WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Surpresas e encantos de uma viagem ao Peru

Sempre haverá Machu Picchu, claro. Mas o país guarda outros tesouros: ruínas pré-incas, desertos e refúgios marinhos são algumas das surpresas encontradas na rota entre Lima e Nazca

Texto: Fábio Vendrame, Fotos: Werther Santana, O Estado de S. Paulo

06 Janeiro 2015 | 03h00

LIMA - Machu Picchu é o maior ímã de turistas no Peru. Mas, a despeito de ser seu patrimônio mais famoso, não é o único que justifica uma viagem ao território vizinho. Dono de um fabuloso painel de culturas e histórias originais, de aclamada gastronomia e com infraestrutura de serviços em expansão, o país revela ano a ano mais argumentos para convencer os brasileiros a apostar nele como destino de férias de longo alcance ou mesmo para bate-voltas estratégicos. 

O tempo disponível, seja ele qual for, nunca será suficiente para dar conta de tudo. Vai servir, porém, para você prometer a si mesmo que um dia voltará.

Neste recorte feito em sete dias de viagem pelo repórter-fotográfico Werther Santana, o roteiro contempla Lima, a capital e principal porta de entrada no país, e privilegia alguns dos principais tesouros turísticos guardados na parte sul do território. 

Ali destacam-se o balneário de Paracas, uma reserva natural protegida, lar de aves e animais marinhos, de paisagens esculpidas pelo vento e, segundo a mitologia de seus ocupantes ancestrais, pela fúria dos deuses.

Na tentativa de aplacar a inapelável ira divina, manifestada em tormentas e terremotos, as populações originais ergueram templos, construíram huacas (locais dedicados a cultos), rabiscaram o deserto com figuras trapezoidais e zoomorfas. Até hoje estudiosos se debruçam em teorias sobre as Linhas de Nazca, emaranhado de desenhos espalhado na vastidão desértica entre litoral e cordilheira. Um dos grandes mistérios jamais desvendados é também combustível turístico de desenvolvimento regional. 

Partiu Lima. Demorou, mas enfim a capital peruana superou a síndrome de baixa estima que a acometeu desde meados do século 19 e se mostra, hoje, uma cidade versátil para os turistas. Prefira hospedar-se nos bairros de San Isidro, Miraflores e Barranco, onde se concentra o melhor da rede hoteleira e o circuito de bares e restaurantes. Por ali também há ateliês e centros culturais. Nessa região, a vida corre solta no passeio à beira-mar, em áreas verdes urbanizadas, ciclovias e espaços públicos com Wi-Fi livre.

No coração da metrópole de 10 milhões de pessoas, a Plaza Mayor é o resumo de sua história colonial e republicana. Ali está a Catedral onde descansa Francisco Pizarro, o anti-herói errante que subjugou nativos e fez de Lima, em 1532, “A Cidade dos Reis”, o principal centro irradiador de cultura hispânica na América do Sul até se tornar a capital de um país independente pelas mãos e pela espada de José de San Martín.

Cidade adentro, sítios arqueológicos testemunham uma ocupação contínua desde muito antes da chegada dos espanhóis. Um deles, a Huaca Pucllana, desponta assombrosamente em Miraflores e serve como aperitivo para novas descobertas.

E Machu Picchu? Bem, a cidadela sempre estará lá, esperando por sua visita. Você pode se inspirar no link oesta.do/machu-pi, nossa última incursão, a pé, pelo famoso sítio arqueológico. Ou com uma bela galeria de fotos: oesta.do/machuecuzco

CONVÍVIO ABERTO

Ao menos três espaços públicos em Lima fornecem entretenimento e diversão para todas as idades, misturando os turistas ao cotidiano dos moradores. Às bordas do Pacífico, o Parque del Amor é referência em Miraflores, o mais lírico dos bairros da capital peruana, cenário para personagens de Mario Vargas Llosa, Martín Adán e Alfredo Bryce Echenique, entre outros autores.  

Ao centro do paço cercado por bancos que remetem ao Parc Güell, idealizado por Gaudí em Barcelona, está a escultura El Beso, de Victor Delfin. No coração daquela que um dia foi chamada de Cidade dos Reis, a Plaza de Armas reúne o conjunto colonial mais emblemático do país. Ali estão a Catedral, os prédios governamentais, o centro do poder, os casarões enfeitados com balcões talhados em madeira, o vaivém da metrópole.

Ao anoitecer, parte de Lima migra para o Parque La Reserva, onde o show de águas e luzes arranca sorrisos de adultos e crianças numa sequência de fontes e projeções carregada de poesia.

MUCHO GUSTO

A “peruanidade” se expressa mais intensamente nas culturas originárias apreciadas em museus e sítios arqueológicos e também na gastronomia servida em restaurantes de fama internacional. No primeiro caso, é preciso eleger ao menos um dentre os bons museus de Lima. O acervo do Larco, na Avenida Bolívar, eixo central da cidade, traz um amplo apanhado das culturas que floresceram no território sul-americano há cerca de 3 mil anos. São mais de 47 mil peças, correspondentes a diferentes períodos, colecionadas por Rafael Larco Herrera, um dos pais da arqueologia peruana. Ingresso a 30 soles (R$ 26) por pessoa.

