Tempo de despertar

Mr. Miles manda-nos a última coluna de 2014 de Atenas, na Grécia, para onde foi convidado por Giorgious e Elena Karagounis, seus afilhados de casamento. O casal vive em Toronto e tem, claro, um restaurante grego. Mas sempre passa o período de festas na casa de seus avós. "Adoro a alegria e o entusiasmo dos helênicos", conta-nos o viajante britânico. "Usually, comemos muito - inclusive as amazing melomakarona, um doce à base de semolina, farinha, mel e canela. Depois quebramos romãs - o que, segundo afirmam, Aristóteles já fazia 400 anos antes de inventarem o réveillon. Mais tarde, bêbados de ouzo, dançamos centenas de músicas. Para mim, todas elas parecem ser variações em torno do tema de Zorba, O Grego."

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2014 | 02h04

A seguir, a carta da semana:

Mr. Miles: a palavra réveillon tem alguma ligação com réveillons (acordemos)? Elas me soam como primas-irmãs.

Inga Sorensen, por e-mail

"Well, my dear: é evidente que sim. Embora na Inglaterra e em outros países de língua inglesa usemos Silvester (de São Silvestre) para nomeá-la, eis um raríssimo caso em que o bom senso parece estar com os gauleses. Acordemos!

Que beleza de interpretação. E o que é, simbolicamente, a passagem de um ano para o outro senão um novo despertar?

Adormece o ano findo, ainda ontem uma promessa. Foi-se, deixou suas lições, para uns foi dor, para outros felicidade.

That's the way we are, my friends. Fatiamos o tempo desde que ele ainda não existia, e precisamos dele para aprumar nossas vidas, refletir e - usando um termo gastíssimo, mas ainda na moda - reciclar-nos.

Eis um aspecto que une todas as culturas: a reverência ao tempo e à sua passagem. Podemos contá-lo em luas, em meses gregorianos, à moda chinesa - e as datas, no tempo civil, dificilmente serão as mesmas. Mas a intenção, essa não muda.

Acordemos! Let's wake-up! Réveillons!

Vamos melhorar nossa relação com esse planeta ainda extraordinário, apesar de adoentado por nossas atitudes irresponsáveis. Viajemos e abramos nossos horizontes! Em horizontes estreitos mal cabem nossas esquinas e tudo o que fazemos, always, é sedimentar velhas convicções.

E façamos vicejar nossas diferenças, que são apenas interpretações de tudo o que temos em comum. Pular sete vezes as ondas do mar, for instance, é mais agradável do que tomar um banho nas fontes da Trafalgar Square em um frio terrível. Mas, no fundo, é a mesma coisa. No Brasil - ah, quantos lindos Silvester passei em seu País! - vestir branco é obrigatório para que o novo ano traga sorte e prosperidade. Pois vejam, my friends: na China, as pessoas reservam, para a data, seus melhores trajes pretos, com o mesmo objetivo dos brasileiros.(E, ao menos na economia, eles têm dado mais sorte, don't you agree?)

Em Madri, milhares de pessoas festejam juntos a passagem do ano na Puerta del Sol. Todas elas têm, consigo, doze uvas - que são comidas, uma a uma, a cada badalada do sino que marca a passagem do ano. No Brasil e na Itália, não podem faltar lentilhas. No Japão, as pessoas penduram cordas de arroz na porta de suas casas para afastar maus espíritos. And so on, uma interminável lista de rituais, mandingas que, todas elas ao fim, pedem ajuda aos deuses para o ano que chega. Ajuda, sorte, prosperidade.

Wake up, my friends! Réveillons, mes amis! Os deuses, I'm sure, devem poder ajudar. Mas, mais que tudo, é tempo de cada um de nós fazer alguma coisa para melhor. Meu saudoso amigo Albert Einstein disse-me, um dia: "Se queremos que alguma coisa mude, Miles, não podemos fazê-la do mesmo jeito." Sempre achei esse rapaz muito inteligente.

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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