Tuca Reinés
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Staycation: a experiência de ser turista na própria cidade

Na falta de estrangeiros e executivos, hotéis criam programas especiais para atrair público local

Nathalia Molina, Especial para o Estado

14 de setembro de 2020 | 05h00

No início de setembro, Luiz Eduardo Freitas e Flávia Rezende Dias se hospedaram no Renaissance, clássico hotel perto da Avenida Paulista. No entanto, não era a primeira vez do casal na região turística da capital. “Moramos em São Paulo mesmo. Foi para ter uma experiência diferente, frente a essa loucura que estamos vivendo. Tínhamos uma viagem para Portugal e outra para Fernando de Noronha. As duas foram canceladas. Então estamos aproveitando São Paulo”, conta Freitas.

O turismo local ou regional é a tendência apontada para o início da retomada do setor de viagem pós-pandemia. Embora venha caindo, o total de mortes por coronavírus no Brasil permanece em um alto patamar, mas o cansaço de meses de isolamento levou as pessoas a viajarem de carro para perto de casa ou até ser turista na própria cidade. Pensando em atrair esse viajante, hotéis apostam em pacotes para quem busca uns dias de folga em capitais ou destinos próximos dos grandes centros do País.

O Renaissance São Paulo Hotel, onde o casal ficou, e o Marriott Executive Apartments, registraram um aumento médio de 50% de moradores da capital paulista entre seus hóspedes a lazer. Percebendo este crescimento, o grupo Marriott, proprietário das duas bandeiras, criou o pacote Redescubra o seu País: Staycation, disponível em algumas das suas unidades em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Região Sul.

O que é staycation?

No exterior, staycation significa algo como tirar férias na própria cidade, mas é também uma palavra usada como sinônimo de turismo doméstico em certo contextos. Por aqui, a palavra desembarca com a pandemia. É a mais nova integrante de um glossário de viagem repleto de expressões em inglês. “É fácil praticar staycation em um lugar como Nova York”: é o exemplo do dicionário Cambridge para explicar a contração de stay (ficar) com vacation (férias) na língua inglesa. Surgida em 2005, em um texto do Washington Post, a palavra e a prática se tornaram populares uns três anos depois, durante a crise econômica decorrente da bolha imobiliária nos Estados Unidos, ocasião em que a libra esterlina do Reino Unido também sofreu desvalorização.

“A palavra staycation se fortaleceu recentemente no Brasil a partir da pandemia”, explica Helena Costa, coordenadora do Laboratório de Estudos de Turismo e Sustentabilidade (Lets), da Universidade de Brasília (UNB), ressaltando que o hábito de conhecer a própria cidade e de fazer viagens curtas já existia no Brasil em fins de semana e feriados prolongados. “Quando você olha para o staycation, ele ocorria por outras razões: pouco tempo ou restrição de dinheiro. No plano nacional de marketing turístico, feito em 2014, já aparecia que o brasileiro viaja muito de carro e regionalmente. Só que agora existe uma novidade: a gente não deve se deslocar. Tem algo externo (pandemia) nos dizendo para respeitar a necessidade de isolamento.”

Pacotes turísticos unem acomodação e boa mesa

Como ocorreu muitos hotéis de luxo, o Fasano São Paulo também percebeu uma mudança no público, com os eventos e negócios parados presencialmente na capital devido à pandemia. “Atualmente, a maioria dos nossos hóspedes vem a passeio, muitos pela primeira vez no hotel, à procura de descanso, compras na cidade e comemoração de datas especiais”, afirma Constantino Bittencourt, sócio diretor do Grupo Fasano. “Criamos programas especiais de hospedagem para fomentar o turismo nacional e proporcionar uma experiência especial.”

Ele se refere ao Experimente São Paulo e ao One More Night (a reserva de três ou quatro noites garante a última de cortesia). No primeiro programa, que exige mínimo de três noites, o refinamento gastronômico do grupo é a inspiração: inclui duas experiências nos restaurantes do Fasano, com uma garrafa de vinho Chianti no primeiro dia e um prato principal ou sobremesa (para dois) na segunda noite.

Já o Fasano Boa Vista, na paulista Porto Feliz, a cerca de 120 quilômetros da capital, serve de refúgio para viagens de duas a quatro noites. “É uma maneira de escapar da aglomeração da cidade grande e aproveitar os dias em meio à natureza. Recebemos muitos casais e famílias com filhos”, conta Bittencourt.

