Serventia da casa

Sim: nosso viajante foi para a Espanha, acompanhar a nova movida provocada pela conquista da Copa. Não se sabe como saiu da fiesta. Antes, porém, ele respondeu à pergunta da semana:

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2010 | 04h05

Querido mr. Miles: vou viajar para a Inglaterra e a Escócia com meu marido e alguns amigos sugeriram que ficássemos em bed & breakfasts. Sei o que são, mas nunca estive em um. O senhor acha que é uma boa escolha? Vanda Langorini, por e-mail

"Well, my dear, você está coberta de razão. O conceito de guest house ou b&b não é muito conhecido no Brasil e em outras nações latino-americanas, exceto - veja só! - Cuba, em que um tipo de acomodação conhecida como casa privada tornou-se alternativa popular aos resorts que surgiram a partir dos anos 1990.

In Britain, however, esta é uma forma popularíssima de hospedar-se durante a jornadas pelas ilhas. Até minha tia Lilibeth maneja seu bed & breakfast em Essex com o quase inútil auxílio de seu marido Padraig, hoje padecendo do Mal de Parkinson. A ideia é soberba. Proprietários de casas senhoriais, históricas ou apenas amplas, usually retired, complementam suas aposentadorias recebendo viajantes, oferecendo-lhes pouso e, sometimes, fartos cafés da manhã. São, quase sempre, dois ou três quartos para hóspedes, alugados por valores semelhantes aos de hotéis baratos.

Boa parte oferece aposentos familiares e aconchegantes, alguns chegam a ser luxuosos e, of course, outros nem sequer possuem banheiros privativos. Anyway, é quase sempre como estar visitando amigos. O único inconveniente, I must say, é justamente esse. Hóspedes de casas particulares são convidados a comportar-se dentro das regras de seus hospedeiros. Ou seja: quando você e seu marido estiverem em algum b&b, não haverá espaço para liberdades e fantasias. Do you know what I mean?

Para exemplificar com mais clareza, quero lhe contar o que ocorreu quando estive, muitos anos atrás, com minha amiga Bridget em um b&b perto de Dundee, na Escócia. Bridget era, digamos, muito liberal. Foi umas das pioneiras a queimar soutien e era confidente de Mary Quant, com quem saiu pela King"s Road usando as primeiras minissaias da História. Também tomava, todos os dias, estranhos psicotrópicos que a tornavam, I must say, bem interessante.

A casa que escolhemos era muito bonita, com ovelhas no jardim e simpáticos cães na frente da lareira, aos pés de Mr. e Mrs. Scott.

Eles nos receberam efusivamente, deram-nos um belo quarto em estilo vitoriano e ofereceram, alternativamente, a oportunidade de jantar em sua mesa. Tudo parecia excelente até que Mrs. Scott, solerte anglicana, começou a emitir opiniões conservadoras. Bridget pareceu-me contrariada, mas continuou tomando seu whisky até o momento em que Mr. Scott buscou a sopa que iniciava o jantar. Eis que, no instante em que íamos começar a sorvê-la, Mrs. Scott solicitou a Bridget que rezasse as preces.

Deliciosamente insolente e irremediavelmente ateia, Bridget recitou Lucy in the Sky with Diamonds em tom de prece. Nem é preciso dizer que nossa noite terminou ali. Em silêncio, Mrs. Scott recolheu nossas malas, entregou-nos um envelope com nossos pounds e fechou a porta atrás de seus quase-hóspedes.

Duvido de que você e seu marido comportem-se de maneira tão inconveniente. Mas a dura lição é a de que hóspedes de b&b têm de medir seus limites. A experiência será excelente se, as you say in Brazil, "o santo bater". Caso contrário, a porta da rua é sempre serventia da casa. Recomendo-lhe, por fim, o bedandbreakfast.com, onde é possível conhecer milhares deles. Have a nice trip, Vanda."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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