Shame on us!

Shame on us!

Da Bélgica, onde foi dar sua força pessoal aos atarantados funcionários da União Europeia, nosso viajante manda sua correspondência desta semana:

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

28 Junho 2016 | 00h30

A pergunta cuja resposta todos  querem ouvir, Mr. Miles. O que o senhor achou da decisão de seus conterrâneos de abandonar a Comunidade Europeia? Mendel Haim, por e-mail

“Well, my friend, só tenho a lamentar. Shame on us! Apequenamo-nos. E não vou falar sobre consequências políticas, tampouco me referir ao fato de que, em sua alma, todo inglês acha que nunca fez parte da Europa; foi a Europa que fez parte da Grã-Bretanha. Essa nossa famosa soberba ficou na História quando o Times, de Londres, publicou a clássica manchete ‘Tempestade no canal; a Europa está isolada’.

However, sempre tivemos o fairplay e o humor para amenizar essa injustificável posição de superioridade. Se é verdade que, um dia, comandávamos um império onde o sol nunca se punha, não é menos verdade que, ao recebermos os descendentes de nossos colonizados, décadas depois, tornamo-nos uma referência em tolerância. Nossas ilhas foram repovoadas por indianos, paquistaneses, caribenhos e árabes, que voltaram para cobrar, fairly, sua dívida cultural. E, assim como seguimos caminhando pelas ruas com nossos bowler hats, como o faço até hoje, nunca nos importamos com os turbantes ou os keffieh de nossos ilustres visitantes.

Meus queridos leitores sabem que sou um universalista e acredito que esse pequeno e belo planeta pertence a cada um de nós – e seria mais bem cuidado se o víssemos como nosso próprio quintal. Nesse sentido, dear Mendel, a globalização sempre me pareceu um avanço. A aproximação, o entendimento, o encontro, a compreensão da diversidade. Não fosse isso, nós, ingleses, continuaríamos comendo apenas kidney pies (N.da.R.: tortas de rim) e fish & chips. Foi a integração que nos melhorou a gastronomia, a economia e, last but not least, até mesmo o futebol – como negócio.

On the other hand, nunca fomos verdadeiramente comunitários. Somos uma ilha e agimos como ilhéus. O plebiscito, I must say, foi democrático e, portanto, inquestionável. Seus resultados mostram que temos mais hooligans do que gostaríamos e mais medrosos do que temíamos. Nações poderosas juntam-se porque podem comandar – e não porque receiam ser comandadas.

A grande festa dessa decisão anacrônica está sendo feita pelos burocratas, pelos fabricantes de carimbos e pelas pequenas autoridades. Essa súcia vive de pequenos obstáculos e normas inúteis. Ela ainda cuida de muralhas que já não existem e esquenta o azeite para jogar sobre a cabeça de inimigos que nem sequer sabem onde ficam as velhas pontes levadiças. Oh, my God! A única norma pela qual tenho respeito é minha tia Norma, de Birmingham, que, by the way, votou remain.

Pretendo passar algum tempo longe de minhas queridas e úmidas ilhas, assim como me afastei da Itália nos tempos em que Berlusconi caçava imigrantes. Não sei o que será da Escócia, que provavelmente vai no abandonar – mas já garanti à minha querida Trashie que, em nossa pequena casa no condado de Essex, jamais faltará um whisky bastante envelhecido ou um single malt. Repito: shame on us. Minha única possível alegria – unfortunately – é acreditar que, quanto menores nos tornamos, menos influentes somos e nossa pequenez não deverá desmontar a Europa toda. So help us God.”

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