Marina Guedes
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Subimos até a cratera de um vulcão ativo - e você também pode

Localizado no Oceano Pacífico, o arquipélago de Vanuatu tem vários vulcões em atividade - o Yasur, mais popular, não exige preparo físico especial

Marina Guedes, Especial para o Estado

13 de julho de 2019 | 05h00

Danças tribais e ilhas desertas são alguns dos atrativos de Vanuatu, um pequeno país situado entre a Austrália e as Ilhas Fiji, no Oceano Pacífico. Formado por 83 ilhas distribuídas ao longo de 900 quilômetros, o arquipélago é conhecido principalmente em razão de seus vulcões ativos. O mais popular, o Yasur, fica ao sul, na ilha de Tanna. No topo da cratera - cuja forma é semelhante à uma grande arena - é possível observar constantes erupções. Experiência que assusta e encanta.

Ao contrário de expedições que exigem intenso preparo físico (como escalar o Everest, por exemplo), subir o Yasur não é tarefa exclusiva de montanhistas. Do centro de visitantes, o turista segue em picapes tipo 4X4 por um percurso de 10 minutos até a base do vulcão. O trecho seguinte é uma rápida caminhada ao longo de estreita trilha, com cercado simples de madeira e chão de pedra até a parte mais alta. Quatro guias, normalmente vestidos com capas amarelas, para ficarem mais visíveis, acompanham cada grupo.

Dependendo da intensidade e direção do vento, as pessoas seguem à direita ou à esquerda da cratera, de onde apreciam as erupções ao estilo fogos de artifício. Com aproximadamente 400 metros de diâmetro, é possível olhar dentro da cratera, dependendo das condições do dia. “A parte mais complicada foi subir no carro”, brincou a suíça Lídia Morselli, de 78 anos. Acompanhada do marido, ela viajou até Vanuatu após visitar Austrália e Nova Caledônia. “O cenário realmente impressiona. Gostaria de poder voltar com menos vento.”

Mesmo que o acesso seja fácil, alguns itens são necessários para evitar desconforto em um local inóspito como a extremidade de um vulcão ativo: casaco para proteção do vento; tênis ou bota para trilha; óculos que barrem as cinzas vulcânicas e, ainda, máscara que evite o contato com gases tóxicos, como o dióxido de enxofre (SO₂).

“Não se assustem com as explosões e, principalmente, não corram. Estão com sorte, só subimos quando o alerta de segurança está em nível 2, como hoje”, revelou o guia Mathias Kafu, de 24 anos, a caminho de uma das picapes. Segundo a especialista em vulcões do Centro de Meteorologia e Riscos Geológicos de Vanuatu, Sandrine Cevuard, o maior perigo são as bombas vulcânicas lançadas nas erupções quando o alerta de segurança está em nível 3 ou acima (5 é o grau máximo). Nestas condições, são proibidas visitações à cratera.

“Yasur está constantemente em erupção estromboliana, ou seja, medianamente explosivas e de curta duração. Trata-se de um vulcão de aproximadamente 12 mil anos”, detalhou. Vanuatu possui um sistema de monitoramento e alerta em tempo real para vulcões, terremotos e tsunami, a partir do centro localizado em Port Vila, capital do país.

A última grande erupção na ilha de Tanna ocorreu em 2013. "Não há, entretanto, registros de que tenha sido evacuada, como já ocorreu em outras ilhas”, explicou Sandrine.

Dança para os deuses

Na cultura do arquipélago, a natureza assume importância religiosa. Nascido em Tanna, Werry Narua, de 37 anos, revelou que a palavra Yasur significa criador. “O vulcão dá forma à ilha e representa um deus para a população”, conta. Como forma de pedir permissão e, simbolicamente, garantir a segurança dos visitantes, um grupo local apresenta, antes de cada subida, duas danças típicas. Na segunda, após receber um colar de flores, os visitantes são convidados a participar.

