Souvenirs de viagem

Atendendo à leitora Juliana Silveira, nosso bravo viajante relembra um episódio em que se divertiu muito na África do Sul. "Estava em meu caminho para Outsdhoorn quando os vi pela primeira vez naquela condição. It was unbelievable. Mandela, ao meu lado no velho MG, notou meu espanto e desatou a rir. Era um caminhão de avestruzes, muito semelhante aos que transportam gado. De trás, onde estávamos, via-se apenas a parte superior dos longos pescoços, com os bicos girando como longos periscópios de submarinos militares. Não há nada mais engraçado, my friends, que avestruzes. Ainda mais um conglomerado deles, emitindo sons que soam como 'hum, hum…', semelhante aos que certas pessoas emitem quando querem concordar com ironia, manifestando, de fato, discordância.

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2012 | 03h08

Nessa parte da África do Sul, os avestruzes substituem o gado. Mandela me explicou que os curiosos bípedes são muito rentáveis. As plumas, que se renovam todos os anos, são vendidas para shows e festas, inclusive o carnaval do Rio. Os ovos produzem omeletes e, de sua casca, são feitos diversos tipos de bijuterias. O couro resulta em cintos e bolsas e a carne ganha cada vez mais prestígio na alta gastronomia. Vê-los chacoalhando em um caminhão, contudo, é uma diversão que não tem preço." A seguir, a correspondência da semana.

Mr. Miles: o que o senhor considera um bom souvenir para trazer de uma viagem? Silvia Lorenzoni, por e-mail

"Well, my dear Silvia, eis o que chamo de uma very personal question. A impressão que tenho, observando o bagageiro dos aviões em que voo, é que most of the travellers compram suas lembranças antes mesmo de conhecer o destino. Ou seja: se alguém vai à Espanha, não importa quantas maravilhas encontre à venda, sua ideia fixa é trazer um leque ou um cartaz de touradas com o nome do presenteado estampado ao lado do de Manolete. No Brasil é ainda mais divertido: são raros os estrangeiros que não compram um berimbau. By the way, ouso dizer que todos os aviões de carreira do planeta transportam ao menos um berimbau, o que me faz supor que a capoeira é o jogo mais popular do mundo.

Quanto a mim, Silvia, confesso que sou um consumidor bissexto e seletivo. Se algum produto me chama a atenção é pelo significado que tem para o presenteado. Ainda outro dia, em Ashgabat, no Turcomenistão, encontrei uma lata de biscoitos de estampa primorosa com arabescos coloridos. Nela despontaram, imediatamente, os olhos profundos de Peña de la Cruz, uma querida amiga de Tegucigalpa, cujo charmoso solar é recheado de caixas e latas em delirantes composições. Creio que ela tenha gostado da lata - que remeti imediatamente -, mas aposto que o fato de eu ter lembrado de sua singela coleção em um lugar tão distante terá sido muito mais remarkable.

Há outros souvenirs que agradam. Sobretudo os que misturam carinho com ironia, ideais para pessoas de quem você gosta, mas com as quais mantém inconciliáveis divergências. Mildred Collins, my dear Mildred, é um bom exemplo. Trata-se de uma ecologista militante e exacerbada, capaz de passar uma descompostura em um transeunte que, desatento, pise numa centopeia escondida na relva. Do you know this kind of people? Até cenouras ela come com piedade (Oh, poor carrots!). Pois, quando eu passar em Capetown, na volta para a Europa, vou a uma loja que conheço para comprar-lhe um maço de scarab paper. São apenas folhas de papel para escrever, um pouco fibrosas demais, mas perfeitas para presentear ecochatos.

Elas não resultam de árvores derrubadas, mas, believe me, de um processo de aglutinação dos dejetos de elefantes. Nada poderia ser melhor reciclado. Don't you agree?"

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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