talvez experimente de novo. Se o caranguejo da praia gosta, por que ele não?

No fim das contas, é disso que se trata. Das lembranças que a família vai construir em conjunto. Das piadas, emoções e perrengues que você contará aos seus filhos, eventualmente mostrará fotos, daquilo que vai para o repertório de lembranças queridas da vida. Trata-se também do olhar diferente, filtrado por olhinhos infantis, que você vai lançar sobre lugares aos quais já foi antes. E com eles estabelecer outros afetos.

Leão. Sobre crianças pequenas e memórias, gosto muito do filme Lion, que concorreu ao Oscar de melhor filme este ano. O protagonista é um jovem de origem indiana que, quando criança, se perde de sua família e acaba sendo adotado por australianos. Sem spoiler para quem não viu: as cenas que abordam as (duras) memórias infantis, com fotografia lindíssima e abordagem idem, são emocionantes. 

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