Edgar Su/ Reuters
Edgar Su/ Reuters

Só os bons (e espiritualmente evoluídos) devem viajar no assento do meio

Mande sua pergunta para viagem.estadao@estadao.com

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

29 Maio 2018 | 03h00

Quis o destino, e a minha preguiça por check-ins antecipados, que a mim estivesse reservado aquilo que não se pode pronunciar. Em algumas culturas, ele é conhecido como ‘o coisa ruim’; em outras, como ‘cramunhão’. Mas a denominação mais comum é... O ASSENTO DO MEIO. 

Rezo uma Ave Maria toda vez que vejo um cartão de embarque cujo número do assento é seguido pela letra B ou E – o que significa, em 90% da vezes, que você viajará espremido entre dois seres desconhecidos e, eventualmente, flatulentos. 

O desconforto é inevitável. Por um lado, não se tem o prazer visual de quem está sentado na janelinha; por outro, não se desfruta a liberdade de quem pegou o corredor (principalmente naquela hora de se levantar para ir ao banheiro). No meio, acreditem, só nos resta o silêncio e a coisificação.

Lá, no meio, você é o tapume que separa duas vidas, o muro que pode estar dividindo Lennon e McCartney, Sullivan e Massadas, Harry e Meghan ou Zé Colmeia e Catatau. No assento do meio, você pode ser o entrave, o empecilho entre a doença e a vacina, a fome e a comida, a solidão e o amor da vida (um “empaca love” de carteirinha).

Nessa microssociedade de castas que se ergue instantaneamente no interior de uma aeronave você é o figurante da Malhação. Você vem depois de toda a tripulação, dos Brâmanes da primeira classe, dos que pagaram um extra para esticar as pernas e também de quem foi acomodado na saída de emergência (e que são considerados aptos para pelo menos não atrapalhar em caso de emergência).  

Acomodado na poltrona do meio, você está localizado, exatamente, no ponto cego da aeromoça. E quando for descoberto, vai ser apenas para passar a bandeja de café da manhã para o passageiro que está ao seu lado. 

Pois é, de tanto ser o cara que fica no meio, eu desenvolvi uma teoria reconfortante: ocupar esse tipo de assento é uma missão.

É preciso sabedoria para exercer o papel de quem está no meio. Quem viaja no meio é o detentor de um poder moderador. É uma espécie de juiz no Supremo Tribunal Federal de uma aeronave. Quem viaja no meio precisa ter aquele algo a mais, aquela característica rara e quase em extinção, o bom senso. Quem está no assento do meio precisa ter um coração maior. 

Os escolhidos para essa nobre missão precisam saber aguentar os chutes de uma criança mala, o ronco barulhento de um homem cansado e o desespero desalentado de quem tem medo de voar. Quem senta no meio precisa ter talento para o diálogo, saber cruzar assuntos, ser multitarefa e generoso. 

Só quem tem o sol em Libra (como Gandhi) ou o ascendente em Peixes (como eu, a Sheila Melo e uma das Kardashians) pode ocupar esse espaço tão desafiador sem causar desconforto. O ideal seria que as companhias aéreas definissem o assento de cada passageiro de acordo com um mapa astral – evitando, por exemplo, posicionar um escorpiano ao lado de alguém de Gêmeos. 

Sendo assim, aceito o papel que o destino me reservou. Serei sempre um homem comum, o típico passageiro vocacionado a se sentar no meio. Humildemente. #Paz.

Mais conteúdo sobre:
Brasil, Américas turismo Avião

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.