Leonhard Foeger/Reuters
Leonhard Foeger/Reuters

Tempos modernos: a nova cara de Viena

A Viena das valsas e dos palácios segue firme e forte. Mas uma profusão de cafés e bares descolados, lojas e festivais moderninhos deixaram a cidade mais jovem – e ainda mais atraente

Mari Campos, especial para o Estado, Viena

15 Agosto 2017 | 05h00

Rodeada por livros e objetos de decoração moderninhos à venda, ouvia uma trilha ambiente meio beat baixinha, enquanto tomava meu einspanner (um espresso forte com generoso chantilly). Além das poucas mesas do lado de dentro e na calçada estarem ocupadas por pessoas de diversas faixas etárias e estilos tão variados quanto o das cadeiras da casa, o movimento no balcão do café era intenso, com gente comprando a bebida para viagem o tempo inteiro. Muitos passavam também no caixa do outro lado para pagar por um livro ou revista, como em movimentos sincronizados.

O adorável phil (assim mesmo, com letra minúscula) é um dos mais bem-sucedidos cafés da nova leva que assola Viena. A cidade, que tem uma relação intensa com a bebida desde o século 17 (o primeiro café foi aberto oficialmente em 1683), inaugura cada vez mais casas do tipo – já são mais de 2.500 –, num perfil muito diferente da fórmula clássica que consagrou seus endereços mais icônicos. 

A modernização dos cafés vienenses é apenas uma das facetas dessa cidade cada vez mais cosmopolita e descolada: hotéis, bares, bairros inteiros e a própria relação de Viena com a música estão em profunda e constante transformação e evolução. 

Tudo novo. Seguindo o exemplo de outras cidades europeias, alguns bairros de Viena têm se transformado por inteiro e em pouco tempo. Áreas antes quase exclusivamente residenciais passaram a abrigar em seus apartamentos jovens artistas e intelectuais. A fórmula é conhecida: depois deles, vieram cafés, lojas e bares descolados que transformam toda a área num point jovem-hipster-moderno. 

Em comum, são bairros cheios de vida, de manhã até a noite, com produtos fora do óbvio, imensos mercados de rua e comércio instalado em espaços democráticos. 

Há alguns anos, foi o 7th District, o bairro quase grudado ao Museumquartier (área de museus que, no verão, recebe shows e outras programações culturais), que começou esse processo. Depois dos bares, cafés e lojas, vieram os ateliês, galerias e centros culturais. Devagarzinho, a coisa expandiu para além da Neubauasse e tomou a Burggasse e os arredores da St.Ulrichs-Platz, em espaços sempre multipropósito – livraria-café, barbearia-bar, boutique-restaurante e assim por diante. 

Depois foram os arredores do animado Naschmarkt (e suas barracas cada vez mais diversificadas) e do Freihaus District. Agora a coisa chegou até o Karmeliter District, rodeando o mercado homônimo que é, sem dúvidas, uma das mais excitantes vizinhanças de Viena atualmente – e totalmente fora da rota da imensa maioria dos turistas internacionais. Bistrozinhos simpáticos e incontáveis espaços de arte contemporânea estão transformando definitivamente o bairro. 

Dos palácios de Schonbrunn e Hofburg às carruagens que levam turistas para seguir os passos da imperatriz Sissi, as atrações clássicas continuam todas lá, é claro. Mas, nos últimos anos, Viena tem mostrado seu lado mais trendy. E está mais sedutora do que nunca. 

SAIBA MAIS

Aéreo: São Paulo - Viena - São Paulo, com conexões, custa a partir de R$ 3.354 na KLM; R$ 3.625 na Lufthansa; R$ 4.787,60 na Latam; R$ 4.981,99 na TAP

 

Vienna Card: o Vienna City Card dá direito a uso ilimitado do transporte público da cidade (com a passagem gratuita de uma criança até 15 anos), além de descontos em atrações turísticas. Há opções de 24, 48 e 72 horas, a partir de 13,90 euros; à venda em hotéis e postos de informação turística 

 

Sites: austria.info; wien.info

Mais conteúdo sobre:
Europa Áustria [Europa] Viena [Áustria]

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 04h30

Não se deixe enganar: hordas de fãs da trilogia Antes do Amanhecer continuam visitando diariamente o café Sperl, um dos endereços mais procurados por turistas que chegam a Viena. Assim como os também clássicos Demel, Central, Landtmann ou Museum. Mas a paixão vienense por cafés (são mais de 40 maneiras diferentes de degustar a bebida na maioria dos menus da cidade) ganhou novos ares. 

