Valerio Mezzanotti/NYT
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Sozinho nas novas e temporárias Ruínas de Roma

Os museus estão abertos. Alguns visitantes retornaram. É bonito, mas não pode ficar como está

Jason Farago, The New York Times

30 de junho de 2021 | 20h00

As imagens mais perenes desta cidade depois do cataclisma foram impressas há pouco mais de 250 anos pelo artista Giovanni Pattista Piranesi. Suas gravuras que compõem a exposição Ruínas de Roma retratam monumentos emblemáticos como o Panteão, o Castel Sant’Angelo, mas suas obras mais famosas mostram jardins com entulhos e pontes que desabaram e senhores com chapéu tricórnio caminhando por templos desmoronados e ossários cobertos pela vegetação. Para os filósofos e nobres do século 18 no Grand Tour, os dramas das Ruínas de Roma demonstram a transitoriedade da civilização – mas elas se tornaram um guia turístico de qualidade superior. Os bons dias chegaram ao fim, mas voltaram de alguma maneira; Roma está mais interessante, sem ninguém.

Recentemente, tive minha própria visão da Cidade Eterna vazia: no Instagram, principalmente, à medida que Roma e outras capitais europeias começaram a reabrir seus museus e lugares históricos (e em alguns casos seus teatros) para um número limitado de pessoas. Os moradores retornaram em grande número. Os turistas estão voltando a conta-gotas. Mas instituições culturais normalmente lotadas estão em algum ponto perto dos níveis de público de antes da pandemia – e, como os turistas no Grand Tour de Piranesi no Fórum vazio, achei melhor ver as ruínas por mim mesmo.

No Palazzo Barberini, que abriga a coleção nacional dos velhos mestres da Itália, eu era o único a caminhar pelas galerias abertas que hospedavam uma grande mostra de pintura barroca e confecção de relógios. Em mais da metade das salas dos Museus Capitolinos, na “piazza” projetada por Michelangelo, havia somente eu e os bustos de mármore. A capela Chigi, de Rafael, em primeiro plano na Santa Maria del Popolo, a obra de Caravaggio, A Vocação de São Mateus, em San Luigi dei Francesi, os mosaicos do final da era medieval de Santa Maria, no Trastevere, tudo para mim.

Privada de muitos visitantes, Roma é o maior pacote de estímulo cultural do mundo. Esses museus e instituições de arte perderam três quartos do seu público durante o ano da pandemia. Mas, com as vacinações e a redução das restrições de viagem, os museus romanos e outros europeus – alguns deles praticamente divorciados do público local com o turismo de massa no auge no final dos anos 2010, enfrentam dificuldades financeiras, cancelamentos de programas e até possíveis fechamentos.

Pergunta 1 – Como vão retornar? Pergunta 2: Se você necessita de uma crise de saúde global para apreciá-los adequadamente, devem eles retornar da mesma maneira?

A Itália foi o primeiro país europeu a instituir um lockdown, impondo restrições de viagens severas para conter a propagação do coronavírus. Seus 464 museus, monumentos e sítios arqueológicos não foram poupados: as admissões despencaram 76% entre 2019 e 2020, de acordo com o ministério italiano da Cultura. O museu do Vaticano, antes superlotado, e o quarto mais visitado do mundo – viu um declínio de 81% do público, de 6,8 milhões em 2019, para 1,3 milhão em 2020 (e um milhão deles chegaram nos dois meses antes do primeiro lockdown).

A grande exposição de Rafael no ano passado em Roma foi vista por apenas 120 mil visitantes; a de Leonardo da Vinci no Louvre em Paris, antes da pandemia, foi vista por um número 10 vezes maior de visitantes.

Paolo Nicolini, vice-diretor do museu, falou-me de “um aumento de visitas de jovens e uma interação com os Museus do Vaticano como nunca antes”, acrescentando que os italianos hoje constituem a maior parte dos visitantes pela primeira vez que ele lembra nos últimos anos. Uma crise de saúde pública dificilmente é a solução ideal para o excesso de público e centenas de milhões de euros de prejuízos são um preço muito salgado a pagar por uma fila mais curta. Se o turismo de massa é um problema, as imagens de ruínas de Piranesi não são a solução.

O governo italiano implementou um pacote de estímulo à cultura de 6,7 bilhões de euros – ou US$ 8 bilhões – grande parte do dinheiro direcionada para melhorias nas ofertas digitais conhecidamente medíocres dos museus. Mas os museus do país oscilam entre a negligência oficial e o excesso de turistas e precisam de novas e mais sólidas bases para estimular os estudos acadêmicos, manter o público, atrair financiamento e direcionar os visitantes para os seus maiores monumentos históricos nas grandes cidades.

“Existem maneiras de engajar o público de modo que turistas e visitantes locais possam estar juntos”, disse Annalisa Cicerchia, professora da universidade de Roma Tor Vergata e coautora de um novo estudo sobre os museus italianos após a pandemia. Sem os grupos que fazem tours pelos museus, disse ela, é preciso usar este tempo para expandir os esforços de educação e como chegar às pessoas – e apontou para os recentes sucessos dos museus de Roma com programas destinados a migrantes e pessoas mais idosas.

E, sobretudo, a pandemia exige que os museus tenham uma real razão para existirem, uma missão que o número de turistas cada vez maior deixou que eles perdessem o foco. “Basicamente a pergunta é a mesma: o que um determinado museu tem que o torna incomparável?”, disse a professora. “É relevante para sua experiência e a sua vida? Ou para lembranças que você acalentará no futuro?”

Há vestígios de uma resposta a essa questão em algumas instituições romanas, como o Museu Nacional de Arte do Século 21, mais conhecido como MAXXI. Em sua sede projetada por Zaha Hadid, há uma gigantesca mostra de artistas da antiga Iugoslávia e uma exposição coletiva sobre programas recentes no campo da tecnologia e migração, o que indica como um museu romano pode pôr em primeiro plano temas locais e regionais e ainda assim atrair um público. (Cicerchia citou o novo espaço do MAXXI em L’Aquila, onde os visitantes locais chegam aos milhares e estudantes são treinados como guias, como um sucesso particular em termos de alcançar o público).

Ou, para uma visão mais sombria do futuro, há a exposição de Damien Hirst, que tomou conta de todos os espaços da Galeria Borghese com uma mostra de falsas antiguidades de destroços fictícios de um navio. Dafne e Apolo, de Bernini, entre as mais delicadas esculturas de mármore já criadas, tem de dividir sua galeria com três esculturas de casais de escravos acorrentados cujo revestimento lembra uma embalagem de poliestireno.

Pinturas pontilhadas tão sem graça como um carbonara vegano estão entre os quadros de Rafael e Renis, deuses e heróis espúrios cobertos de crustáceos se sobressaindo em meio às estátuas antigas. É uma das mais perversas e atrozes exposições que já vi. Parece um ato de masoquismo público e acho que poderia ter gostado dela.

Quando vi essas falsas antiguidades há quatro anos tive a mesma reação. E minha opinião não mudou, mas na Roma vazia, ainda cambaleando depois de uma carência cultural de um ano, eu me senti estranhamente comovido com essa impostura catastrófica e a falta de esperança das obras de Damien Hirst.

A Renascença, afinal, foi também uma época de imitação de antiguidades, quando em meio às pragas e turbulências os ricos criaram palácios simulando os dias de glória de Roma. Não havia nem mesmo um toque de erudição que os príncipes Borghese adicionaram; apenas a sensação “Piranesiana” de que os bons tempos ficaram para trás e você está aqui a caminhar pelas ruínas.

Tradução de Terezinha Martino

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