Sobre staycation, ele diz: “Acreditamos muito no potencial turístico, econômico e social das cidades onde o Fasano está presente. É uma oportunidade para que as pessoas passem a olhar de novo o Brasil e as cidades onde vivem com outros olhos.” Sobre staycation nas capitais – também há hotéis do grupo no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em Salvador –, Bittencourt diz: “Acreditamos muito no potencial turístico, econômico e social desses lugares. É uma oportunidade para que as pessoas passem a ver de novo o Brasil e as cidades onde vivem com outros olhos.”

O Unique, que recebia muitos executivos durante a semana, passou a registrar a busca de casais e famílias que moram em bairros paulistanos. Para atender a demanda desse público sofisticado, o hotel juntou a hospedagem com a gastronomia do chef Emmanuel Bassoleil. “Criamos produtos no Unique São Paulo, como a experiência de hospedagem com jantar no Skye ou com queijos e vinho”, conta Marcel Marin, diretor comercial dos hotéis Unique.

“No Unique Garden, estão disponíveis os tours pelas hortas e jardins e a contratação de serviços personalizados, como piquenique ao ar livre e aulas de ioga.” Em Mairiporã, distante em torno de 50 quilômetros de São Paulo, o hotel reabriu com chalés novos e passou a aceitar crianças todos os dias; antes da pandemia, isso ocorria apenas um fim de semana por mês. “O Unique é como um oásis dentro da cidade e quanto os clubes estavam fechados e os condomínios restringiram o uso das áreas, o hotel se beneficiou por possuir toda a infraestrutura, com o serviço adequado pode preencher estas necessidades. Temos a famosa piscina vermelha localizada no rooftop, o espaço Body & Soul, onde está localizada a piscina interna com um tobogã e também pelo nosso exclusivo Spa Caudalie.”

Foco no viajante brasileiro

Há previsão de recessão mundial e, por causa dos nossos números ruins em relação à covid-19, o Brasil saiu da wish list de muito estrangeiro - muitos desses hotéis recebiam visitantes do exterior a trabalho. “De uma maneira geral, os hóspedes internacionais representam 65% da ocupação. Neste momento, esse mercado representa menos de 1%. Os estrangeiros que se hospedaram aqui desde a reabertura do hotel já residem no Brasil”, afirma Cassiano Vitorino, gerente de comunicações do Belmond Copacabana Palace.

Com a oferta Staycation, o público local volta a ser alvo. “Não é a primeira vez que fazemos um pacote voltado para os moradores, já tivemos o Carioquinha, em 2016, exclusivo para residentes do Rio de Janeiro. Neste momento, o nosso foco é o mercado nacional. Portanto, não só o carioca terá uma boa opção, como os brasileiros de uma maneira geral. Para isso, temos o pacote Stay a Little Longer, que oferece uma noite a mais para hospedagens de três diárias, e o Long Stay, com sete noites e benefícios como desconto na lavanderia, no restaurante, passeio de bicicleta ou aula de tênis.”

A acomodação em luxuosos hotéis, como o Copacabana Palace, está no cardápio da Passion Brazil, empresa com sede no Rio que, desde 2004, recebia viajantes internacionais e teve de redirecionar seus negócios com a pandemia. Agora, leva cariocas e visitantes para praticarem atividades ao ar livre, caso do stand up paddle nas praias ou de trilhas com piquenique no fim do passeio.

Os hotéis Hilton de Copacabana e da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, também têm um novo programa. O Viaje com Tranquilidade garante a brasileiros 25% de desconto na tarifa, estacionamento, café da manhã e late check-out. O pacote existe também no Hilton São Paulo Morumbi. Para celebrar seus dez anos juntos, Igor Mariano de Andrade Oliveira e Jonatas Costa Pereira saíram do bairro do Jabaquara para passar o feriado de 7 de setembro no hotel diante da Ponte Estaiada.

“Na nossa opinião, o Hilton representa a essência de São Paulo. Há décadas estava localizado no Centro e fazia parte do verdadeiro luxo na cidade. Depois migrou para zona sul se mantendo firmemente como um dos hotéis mais lindos que temos até hoje. Para nós, é o hotel mais icônico de São Paulo e com certeza possui a melhor vista, tanto dos quartos quanto da área da piscina. Ver o pôr do sol no Hilton foi inesquecível”, diz Oliveira.

