Bruna Toni/Estadão
Bruna Toni/Estadão
Imagem Bruna Toni
Colunista
Bruna Toni
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Síndrome do túnel do tempo

Em lugares antigos ou diante de objetos e documentos do passado, mudo de época e chego até a conversar com seus personagens

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2019 | 03h00

Ando às voltas com o passar do tempo e a chegada da morte. Nada de explicações, de certezas que acalmam, de mais cinco minutos de acréscimo para os planos que estavam lá, aguardando o momento ideal para se realizarem.

Desde tempos remotos, mulheres e homens tentam encontrar sentido na morte, popular ou filosófico. Mescla de susto e fascínio, ela é tema de discussões intermináveis, e cada uma das formas de encará-la renderia aqui uma discussão. 

Estava eu em Tiradentes na última semana quando fui acometida pelo mesmo sentimento curioso e estranhamente nostálgico de outras tantas vezes em que viajei e adentrei um lugar antigo e carregado de história, desde às paredes que o sustentam até os objetos que o compõem. É a síndrome do túnel do tempo, e, com sorte, o leitor a compreenderá. Pois sempre que estou num espaço assim, me imagino fazendo parte dele à época em que ele era apenas presente, sem o peso do rótulo “histórico” que o futuro lhe daria.

Então, andei pelos estreitos becos de pedra de Tiradentes com meu All Star velho, mas como se estivesse calçando nada. Imaginava como era para as mulheres e homens negros escravizados terem de fazê-lo, enquanto os senhores brancos seguiam pelas ruas principais bem vestidos. Parada num dos cantos, me coloquei a recriar cenas do cotidiano do século 18 com o auxílio dos textos que já li, dos desenhos que já vi e das histórias que já ouvi, incluindo as contadas por Carol, líder negra e uma das vozes turísticas mais ativas da cidade.

Pouco depois, encostada numa das grandes portas da casa que pertenceu a Padre Toledo, um dos confabuladores da Inconfidência Mineira, recompus as salas tomadas de pessoas animadas, celebrando o batizado dos filhos do casal Alvarenga Peixoto e Bárbara Heliodora, parte da elite da então Vila de São José. A festa, realizada pelo padre, seria pretexto para a primeira reunião dos simpáticos à conjuração. E lá estavam eles, a poucos passos de mim, cochichando e arquitetando planos naquele 1788.

A síndrome do túnel do tempo já me levou a fixar os olhos numa maçaneta de porta de castelo e imaginar quantos não foram os que a tocaram ao longo dos séculos que antecederam minha chegada. Aquele trono pomposo do rei, aqueles balangandãs das moças negras, a carta de um rebelde, as grades de uma prisão que hoje é museu... Me coloco figurante em cenas do passado, chego até a conversar com seus personagens. Esta é a hora em que me sinto plenamente feliz em viajar. Viajo em todos os sentidos do dicionário.

Quantas não são as histórias que se passam num espaço e que nunca poderão ser por completo resgatadas? Muitas. Mas há tantas outras possíveis de serem recontadas quando um lugar, um objeto, um documento sobrevive aos anos, por destino, por sorte e, invariavelmente, por preocupação humana em preservá-los. Pois são apenas eles capazes de enfrentar a impetuosa passagem do tempo. Não só para serem contemplados materialmente, mas porque a existência material nos permite viver a deliciosa síndrome do túnel do tempo, rompendo a distância, para nós tão longa, entre séculos de pensamentos e ações. 

Eles, os lugares, os objetos, os documentos, nos aproximam daqueles e daquilo que nos trouxe até o presente mesmo após a morte de seus sujeitos. Nos situam no mundo porque são capazes de ir além da nossa própria existência e, se permitirmos, irão presentear as próximas gerações com a mesma graça e emoção de uma síndrome que transforma a passagem do tempo em algo mais fascinante do que doloroso. 

À memória daqueles que se despediram brevemente da vida nas irresponsabilidades em Brumadinho e no CT do Flamengo. Ao mestre Ricardo Boechat, que fez dos instantes vividos um passado inspirador às nossas e às próximas gerações. À força de Marielle Franco, um ano depois. Saber ter passado é mais reconfortante do que qualquer certeza de futuro que se pretenda.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.