Allan Hoepers
Allan Hoepers

Sete passos para você planejar sua viagem voluntária

Como escolher o destino, encontrar o projeto ideal e se organizar para curtir férias e ajudar o próximo em uma mesma experiência

Bruna Tiussu, Especial para o Estado

21 Outubro 2018 | 06h00

Saem as praias paradisíacas e as capitais com restaurantes estrelados para entrar cidades e vilarejos que até o Google Maps pode não encontrar. Estes cantos isolados do mundo têm se tornado destino de viajantes que desejam aliar as férias com a oportunidade de ajudar o próximo. 

Lá estão ONGs, escolas, fazendas e hospitais que recebem e acolhem turista disposto a investir as férias colaborando com uma causa. A regra é contribuir, trabalhar junto, abrir-se para novas vivências e, claro, conectar-se com culturas e povos diferentes.

Ainda que atuem em áreas distintas, estas instituições precisam das aptidões, dos conhecimentos e da vontade de ajudar que o turista leva consigo. Ele, por sua vez, mergulha em uma experiência de troca e de aprendizado que conduz a um intenso processo de autoconhecimento. 

Ficou interessado? Confira sete passos para você se preparar e planejar uma viagem voluntária:

1. Preciso ter qualificações específicas?

Não. No geral, qualquer pessoa com mais de 18 anos pode ser um viajante voluntário. Mas existem ONGs e projetos que dão preferência a candidatos com qualificações relacionadas à sua área de atuação.

Uma dica é entender bem quais funções você pode desempenhar na instituição e deixar pré-combinado com os responsáveis aquelas que deseja exercer durante seu período de voluntariado. Afinal, nem todo mundo fica à vontade dando aulas numa escola ou deseja ajudar na plantação de uma fazenda. Há muito o que fazer, por exemplo, em suas áreas administrativa, financeira, de marketing e de comunicação.

2. Como encontrar um projeto?

Sites como o Workaway e o Wordpackers reúnem uma variada lista de instituições e ONGs que recebem voluntários. Há de escolas na África a centros esportivos na Ásia, passando por projetos mistos, como o Amasiko Greenschool, no sul de Uganda, uma mistura de fazenda, escola e hotel. É preciso fazer uma assinatura anual (US$ 38, no Workaway; US$ 49, no Worldpackers) para então poder conversar, tirar dúvidas e combinar o seu período de voluntariado diretamente com os idealizadores das iniciativas. Você também consegue ler feedbacks e entrar em contato com viajantes que já passaram pelos projetos. 

Para quem prefere recorrer à uma agência, a empresa Volunteer Vacations é especializada neste tipo de viagem e tem parceria com iniciativas do Oriente Médio à Costa Rica, incluindo projetos no Brasil. Ela organiza viagens de até um mês, no chamado short-term volunteering, e dá todo o suporte que você pode precisar.

ONG com foco na capacitação de jovens, a Aiesec oferece um programa de intercâmbio voluntário. Nele, é possível ficar de seis a oito semanas colaborando em atividades sociais espalhadas por 127 países diferentes. A ideia é que o participante (deve ter entre 18 e 30 anos) trabalhe temas como empoderamento do outro, comportamento diante de problemas, responsabilidade pelo mundo e autoconhecimento. “Neste tipo de intercâmbio a pessoa sai totalmente de sua zona de conforto, quebra barreiras e entende outra realidade, além de ter a chance de impactar positivamente uma comunidade”, explica Gabriela Toso, diretora de relações públicas da Aiesec Brasil.

3. Para onde ir?

Vale escolher um destino que desperte seu interesse — pela riqueza natural, cultural ou histórica — e a partir daí buscar projetos locais para voluntariar. Vale também inverter a ordem: não é raro um viajante se apaixonar pelo trabalho de uma organização e decidir ir até ela, independentemente de sua localização. 

De um jeito ou de outro, é sempre bom ficar atento a detalhes como preço de passagens, custo de vida e segurança (principalmente se viajará sozinho). Estes fatores fazem com que os destinos da América Latina, sobretudo os países México, Argentina e Colômbia, sejam os preferidos dos brasileiros que viajam pelo programa da Aiesec, por exemplo. 

Preste atenção também à língua falada no destino. Você não precisa ser fluente no idioma local, mas deve dominar o básico, pois barreiras na comunicação influenciam muito a experiência de voluntariado. 

4. Burocracias a vencer

Como qualquer viagem, a voluntária também demanda tempo e dedicação para lidar com burocracias. Se você estiver planejando tudo sozinho, terá de consultar o consulado ou a embaixada do país de destino para entender como emitir o visto (no caso do documento ser exigido para brasileiros) e quais vacinas são obrigatórias. Caso tenha optado por organizar a viagem via agência, as informações serão fornecidos por ela. 

Após descobrir a moeda local, é bom pesquisar (ou perguntar para o anfitrião da ONG) qual a melhor maneira de levar seu dinheiro: em espécie, se é fácil usar cartão de débito (tipo travel money) ou de crédito. 

5. É trabalho ou turismo?

Tenha em mente que como voluntário você terá horários, obrigações e chefes. O que é essencial para se sentir parte integrante da rotina da instituição. Para que o tempo dedicado ao trabalho seja mais produtivo, tente montar um cronograma de forma a abraçar atividades de todas as áreas que você se comprometeu a ajudar. 

Mas o turismo, claro, também faz parte da experiência: combine de ter os fins de semana livres para conhecer a região. Muitas ONGs organizam passeios e atividades para mostrar aos voluntários a cultura e os principais pontos locais — os próprios membros costumam fazer a vez dos guias. No caso de passeios mais distantes, a instituição pode ajudar indicando agências que fecham roteiros com preços mais em conta.

Vale ainda aproveitar brechas do dia a dia para frequentar mercados, restaurantes, bares, praças e campos de futebol de bairro. Estes lugares são ótimas oportunidades para entender melhor o modo de vida da comunidade e fazer amizade com os locais.

6. Questões de contexto

Não é preciso muito para perceber que diferenças culturais influenciam a rotina de comunidades inteiras. Vivenciar e trabalhar em um lugar distinto do seu significa ter de seguir regras e uma dinâmica de vida que podem não fazer muito sentido para você. “Entender a rotina das pessoas, enxergar seus problemas e ver que nem sempre nossa maneira de resolvê-los servirá para eles foi o maior diferencial da minha experiência”, diz o paulistano Allan Hoepers, de 29 anos, que em 2017 voluntariou durante três semanas em uma escola da zona rural da Tanzânia.

Para voltar para casa só com boas lembranças de sua viagem voluntária é essencial abrir o coração e a cabeça para o "diferente" antes mesmo de chegar no destino. Deixe de lado estereótipos e, no dia a dia, treine o entendimento de uma cultura dentro de seu contexto local. Não se trata de um exercício fácil, mas é dos mais enriquecedores da experiência.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.