Marcos Müller/Estadão
Marcos Müller/Estadão

Sobre malas e patrocinadores

Leitor questiona onde o homem mais viajado do mundo guarda suas coisas

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2013 | 02h09

Nosso interminável viajante mandou avisar que foi visitar seu amigo Hassanal Bolkiah, o sultão de Brunei, "que tem uma ilha muito menor do que as nossas, porém muito mais abundante, proporcionalmente, em petróleo".

Bolkiah é um velho colega de mr. Miles, tendo feito toda sua formação educacional em escolas inglesas. Tido como um dos homens mais ricos do planeta, ele costuma consultar nosso viajante sobre o que deve ou não deve comprar. Foi assim, aliás, que o sultão adquiriu a rede Dorchester de hotéis que possui, entre outros, o Le Meurice e o Plaza Athenée, em Paris, e o próprio Dorchester, em Londres.

A seguir, a pergunta da semana:

Viajado mr. Miles: hello! Esta dúvida me persegue há muitos meses e, após a leitura de sua coluna de 9 de março, não me contive e vou aguardar ansioso por seu retorno. Você ajudou uma leitora a refletir sobre o difícil dilema entre comprar um apê ou continuar viajando com uma resposta, as ever, interessantíssima. No entanto, não contou onde o próprio mr. Miles guarda suas malas. Em que país? Qual cidade? Por quanto tempo aproveita tal local? E, "viajando" um pouco mais no tema, acrescento: como faz para se manter? Money, I mean: só trabalha para o Estadão ou tem outros patrocinadores? Um grande abraço e kind regards.

Alexandre F. Lukaisus, por e-mail

"Well, my friend, entendo sua curiosidade, mas não vejo muita pertinência em ficar falando de mim mesmo, quando há tão vasto mundo a ser explorado. Vou, however, abrir uma exceção, para mostrar que não me esquivo das dúvidas de meus leitores.

Quanto à primeira parte de sua pergunta, sou forçado a lhe dizer que viajo com muito pouca bagagem. Minhas pequenas e práticas malas ficam armazenadas, por pouquíssimo tempo, no chalé que pertenceu aos meus antepassados no Condado de Essex. Os leitores habituais dessa coluna já viram, muitas vezes, referências a esse meu simpático (embora úmido) refúgio. Nem sempre eu viajo com todas elas - são três peças apenas -, mas faço questão de que seu couro nunca sofra ressecamentos.

Unfortunately, os carregadores de bagagem, aqueles seres invisíveis (e, em muitos casos, desprezíveis) que lidam com nossos objetos como se eles fossem bolas de boliche, vivem produzindo doídas cicatrizes nas malas. Não só nas minhas, I presume. Por isso, sempre que retorno de minhas andanças, eu as envio para a oficina de sir Roger Bailey, um notável seleiro que faz milagres com artefatos de couro.

Devo lhe dizer ainda, my friend, que para viajar tão levemente possuo bagagens guardadas nas casas de meus amigos, compadres e afilhados nos cinco continentes, cada uma delas formada por kits essenciais ao clima, aos costumes e às atividades mais comuns nas respectivas regiões. Sei que nem todos podem fazê-lo - por isso minha relutância em relação à sua pergunta -, but, well, alguém que viaja com a minha assiduidade pode ter lá suas excentricidades.

Quanto à segunda parte de sua questão (money, you said), vivo de um pequeno investimento que fiz em aposentadoria privada, o único dinheiro que tive o juízo de guardar e que foi tudo o que me sobrou depois que eu torrei a grande fortuna que herdei de uma contraparente que sequer conheci. Mas não me arrependo de nada: foi daquele espólio que tirei meu talento para viajar e conquistar amigos e, sometimes, para contar histórias aos meus admiradores, que são muitos.

Não tenho patrocinadores e meu trabalho para este bravo matutino é uma espécie de voluntariado que pratico prazerosamente. Aliás, se alguém tiver interesse em patrocinar este viajante, posso assegurar que será muito bem-vindo. Vou seguir viajando anyway. Mas posso dar um upgrade no bom uísque de cada dia. Minha mascote Trashie vai adorar..."

* É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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