Sobre resorts e hotéis

Nosso atento viajante manda notícias de Nova York, para onde foi com o intuito de ver algumas exposições no MoMa e no Guggenheim. E para matar sua vontade de comer o sandwich de pastrami na Katz's Delicatessen, no 205 da Houston Street. A seguir, a correspondência da semana:

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2015 | 02h05

Mr. Miles: gostaria de saber qual é a diferença entre um hotel e um resort. Vejo, a todo tempo, propagandas que usam esses nomes, mas ainda não entendi a diferença. O senhor poderia me esclarecer?

Luciana Macerani, por e-mail

"Well, my dear: em inglês, a palavra resort tem vários significados. Escolho dois deles para ilustrar minha resposta. Resort significa refúgio em determinadas frases mas pode, as well, ser sinônimo de solução. Muitos afirmam que a diferença entre os hotéis e os resorts é a quantidade de serviços e diversões que esses últimos oferecem. Para esses simplistas, os hotéis não ofereceriam nada além de hospedagem - o que é uma leviandade, visto que qualquer bom hotel hoje tem um spa, um bom restaurante, um business center and so on.

Prefiro, therefore, a mistura das duas acepções que tirei do dicionário de Oxford. Os resorts são, em geral, ao mesmo tempo refúgios e soluções. A palavra, by the way, não era utilizada antigamente. Hoje serve, sobretudo, para identificar um lugar que é um destino completo by itself. Por exemplo: há muitos resorts na Jamaica e, unfortunately, não é preciso ultrapassar os limites da propriedade para desfrutar de férias deliciosas.

Isso ocorre, sobretudo, com gente ligeiramente amedrontada, que tem receio de ir a Kingston encontrar os habitantes locais, visitar os museus de gente do reggae e da marijuana. Há o risco de alguma violência? Sim, sempre! Como há o risco de você se desentender com outro hóspede do resort na fila do bufê - e, my God, a discussão terminar em violência generalizada.

Cancún nasceu com esse propósito: o de ser um resort, uma espécie de gueto ou ilha da alegria no território mexicano, onde você pode, por muitíssimo azar, ser abordado por um traficante de cocaína ou picar-se doloridamente em um cáctus no deserto. Devo lhe dizer, darling, que o marketing funcionou. A proteção de uma cidade feita para turistas acabou atraindo milhões de viajantes do mundo todo. E, I'm happy to say, muitos deles decidiram ir além da felicidade artificial de que desfrutavam -, no mínimo, conheceram belas ruínas maias e, mais tarde, alongaram seus trajetos para a capital, às maravilhosas cidades coloniais espanholas e às riquíssimas paisagens daquele país.

Confesso, besides, que adoro o México, com todas as suas variáveis, seus governos pouco confiáveis e sua população extremamente alegre. É o Brasil de bigodes! E de sombreros!

Os resorts, portanto, são excelentes para esse propósito. E nem todos, by the way, são grandes, populares e até exagerados em suas atrações. Há resorts muito elegantes, tranquilos e discretos. Como o de Ponta dos Ganchos, nas proximidades de Florianópolis, no nosso querido Brasil. Ele tem apenas 25 bungalows de padrão muito sofisticado e, entre suas árvores, as três pequenas ilhas que o rodeiam e a praia de dimensões reduzidas, príncipes, artistas, empresários e desportistas famosos podem aproveitar suas férias.

Já estive lá, once, a convite de meu querido amigo britânico Nicholas Razey, um dos sócios do empreendimento. Comi muito bem, li fartamente e voltei feliz. E veja bem, dear Lucy: o Ponta dos Ganchos não aceita crianças. Para preservá-las dos riscos de sua topografia acidentada e, of course, para poupar os demais hóspedes da algazarra, tão especial em resorts feitos para o prazer dos pimpolhos. Espero, enfim, que a explicação possa tê-la satisfeito. Não importa se for hotel ou resort. Importa que você fique feliz."

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