Sobre clichês e palavras desgastadas

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

02 Agosto 2016 | 03h00

Nosso preclaro viajante acordou aparentemente mal-humorado com tantas bobagens que lê. E aproveitou a correspondência da semana para deixar bem claro o que pensa a respeito. 

Querido Mr. Miles: já não sei mais o que fazer. Vou procurar viagens e só encontro experiências. O mundo está virado de cabeça para baixo? Um beijo.  Juliana Curd, por e-mail

Yes, my dear, o uso inadequado da palavra experiência é um fenômeno mundial. E, in fact, toda viagem é um experimento, mas nem toda experiência é uma viagem. Um teste químico, por exemplo. Pode transformar água em vinho ou derrubar uma torre. Mas não se pode chamá-lo de uma viagem, don’t you agree?

In fact, darling, os publicitários andam pouco inspirados ou a falta de noção tem tomado conta da maioria deles. Experiência não quer dizer, as you know, uma coisa necessariamente boa. Você viaja para um lugar qualquer e pode viver a experiência de ser devorado por borrachudos ou abelhas africanas. Am I right? Então por que as pessoas insistem em vender qualquer viagem com o título de experiência?

No passado, as pessoas iam tomar banho em uma estação termal. Hoje, vão fazer experiências sensoriais em um spa. A palavra ‘sensorial’, by the way, é outra das expressões vazias que deveriam ser suprimidas de qualquer texto que se refira a viagem. E, aliás, experiência sensorial é um pleonasmo disgusting.

 

As coisas, I dare to say, andam muito chatas nos textos de viagem. Por exemplo: dizer que o hotel X tem um Nobu é tão velho quanto dizer que a cidade X tinha um Hard Rock Cafe. My God: esse japonês reproduz-se mais que coelho. Não duvide: em breve haverá um Nobu na casa ao seu lado. Se é que alguém não vai querer montar um na sua própria! 

E vamos adiante com os inomináveis clichês que assolam o turismo de viagem em geral. Paradise é o pior de tudo. Qualquer endereço que tenha uma praia, uma cascata, uma fonte ou simples bica já é chamado de paraíso. Aliás, há também o Paraíso das Pamonhas, dos Pneus, das Cortinas and so on. Não é a hora de eliminar esse termo vazio do nosso vocabulário?

Ou você prefere uma praia icônica? Shame on us: icônica é, quiçá, pior do que paraíso. Pode ser substituída pela também desgastada palavra emblemática. Mas se você acha mesmo que tem de usar esse termo sem conteúdo, sugiro que experimente efígica. 

Outra praga que nos assola, em minha língua natal ou em português, é o substantivo hype, cujo único significado é esse mesmo: hype. E daí: tomei uma mordida hype de um cachorro cool. Isso me deixa na moda? O pior é que o substantivo hype deu origem ao adjetivo hypado. Assim: a discoteca tal é muito hypada. Teria hippies entre os frequentadores? Ou será que um hypado de capa e espada estará lá dentro prestes a decapitá-lo?

Acho que estou sendo horrível, my dear. Mas não suporto mais lugares-comuns (aliás se os lugares forem comuns, não há motivos para visitá-los, isn’t it?). Imperdível é imperdoável. E se for imperdoável, porque não perdê-lo?

E outras abominações como hotel butique. O que é isso: uma loja onde você pode hospedar-se? Um hotel onde você pode fazer compras? Ou, mais literalmente, um hotel do tamanho de uma caixinha?

Vou fazer uma coisa, dear Juliana: servir-me (e à Trashie) de um ótimo single malt da ilha de Islay. Deixar minha cabeça viajar por tantas paisagens lindas que conheci. E, my God, se eu disser que alguma delas é paradisíaca, fechem a garrafa. Será sinal de que perdi o senso.”

 

MR. MILE É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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