As novas cafeterias vêm com ambientes modernos e levam muito (mas muito mesmo) a sério origem, processo de tosta e os métodos mais perfeitos para preparar a bebida. Um exemplo é o excelente Balthasar, cujos baristas tão hipsters quanto seus clientes preparam um dos melhores cafés da cidade em sua máquina Marzocco (e excelentes drinques, inclusive à base de café, quando a noite chega).  A maioria dos novos endereços mistura, sem pudores, a cafeteria com loja, bar ou galeria de arte, em espaços sempre multifuncionais. O phil, citado no começo desta reportagem, foi um dos precursores do estilo que conquista cada vez mais a cidade: café, livraria e espaço cultural, tudo junto e misturado. 

O Supersense, no Segundo Distrito, fica instalado num antigo palacete e, com trilha sonora indie, divide o espaço da cafeteria com uma das lojas mais cool de Viena: decoração, papelaria, acessórios, vinis e outros objetos com jeitão vintage.  No Distrito 7, o Burgasse24 é talvez a melhor tradução do bairro mais moderninho de Viena: o café divide espaço com uma butique de jovens designers austríacos e um brechó excelente. Já o CaffèCouture, comandado pelo premiado barista Georg Branny, torra seu próprio café quase ao lado de onde os clientes consomem a bebida. 

Em todos eles, a preferência local continua sendo o espresso forte, acompanhado de um copinho com água com gás. Mas o melange (com espuma de leite), o einspanner (com chantilly), o fiaker (com rum e chantilly) e o eiskaffe (gelado, com sorvete) são queridinhos dos turistas – e estão sempre nos menus.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 04h30

A imensa loja de departamentos Steffl e as incontáveis lojinhas de souvenirs continuam se misturando sem pudores a butiques de luxo e lojas de fast-fashion nas principais áreas comerciais de Viena. Mas a cidade vem ganhando espaços fora do óbvio, longe dos bairros mais turísticos.

Se você tem paciência para garimpar, o Distrito 7 pode ser um paraíso: o bairro mais trendy de Viena é o mais fértil em lojinhas daquele tipo que dá vontade de levar quase tudo – principalmente na Neubaugasse Street, quase ao lado do Museumquartier, onde butiques, comidinhas e acessórios ocupam os diferentes andares de predinhos do século 19. 

Vale espiar a Ina Kent, com suas bolsas de couro para mulheres e homens, e as roupas ultradescoladas da Art Point (artpoint.eu), da russa Lena Kvadratx. 

No quesito comidinhas, aposte na Wald&Wiese, que vende mais de 30 variedades de mel produzido localmente, além de balas, pirulitos, sabonetes, velas e até uísque feitos com o produto. Ou na Bonbons (no número 18), que fabrica ali mesmo barras de chocolate e bombons em combinações de recheios pouco usuais, como pera e cardamomo.

Amantes de design encontram lojas-tentação espalhadas por toda a cidade. A MQ Point é muito mais que uma lojinha de museu no Musemquartier e deixou esta repórter doida com tantas opções em xícaras, bolsas e camisetas bem-humoradas. As lindezas da Feinedinge* podem ser difíceis de transportar – muitas peças são feitas à mão em porcelana. Mas valem o cuidado na viagem de volta.  E a já citada Burgasse24 tem no mesmo espaço um brechó, uma loja de jovens designers e um café.  

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 04h30

Como uma cidade com cada vez mais estudantes e jovens intelectuais, não é de se estranhar que a noite de Viena também sofra sua metamorfose, com bares e clubes para diferentes tribos, seguindo fielmente a receitinha de sucesso da alemã Berlim. 

A Gumpendorfer Strasse, sempre em constante evolução, é bom exemplo: galerias, restaurantes, cafés e bares dos mais diferentes estilos, lado a lado – literalmente. Inspirado em Bob Dylan, no If Dogs Run Free, artistas e hipsters se misturam noite adentro, em meio ao estilo industrial da arquitetura e seus drinques clássicos (em média, 9 euros).

 A vida noturna de Viena também ganha cada vez mais espaço no entorno de seus mercados de rua mais democráticos, como o já tradicional Naschmarkt e o agora disputado Karmelitermakkt. Ali, um público das mais diversas idades e estilos se reúne, enquanto bons drinques a partir de 5 euros são preparados freneticamente, dos fins de tarde às madrugadas. 

O bar instalado no rooftop do moderninho 25hours Hotel segue sendo um dos mais concorridos da cidade – inclusive durante a semana. Música ao vivo eclética de boa qualidade, bebidas que cabem no bolso e a vista de Viena integram a fórmula de sucesso.

Já os clubes de Viena agora reúnem opções que vão do chique ao absoluto underground, dividindo, muitas vezes, casas vizinhas na mesma quadra. Mais do que nunca, os instalados sob os arcos da antiga ferrovia Stadtbahn, ao longo do Gurtel (como Chelsea, Rhiz ou B72), continuam agitando as madrugadas nos fins de semana, até o sol nascer.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 04h30

Viena é a cidade europeia mais comumente associada à música no imaginário popular – e não sem razão. Este ano, a cidade celebra os 150 anos da clássica valsa Danúbio Azul de Johan Strauss, um dos seus filhos mais ilustres (a história da genial família Strauss pode ser conferida no Strauss Dynasty Museum; dá uma olhadinha no site).