Hóspede local e regional

O requintado Palácio Tangará e o icônico Maksoud Plaza seguem com experiências para uma escapada a dois e oferecem produtos novos. O público do interior paulista é a aposta do Maksoud, com uma diária promocional. “Muitas pessoas estão viajando mais de carro do que de avião, por se sentirem mais seguras. Por isso, os hóspedes que vivem em cidades próximas de São Paulo e querem mudar de ares com segurança são um dos nossos focos”, diz Patricia Garcia, diretora de Operações do hotel.

“Para a nossa reabertura, criamos as experiências Escape, Stay Longer e Redescubra o Palácio Tangará”, diz Celso do Valle, diretor do cinco-estrelas integrante da Oetker Collection. A primeira prioriza quem trabalha em home office, mas quer viajar com a família (o hotel cede um quarto extra de cortesia para escritório); a segunda é voltada para hospedagens de no mínimo sete noites; e a última prevê duas noites com café da manhã e desconto nos restaurantes. “Como somos o hotel com a maior área verde na capital, sempre tivemos a procura de paulistanos que buscam um ambiente único. Também somos o único hotel da cidade com um restaurante premiado com uma estrela Michelin, o Tangará Jean-Georges.

O Tangará retoma suas atividades em 17 de setembro com novo restaurante ao ar livre, o Pateo do Palácio. “Com as restrições de locomoção, a procura dos paulistas e paulistanos pelo Palácio Tangará cresceu ainda mais, evidenciando a resistência do público a se expor em viagens longas.”

Na Serra Gaúcha, a estratégia de um dos hotéis também é conquistar o público regional, com a promoção Wyndham Gramado Dá um Gás para Você, que distribui vouchers de combustível para incentivar o turismo regional. “A importância desse tipo de campanha é incentivar o turismo regional, que é o primeiro a voltar com mais força nesta retomada do turismo. As pesquisas já apontavam essa tendência, desde o início da pandemia na China, e ela tem se confirmado aqui”, afirma Marc Balanger, gerente geral do hotel.

Desde que o Wyndham Gramado reabriu, em 14 de maio, 58% dos hóspedes moram nos Estados do Sul. Antes da pandemia, esse público respondia por 39% da ocupação, enquanto 55% eram turistas de São Paulo.

Quanto custa

Todos os valores abaixo são os mais em conta para diária para duas pessoas:

Belmond Copacabana Palace: A oferta Staycation do hotel no Rio sai por R$ 1.584, com café da manhã.

Fasano: No Experimente São Paulo, na capital, sai por R$ 1.600. Esse programa do Fasano São Paulo exige um mínimo três noites e inclui duas experiências nos restaurantes do grupo, uma garrafa de vinho Chianti no primeiro dia e um prato principal ou sobremesa (para dois) na segunda noite. No Fasano Boa Vista, a diária custa R$ 1.670, com café da manhã.

Hilton: Na capital paulista, a tarifa do Hilton São Paulo Morumbi é R$ 399, com café da manhã, estacionamento e late checkout.

Maksoud Plaza: Quem mora no interior paulista é o foco da tarifa promocional do Maksoud Plaza. Para um ou dois adultos, com café, sai por R$ 348, valor já incluindo taxas. Duas noites de acomodação dão direito a um dia de estacionamento grátis.

Marriott: Dono de diversas bandeiras, como Renaissance e Marriott, o grupo criou o pacote Redescubra o seu País: Staycation, disponível em algumas unidades em São Paulo, no Rio e na Região Sul. Permite a escolha de dois benefícios de uma lista que contém, por exemplo, café da manhã, estacionamento e 20% de desconto em restaurantes e bares do hotel. No Renaissance São Paulo, custa R$ 599; no JW Marriott Rio Hotel, R$ 650 – sempre com café da manhã.

Palácio Tangará: O programa Redescubra o Palácio Tangará exige um mínimo de duas noites (com entrada na sexta-feira) e dá direito a estacionamento e café da manhã no restaurante Tangará Jean-Georges. A diária nessa experiência custa R$ 1.430.

Unique: Diária a R$ 1.200 na capital; por R$ 1.821 no Unique Garden (aqui o valor inclui café da manhã e almoço). Na experiência com hospedagem e jantar e café da manhã no restaurante Skye no Unique, custa R$ 1.900.

Wyndham Gramado: Quem ficar três ou quatro diárias no Wyndham Gramado (tarifa a R$ 309, com café) ganha um vale combustível no valor de R$ 100; se permanecer cinco diárias ou mais, o voucher é de R$ 200.

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