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Mônica Nobrega
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Sobre as estátuas que caem e as que ficam de pé

O Mandela gigante de Johannesburgo é um símbolo carismático, agregador e cheio de significados

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2020 | 03h00

Edward Colston foi parar no fundo do rio em Bristol. Cristóvão Colombo acabou dentro de um lago em Richmond, e perdeu a cabeça em Boston. O rei Leopoldo II neste momento repousa em algum galpão da Antuérpia. E o Borba Gato de São Paulo que se cuide: atualmente, são tantos os que se perguntam se a grotesca figura deve mesmo continuar na Avenida Santo Amaro que a prefeitura plantou ali um carro de polícia em tempo integral. 

O momento que vivemos é de repúdio público a esses homens do passado, considerados heróis benfeitores na história contada a partir da branca Europa. É a narrativa hegemônica no Ocidente, aquela que mesmo nós, aqui no Brasil, aqui na América do Sul, aprendemos como sendo a única e verdadeira história da humanidade. Os brutais crimes desses homens, os assassinatos de milhares, milhões de pessoas negras e indígenas cometidos nem sequer nos foram mencionados. 

É mais do que justo e oportuno o atual debate sobre a necessidade de manter esses homens em posição de destaque e homenagem nos espaços públicos das cidades contemporâneas. Tendo a gostar da ideia de remanejar esses monumentos para dentro de museus ou parques temáticos, onde podem seguir como registros históricos, mas perdem o caráter triunfal. Mas o que quero contar aqui é que toda essa conversa sobre estátuas nos últimos dias me levou de volta à minha cidade favorita de todas as que conheço no mundo, Johannesburgo. 

A maior cidade da África do Sul inaugurou uma estátua de bronze de 6 metros de altura de Nelson Mandela em 2004, quase dez anos antes da morte dele, em dezembro de 2013. Uma estátua da qual gosto bastante por uma série de motivos (já falo neles) e desgosto por um só. A razão do meu desgosto é a localização, o bairro de Sandton.

Sandton é a única coisa que considero uma quase completa perda de tempo em Johannesburgo. É uma área de construções ostensivas, de comércio internacional genérico, cadeias de fast- food, restaurantes caros e hotéis encontráveis em qualquer metrópole do planeta. 

O Mandela gigante está na porta de um shopping que é só isso mesmo: um shopping. Dito isto, a escultura de bronze é linda e feliz. Mostra de forma afetuosa um dos principais líderes políticos do século 20, literalmente gigantesco na sua luta incansável pela liberdade do povo negro e na defesa da igualdade de condições de vida e oportunidades para todas as pessoas. O monumento ressalta o carisma do homem que a África do Sul chama de pai. O Madiba esculpido está executando os seus famosos passos de dança, vestindo uma das camisas fluidas de estampas vivas que tornaram o ex-presidente sul-africano, além de tudo, um ícone da moda. É um monumento agregador, que celebra a vida. 

Ainda por cima, instalado em uma das áreas da cidade dominadas pelo ideário branco ocidental da especulação financeira, do lucro acima de tudo, é um convite à reflexão, como Mandela fez ao longo de toda a sua vida: qual mundo queremos? E para quem?

Mandela também tem estátuas em outras localidades sul-africanas. A uma hora tanto do centro de Johannesburgo quanto do de Pretória, o Centro de Visitantes Maropeng abriga mais de 100 esculturas, entre elas o monumento Longa Marcha para a Liberdade, que tem Madiba, a cantora Miriam Makeba e outros. Em Pretória, na Praça do Parlamento, há um Mandela sorridente de 9 metros de altura, com os braços abertos. Na Cidade do Cabo, foi inaugurada uma em 2018, na varanda da prefeitura. 

Estive em Johannesburgo três vezes. Revisitando meus arquivos para este texto, encontrei boas fotos de outros pontos icônicos da cidade onde Mandela viveu seu ativismo político. Lugares como o Museu do Apartheid; Constitution Hill, prisão onde estiveram ele e outros ativistas contra a segregação; a casa no distrito de Soweto onde o ex-presidente sul-africano morou com duas de suas esposas, primeiro Evelyn, depois Winnie, e que fica na rua que também foi endereço de outro ganhador do Nobel da Paz, Desmond Tutu; a majestosa ponte Nelson Mandela; murais que prestam homenagens em bairros do centro como Maboneng e Braamfontein. 

Percebo agora que nunca fiz uma boa foto do Madiba gigante. Na minha próxima visita, quero consertar isso. A estátua em Sandton tem estatura para se manter de pé. 

 

Dá para ir para a na África do Sul? 

O país decretou lockdown em 27 de abril e, desde o fim de maio, vem conseguindo achatar a curva de novos contágios e mortes por covid-19. O pico foram 82 mortes por dia – atualmente, são mais de 65.700 casos confirmados e cerca de 1.420 mortes. Já teve início uma lenta reabertura, com permissões para deslocamentos entre províncias, mas não para a entrada de visitantes do exterior.

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