 Ao longo do ano, estima-se que todas as noites pelo menos 10 mil pessoas apreciam música clássica na cidade. Há as apresentações da Filarmônica de Viena – algumas gratuitas e em espaços públicos, como o concerto de verão nos jardins do Palácio de Schonbrunn. Ou da Universidade de Música e Artes Cênicas, que completa 200 anos. Isso só para citar dois exemplos.

 Aliás, quando a temperatura esquenta (ou seja, agora), é quando as apresentações gratuitas são mais fartas. Até o fim de setembro, há teatro, ópera e outras atrações ao ar livre pela cidade. Entre elas, o Music Film Festival, com música e cinema grátis em diversas locações – incluindo a área externa da Rathaus, a prefeitura de Viena –, até 3 de setembro. Confira os eventos aqui

Mas, obviamente, uma cidade eclética e democrática como Viena não respira só música clássica. Anualmente, Viena recebe mais de 15 mil concertos de todo tipo de música. Caso do Waves, festival indie que ocorre de 28 a 30 de setembro com mais de 100 apresentações musicais, cujo objetivo é também descobrir novos talentos. 

Já o Gürtel Nightwalk  realiza shows em áreas de trânsito pesado. Este ano, será no dia 26, com 15 palcos de apresentações grátis. Há ainda o Wien Modern, Resonanzen, Voice Mania, Rock in Vienna, Music Film Festival, PopFest... 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 04h30

Um dos queridinhos da atualidade é o Salonplafond in the Mak, localizado no mesmo edifício do Museu Austríaco de Artes Aplicadas e Contemporâneas(MAK). Instalado num prédio histórico, remodelou seu interior com um projeto contemporâneo (incluindo um chamativo bar vazado), mas mantendo o espetacular teto ornamentado de pé direito altíssimo – e ainda montou espaço para comensais no jardim interno, perfeito para longos almoços ou uma deliciosa happy hour em dias ensolarados. 

O Albertina Passage, por sua vez, se instalou no subsolo da Opera de Viena, com decoração futurista e jazz ao vivo – e ainda vira balada depois que a cozinha fecha. O ON Market, restaurante asiático ao lado do Naschmarkt, e o novo Motto am Fluss, em pleno canal do Danúbio, são outros exemplos: seus chefs conseguiram criar menus tão ecléticos e instigantes quanto a decoração de seus ambientes (que misturam, por exemplo, néon e veludo com lustres art déco). 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 04h30

Os clássicos da hotelaria da cidade continuam firmes e fortes por lá, é claro – como o icônico Hotel Imperial, que até hoje recebe políticos e famílias reais do mundo todo e cujo concierge Michael Moser inspirou Wes Anderson no filme Grande Hotel Budapeste (2014). Mas a hotelaria de Viena também vive sua onda de contemporaneidade de maneira extremamente bem-sucedida.

Tudo teria começado há alguns anos, com a abertura do 25hours Vienna (desde 99 euros o casal), da cadeia de hotéis descolados e de decoração sempre lúdica, presente também em outras cidades avant-garde, como Berlim – até hoje, um dos hotéis com melhor ocupação na cidade. Depois dele, muitas outras unidades, geralmente em estilo butique, apostaram em atmosferas mais ousadas para a hotelaria. Um exemplo é a rede alemã Ruby Hotels (a partir de 84 euros o casal), que agora conta com três diferentes hotéis-design na cidade.

Sua mais nova unidade, Ruby Lissi, ocupa um antigo convento do século 13 ao lado do RingStrasse (a área mais central da cidade) e foi decorado com temática viajante, inspirada por ninguém menos que a própria Sissi, uma viajante de carteirinha em seu reinado (pausa para explicação histórico-linguística: apesar de ser internacionalmente conhecida como Sissi, Lissi é o diminutivo de Elisabeth para os austríacos). 

Os quartos ultraconfortáveis e silenciosos fazem um contraponto perfeito às sempre animadas áreas comuns pouco convencionais – a recepção do hotel, na verdade, funciona no balcão do bar, aberto 24 horas. O café da manhã (com bufê orgânico e ingredientes locais, preparados ali mesmo) é servido até tarde. Eo hotel ainda tem empréstimo de bicicletas e de – veja só! – guitarras. 

Vale conferir também o Hotel am Brillantengrund, numa rua quietinha do descolado 7th District. Ao todo, são 34 quartos, mas com tamanhos e estilos diferentes: dos minúsculos singles a apartamentos para até quatro hóspedes. Cada quarto tem decoração própria, mas sempre minimalista; e os espaços comuns são decorados com peças de jovens designers e artistas locais. Melhor ainda, os preços são bem convidativos: a partir de 69 euros, com café.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.