Mônica Manir|Estadão
Mônica Manir|Estadão

Tacadas no tempo: jogo de golfe na rua ajuda a conhecer cidade suíça

A medieval Friburgo conta com 18 buracos de um golfe urbano entre as partes alta e baixa por onde se pode conhecer melhor a cidade

Mônica Manir, O Estado de S. Paulo

16 Fevereiro 2016 | 12h31

FRIBURGO - Posicione a bola, dobre os joelhos, prepare o taco e... pimba na laranjinha! Eis um jeito moderno de conhecer a medieval cidade de Friburgo: completando os 18 buracos de um golfe urbano. Bem verdade que o golfe também teria nascido na Idade Média. Mas essa versão no meio da cidade é coisa atual e de quem quis popularizar o que virou esporte para poucos. Ou coisa de quem quer revitalizar regiões esquecidas usando um recurso lúdico, como aconteceu na vizinha Alemanha. Vai um povo para um bairro abandonado e, com a ajuda de um guia turístico, recupera-se a história do lugar de buraco em buraco. 

No caso de Friburgo, o buraco é bem mais em cima. A primeira pergunta é se a gente corre o risco de quebrar um dos vitrais da Catedral de São Nicolau. A não ser que se arremesse o próprio taco de três faces contra a igreja, não é a bola que fará o papel de artefato terrorista. A laranjinha é de borracha, mais leve que a padrão, o que não impede percalços durante as quatro horas previstas de percurso. A bola pode mergulhar no Rio Sarine, que serpenteia a cidade, ou ser roubada por um cachorro. Se bem que não se vê cachorro solto por rua nenhuma...

Enfim, o circuito começa pelo funicular, que liga a parte alta à baixa da cidade por cabos movidos pelo contrapeso da água. Inaugurado em 1899, é um dos últimos nesse sistema a sobreviver na Europa. Ponto interessante aqui: a diferença socioeconômica e cultural entre as cidades alta e baixa. Na alta vivia a burguesia católica, que resistiu à Reforma e que inclusive banca a única universidade católica da Suíça; na baixa (Basse-Ville) se depositaram os protestantes e os trabalhadores do campo, que não eram poucos. Fundada no século 12, Friburgo foi a última das grandes cidades suíças a se industrializar. 

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Apesar de oficialmente bilíngue, na cidade predomina o francês da parte alta. O alemão da baixa é perceptível no nome de pouquíssimas ruas, como a Stalden. E, entre o francês provençal e o suíço-alemão, surgiu um tipo de dialeto, o bolze, como peça de resistência. Dá pra encontrar camisetas em que se vê escrito “Fier d’être bolze” (orgulhoso de ser bolze). 

Aliás, ficou famoso o Carnaval dos Bolzes, que também ocorre em fevereiro – esse ano foi de 7 a 9. Tem procissão, boneco gigante (o Rababou) e muita bebida. Mais informações: carnavaldesbolzes.ch.

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Aproveitando que estamos na parte baixa, um de seus moradores mais notáveis foi o piloto de Fórmula 1 Jo Siffert, que venceu dois grandes prêmios, um em 1968, outro em 1971. Nesse mesmo ano, em Brands-Hatch, Siffert sofreu um acidente de carro que lhe tirou a vida aos 35 anos, mas que alertou a F-1 para outros itens de segurança, como um tubo de oxigênio para os pilotos. 

No buraco 18, o último do percurso de golfe, você encontra uma fonte criada pelo artista friburguense Jean Triguely em homenagem ao amigo Jo Siffert. Triguely fez umas máquinas satíricas, poéticas, meio descoordenadas, com rodas e jatos de mangueira, superintrigantes. Esta de Friburgo é muito parecida com a de Basel, onde fica o Museu Triguely.

Entre o primeiro e o último buraco de golfe você deve passar por quatro pontes, uma delas a Ponte de Berne, de madeira, construída em 1250, uma das mais antigas da Suíça. E por uma abadia, a das monjas cistercienses de La Maigrauge (41-26-309-2110), na qual é possível reservar um quarto para dar uma respirada e fazer um balanço da vida – desde que você seja uma mulher.

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Claro que todo o trajeto pela cidade pode ser feito sem o aparato de golfe, especialmente se você for visitar museus, entre eles os curiosos Museu das Marionetes e Museu da Máquina de Costura

Mas, voltando à estaca zero, bola, taco e um cartão para marcar os pontos (ganha quem fizer menos tacadas por buraco) podem ser obtidos, por 9 francos-suíços (R$ 36,50), na FriBowling (Rue Saint-Pierre, 6) ou no Centro de Informações Turísticas, ao lado do transado Teatro Equilibre. 

No Centro de Informações também dá para ter uma noção do que a região em volta oferece. A já apresentada Avenches, capital romana do que hoje é a Suíça, está a 15 quilômetros. Gruyères, capital do queijo que tem sabor de obra de arte, a 33 quilômetros. São outros pontos charmosos do passado com olho fixo no futuro. E que, de forma pensada, atingiram seu hole in one turístico. 

SAIBA TAMBÉM:  Um jeito original de descobrir Friburgo é reservar uma visita temática – arqueológica, sensitiva, lendária, na companhia de um artista, voltada à biodiversidade – no Fribourg Tourism et Région.

*A repórter viajou a convite do Turismo da Suíça.

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