Tailândia: entre o sagrado e o profano

Renunciar aos prazeres mundanos é um dos pilares do budismo ali praticado. Nada fácil em um lugar com verão de doze meses, praias paradisíacas e sensualidade tropical

TIAGO NOVAES / BANGCOC , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2014 | 02h06

" SRC="/CMS/ICONS/MM.PNG" STYLE="FLOAT: LEFT; MARGIN: 10PX 10PX 10PX 0PX; Praias edênicas sob um verão de doze meses, uma culinária a base de caldos com pimenta, leite de coco, coentro e arroz, um povo pobre mas festivo, cordial e afeito à hospitalidade. Não, não estamos na Bahia de Todos os Santos, mas em um reino asiático onde o dia nasce 10 horas mais cedo. Um pouco maior que Minas Gerais, é o décimo país mais visitado do mundo - recebeu 26 milhões de turistas no ano passado, 20 milhões a mais do que o Brasil. Não são poucos os motivos que levam chineses, japoneses, europeus e norte-americanos à Tailândia.

Situado no Sudeste Asiático, entre Laos, Camboja, Mianmar e Malásia, a Tailândia é um sonho de consumo para os que buscam um turismo sem city tours orquestrados. Quem se aventura por sua capital labiríntica e suas matas densas é recompensado por um jogo de contrastes entre o silêncio dos monges e a avalanche de estímulos das capitais asiáticas. Há muito o que fazer: de assistir a combates de muay thai a passear pelos mercados flutuantes; de estâncias de preservação ambiental a degustação de uma culinária reconhecida mundialmente. De um retiro de Vipassana (um dos mais antigos tipos de meditação) a aulas de massagem em Chiang Mai ou mergulho nas cinematográficas ilhas do Mar de Andaman.

O país foi o mais afetado pelo tsunami que devastou cidades e vilarejos e deixou milhares de mortos em 2004. Em maio deste ano sofreu um golpe militar que ocupou o vazio deixado pela deposição da primeira-ministra Yingluck Shinawatra. Nem assim o turismo recuou muito, talvez pelo fato de que nenhum estrato da sociedade tailandesa pareça interessado em afugentar os estrangeiros (farangs), que representam 17% do PIB do país e fazem parte do cenário ao menos desde a presença dos portugueses, no século 16. O rei que perdurou no poder durante mais tempo em todo o mundo durante os séculos 20 e 21, Bhumibol Adulyadej, testemunhou uma sucessão de golpes de Estado e aberturas democráticas. Hoje com 86 anos e saúde debilitada, é um monarca respeitado e reverenciado pelo seu povo.

Arraigados à tradição e à cultura familiar, os tailandeses estimam a autoridade. Não apenas a família real, mas monges e professores detêm status especial. Há uma coesão social que estimula a coexistência de uma baixa criminalidade e índices elevados de pobreza. As leis tailandesas são severas e os julgamentos, sumários, mas o principal fator responsável por tal obediência a leis é o budismo, que cumpre um importante papel na formação da identidade nacional. Costumam exaltar o fato de que quase todos os homens já se ordenaram monges em algum momento de suas vidas. Os templos, ou wats, são onipresentes, com seus ornamentos dourados, seus telhados em diferentes níveis, representações de dragões, nagas e garudas, figuras míticas que indicam a incorporação de elementos do hinduísmo, além dos conspícuos chedis, construções cônicas que guardam as relíquias e os ossos dos monges.

Das muitas vertentes originais do budismo, a mais presente na Tailândia e em outros países do sudeste asiático é a teravada, ou Doutrina dos Anciões, considerada a mais rigorosa e fiel aos ensinamentos de Buda. Para alcançar uma vida feliz, deve-se renunciar à sedução dos prazeres mundanos. Muitas escolas têm meditação nas aulas de Educação Física, e centros de ensino de Vipassana encontram-se espalhados pelo país. Abertos aos farangs, o inscrito passa dez dias sem aparelhos eletrônicos que o conectem ao mundo exterior, em silêncio e meditando das 4h30 da manhã às 21h.

A abstinência, contudo, não impõe obstáculos ao que pode parecer um paradoxo. Iniciado nos anos 1960, quando os soldados norte-americanos tomaram o país como base avançada na guerra do Vietnã, a Tailândia é território de um florescente turismo sexual. Como no caso brasileiro, cujos turistas são atraídos por imagens de hedonismo e sensualidade tropical, persiste a aura de uma terra onde descanso e prazeres são permitidos.

Pechincha. Um visível chamariz de farangs é a política de desvalorização do baht, a moeda tailandesa. Um pad thai (prato tradicional tailandês) sai por 40 bahts, algo em torno de R$ 2,80. Uma passagem de trem entre Bangcoc e Chiang Mai, uma viagem de 12 horas, custa em torno de 610 bahts, ou R$ 43. Aluguéis e alimentação atraem profissionais liberais e aposentados europeus que costumam se mudar para a Tailândia e viver sem grandes sobressaltos. O país chegou a testemunhar nos últimos anos uma terceirização geriátrica internacional - a "exportação" de idosos que necessitam de cuidados para as clínicas tailandesas, atendidos por profissionais cuidadosos e por um preço mais acessível do que nas onerosas clínicas europeias.

Ainda que distante e pouco conhecida dos brasileiros, o cenário está mudando. Segundo o Ministério do Turismo, 40% a mais de brasileiros adentraram o país no primeiro semestre deste ano, em comparação a 2013. Muitos prometem voltar, carregados desta estranha familiaridade do reinado de Sião.

Estrangeiros podem aprender as técnicas de meditação Vipassana agendando pelo www.dhamma.org. Ao todo, são nove centros espalhados pelo país, que sobrevivem graças a doações e trabalho de voluntários.

Com diária desde 11.950 (R$ 831), o luxuoso Mandarim Oriental, em Bangcoc, serve um chá da tarde delicioso - e pagável. Custa cerca de 1.500 bahts (R$ 100), e serve duas pessoas em um salão colonial inglês: oesta.do/viatea.

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