Quanto aos verbos comer e beber, bem, você não terá dificuldade nenhuma em conjugá-los em casas como La Mar, Rosa Náutica, Pescados Capitales, Astrid & Gastón, Central e Señorío de Sulco, entre outras. Se quiser uma experiência clássica das altas rodas peruanas, a Hacienda Los Ficus (haciendalosficus.com) promove apresentações de cavalo de passo com menu completo a US$ 85 por pessoa. O balé equestre ocorre duas vezes ao dia, às 12h30 e às 16h30. À noite, além do circuito de bares, Lima reserva cassinos como o Atlantic City, em Miraflores.

FÚRIA DIVINA

A terra estremece quase diariamente na costa sul-americana do Pacífico, região assentada sobre placas tectônicas de humor cambaleante. Muito tempo antes da chegada dos ibéricos ao continente, há cerca de 3 mil anos, civilizações já se organizavam para fazer de uma região então inóspita seu lar. Tiveram a todo custo de superar os desafios impostos pelo meio, o que implicava se virar com o que tinham à mão. Assim foi feito. Ocuparam os vales formados pelo degelo das neves andinas, onde fluem rios e, portanto, o suprimento de água doce estava garantido.

Nesses oásis sul-americanos surgiram cidades feitas do barro e das pedras, materiais disponíveis numa região árida em que o ciclo sazonal de chuvas é imprevisivelmente ditado pelo fenômeno hoje conhecido como El Niño. Criaram sistemas de canalização de lençóis freáticos para o abastecimento da população. Ergueram robustas pirâmides escalonadas. De quando em quando, porém, ora terremotos, ora tempestades destruíam parte do que haviam feito. Era preciso aplacar a ira dos deuses. Em especial, as ânsias de Pachacámac, a divindade mais adorada e temida do litoral sul peruano desde tempos pré-incaicos – o culto seguiu até a chegada de Pizarro. A 40 quilômetros de Lima, o sítio arqueológico que leva o nome do deus pré-hispânico conta a história. Testemunho da resistência e da veneração do homem face às forças naturais. A entrada custa 10 soles (R$ 8,70), há um pequeno museu e uma lojinha no local. Mais: pachacamac.cultura.pe.

Seguindo em direção a Nazca...

TERRA

Paracas é um santuário natural a meio caminho entre Lima e Arequipa, as duas maiores cidades peruanas. Da capital, fica a cerca de 4 horas de carro, o que faz dele um destino viável para um fim de semana prolongado. É daqueles redutos que a gente imagina ter de inventar para se desplugar da correria urbana. Mas nem precisa: ele está lá, prontinho para ser explorado. 

É possível combinar um roteiro com Paracas e tours de barco de manhã e, ao entardecer, passeios de tubulares (um tipo de buggy) pelo Deserto de Ica – com tempo, você pode separar as atividades em dois dias. A vista é de perder o fôlego: quilômetros e quilômetros de dunas que parecem não ter fim. No fim do dia, a suavidade da luz no pôr do sol proporciona fotos únicas. Os guias costumam levar pranchas de sandboard para os turistas se arriscarem nas montanhas de areia de até 40 metros. O passeio de tubular com sandboard custa cerca de 85 novos soles (R$ 73).

ÁGUA

Escolhida como lar por uma fauna diversificada, Paracas reúne em seus domínios sob proteção ambiental colônias de pinguins, centenas de aves marinhas, grupos de golfinhos e de lobos-marinhos, entre outras espécies. A bicharada vive em meio a paisagens esculpidas pelo vento e pela força do mar.  

Uma das formações rochosas icônicas do pedaço atende por Catedral – e, sim, faz por merecer tal alcunha. O melhor jeito de apreciá-la é de barco (em média, US$ 28), passeio que também dá a oportunidade de conhecer as Ilhas Ballestras e o Candelabro, um intrigante e gigantesco desenho de 150 metros de altura e 50 de largura atribuído aos antigos habitantes da região – ali viveram culturas como a paracas, famosa pela produção de mantos e túnicas de algodão com padrões únicos, e a nazca, responsável por construir complexos sistemas hidráulicos em zonas desérticas e legar à humanidade um imenso ponto de interrogação até hoje indecifrado, conhecido como Linhas de Nazca (leia mais abaixo).

AR

Num dia desses em que as nuvens tiram folga e deixam o céu cintilar em azul, um piloto que sobrevoava a imensidão desértica que cobre o sul do Peru entre o Pacífico e os Andes viu o que até então ninguém havia imaginado: um emaranhado de desenhos rabiscava o solo em todas as direções. Era 1930, época em que aéreas comerciais começaram a atravessar a região, que já havia recebido uma estrada – a pista foi aberta em meio a esses intrigantes desenhos. 

Antropólogos passaram a estudá-los, identificando a data aproximada em que foram sistematicamente produzidos (há cerca de 1,5 mil anos), mas, até hoje, nunca puderam explicar sua função. Muitas teorias foram elaboradas e especular sobre elas é um dos passatempos favoritos de quem as visita. As Linhas de Nazca só podem ser observadas do alto – além de alguns mirantes abertos ao público na região, voos em monomotor decolam todos os dias do aeroporto local. Duram em média meia hora e perfazem figuras geométricas e zoomorfas – tem aranha, baleia, macaco, colibri, condor e muito mais. A partir de US$ 100 por passageiro. 

*O repórter viajou a convite da Avianca e da CVC.

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