Andrea Wyner/NYT
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Silêncios japoneses e mudanças venezianas

Nosso incansável viajante manda noticias de Tóquio, para onde não ia há algum tempo. É ele quem conta: “Well, my friends, adoro essa cidade e esse país. Um lugar onde as pessoas fazem mesuras para as outras, adoram jazz e bossa nova, produzem e consomem ótimos whiskies e, last but not least, respeitam seus idosos, só pode ser amazing. Felizmente eu falo japonês – embora com imperfeições –, condição que, of course, resolve-me um monte de problemas. Mas o que eu gostaria mesmo era de entender os longos silêncios dos japoneses; eles, é fácil notar, são mais eloquentes que as palavras. In other words: quase sempre o que não falam é muito mais relevante do que o que dizem. Velhos e sábios amigos como Renato Modernell e Walterson Sardenberg Sobrinho já diziam: um povo com talheres simples e língua complicada; que serve toalhas quentes e peixes frios; well, nunca será fácil compreendê-los. Mas temos todas as razões para admirá-los.”

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2016 | 00h02

A seguir, a pergunta da semana:

Querido Mr. Miles: ao contrário  daquilo que o senhor costuma sugerir, nunca volto aos mesmos lugares.  E é fácil explicar. Não suporto a hipótese de rever destinos em que fui feliz  e, numa segunda viagem, ter uma  experiência pior. O que o senhor acha disso? 

Anita O. Purjinski, por e-mail

“Well, my dear: entendo profundamente os seus motivos. E exemplifico. Voltar para um lugar depois de muito tempo equivale a fazer uma festa de reencontro da turma de 1976... Oh, my God: aonde teriam ido parar aquelas pessoas joviais? Como ficou encarquilhada aquela menina por quem eu nutria um sentimento! E fulano: era atleta! Hoje, um obeso mórbido. Que foi feito daqueles ideais de outrora?

O tempo, dear Anita, produz mudanças, unfortunately. Mas as cidades que são preservadas (ou apenas bem cuidadas) e as paisagens que só se modificam em milhões de anos costumam continuar as mesmas. 

Não quero dizer que uma lembrança tatuada em sua memória precisa ser substituída por outra. However, quase sempre, o retorno é um aumento da recordação. Posso apostar que ao rever, por exemplo, uma cidade como Londres, a tatuagem vai arder de alegria – e o que houver de novo servirá para ampliar suas sensações.

O contrário também acontece: retornar em um momento inadequado – muita chuva ou muitas greves, muita sujeira ou muito medo – pode trazer decepção. Mas não vai atingir, I presume, suas boas lembranças. Uma das melhores virtudes que temos, como humanos, é apagar o que nos decepcionou, magoou ou feriu – e lembrar, quase sempre, do que foi melhor.

Veja, for instance, o caso de Wendy Smith, que conheci em um cruzeiro pelo Adriático. Uma senhora simpática e, well... um pouquinho pegajosa, proveniente de Cincinatti, Ohio, que – ao contrário de você, darling – ansiava rever Veneza, aonde havia estado com amigos de high school décadas antes. 

Quando o navio ancorou em Dorsoduro, um dos bairros venezianos, perdi Wendy de vista (sou um homem de sorte, as you know). No fim da tarde, however, eu estava no Café Florian degustando um corretto (N. da R. cafezinho com grappa) e ouvindo a orquestra do estabelecimento. Nos primeiros acordes de Turandot, Wendy me achou, sentou-se à minha mesa e, com um ar de felicidade comentou: ‘Adorei voltar para cá. Mudou tanto, não é, Miles?’

Veneza? Mudar? Enquanto San Marco debatia-se em seu túmulo, entendi que mesmo uma cidade em que nada mudou nos últimos 500 anos pode sempre surpreender. Porque, afinal, mudamos mais rapidamente do que os próprios destinos.” 

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