Em 1774, durante a segunda expedição pelo Pacífico, o navegador inglês James Cook esteve em Vanuatu a bordo do “Resolution”, que hoje dá nome a uma das baías da ilha. O explorador chegou a Tanna após percorrer o norte do arquipélago. Conforme biografias sobre suas viagens, Cook foi atraído pela luminosidade do vulcão enquanto percorria os arredores.

Quase três séculos depois, a montanha de 361 metros de altura continua a impressionar. Ao entardecer, quando o brilho da lava toma conta do cenário, o estrondo das erupções supera aplausos e gritos das dezenas de turistas. Posicionados com câmeras ao redor da cratera, buscam o melhor ângulo para registrar aquele espetáculo natural.

Erupções são constantes

Vanuatu localiza-se no chamado Anel ou Círculo de Fogo do Pacífico, onde há elevada instabilidade geológica. É nessa área onde estão concentrados 90% dos abalos sísmicos (terremotos) e 50% dos vulcões existentes em todo o planeta.

Mafe Margareth, de 26 anos, atua no centro de visitantes há três anos. Assim como outros habitantes da ilha, ela garante que viver nas proximidades do parque não é motivo de preocupação. “Além de ser uma alternativa de emprego aos moradores, o Yasur funciona como regulador térmico que estimula as chuvas e ocorrência de sombra”, contou.

Ela conta que houve poucos acidentes no vulcão. Sobre o histórico de acidentes, ela contou que dois turistas e um guia já morreram antes da criação do centro de visitantes. “Naquela época, as pessoas não tinham orientação e não havia organização”, esclareceu.

De acordo com departamento de turismo de Vanuatu, as visitas aos vulcões ativos são os principais motivadores do setor no país. Em 2018, 3.153 turistas internacionais desembarcaram no aeroporto de Tanna. De janeiro até maio de 2019, 1.030 pessoas de diversas nacionalidades estiveram na ilha, sendo 911 exclusivamente para visitar o Monte Yasur. Além de Tanna, as ilhas de Ambrym, Gaua, Ambae, Lopevi e Vanua Lava também têm vulcões ativos. Em 2017, Ambae foi completamente evacuada em razão das erupções de grande proporções. Hoje, os moradores já retornaram ao local.

Antes de ir

Quando ir

Junho e agosto (período do inverno) são meses de alta temporada. Nessa época há menos chuvas e temperatura média é de 23 graus. De novembro a abril há chances de ocorrerem ciclones tropicais.

Como chegar

A partir do Brasil, o trecho mais longo é até a Austrália ou Nova Zelândia. A segunda parte tem como destino Port Vila, capital de Vanuatu. De Port Vila até a ilha de Tanna as saídas são diárias, em voos da empresa Air Vanuatu, com duração média de 40 minutos. Brasileiros não precisam de visto para permanecer no país pelo período de até 30 dias.

Como visitar

Há três visitas diárias. O valor, por pessoa, equivale a R$ 350. A opção noturna, quando é possível observar melhor a lava, é a mais procurada. O site oficial de turismo de Vanuatu lista acomodações em Port Vila e na ilha de Tanna. O agendamento do passeio até o vulcão é feito pelos responsáveis pela hospedagem do turista.

Vanuatu, onde nasceu o bungy jump

De abril a junho, a ilha de Pentecostes, ao norte de Tanna, é palco do Naghol. Presos apenas com cipós nos tornozelos, os moradores saltam de uma torre de 30 metros de altura. O ritual faz parte da cultura local e inspirou a criação do bungy jump.  A.J. Hackett, criador do bungy jump comercial, presenciou o ritual e decidiu transformar aquilo em diversão.  Atualmente, o esporte anualmente atrai mais de 500 mil pessoas para países como Nova Zelândia e Austrália, onde estão algumas das opções mais radicais do mundo. 

O Naghol é uma espécie de ritual de iniciação para meninos. É depois de participar da prova que os rapazes passam a ser considerados adultos. Hoje, também é um espetáculo para os visitantes.


 

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