Teorias e poesia na passagem do ano

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Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

03 Janeiro 2017 | 05h00

Está ou não está? Já foi ou não foi? Se de fato veio, foi com a discrição de sempre. Uma série de e-mails e telefonemas para a redação deu esqueleto à hipótese de que nosso correspondente britânico passou o réveillon no Brasil. 

O que torna difícil praticar algum jornalismo consistente é o fato de que recebemos missivas com origens quase inalcançáveis. Um leitor de Barcelos, nos últimos confins da Amazônia, disse-nos que ficou famoso na pequena cidade o discurso que Miles fez para os pequenos catadores de peixes coloridos e ornamentais existentes com fartura naquela parte do Rio Negro. Segundo Ananias Machado – o denunciante –, o homem mais viajado do mundo tentou demover os pescadores da rotina de peneirar o rio com argumentos ecológicos. Para dar um cunho social mais forte à sua palestra, alertou que aqueles peixes, vendidos por baciada e por poucos centavos, são repassados por muitos dólares a unidade em países da Ásia. E que sua única atividade é enfeitar os aquários – embora soubesse de gente que deles se alimenta com intenções afrodisíacas.

Por outro lado, outro leitor denunciou a presença de Mr. Miles num CTG (Centro de Tradições Gaúchas) de Don Pedrito. Em outra missiva detalhada, Tarciso Cortez contou, em detalhes, como o célebre viajante tirou lindas prendas para danças bugios e vaneirões nos tacos tonitruantes do salão. Para efeito de estatística, a redação concluiu que o leitor viu um sósia, já que, por muito que se conhece do correspondente inglês, não há registros dele pilchado, com bombachas largas, como se requer nesse tipo de festa.

Ele mesmo não deu notícias, mas um terceiro leitor viu Mr. Miles em uma das frisas do Wien Konzertshaus, assistindo ao mundialmente famoso concerto de Natal. O leitor jura que, assim como ele próprio, Mr. Miles ficou com os olhos molhados vendo os Meninos Cantores de Praga dando vida à Hallelujah de Leonard Cohen. A hipótese parece plausível, mas o leitor não mencionou a presença de Trashie no auditório. Como se sabe, desde que perdeu o sentido da visão, a raposa das estepes siberianas é sempre levada a programas musicais, que muito a atraem.

A seguir a pergunta da semana.

Querido Mr. Miles: o senhor pratica alguma mandinga de réveillon como nós? Cristina Mistu, por e-mail.

Well, my dear: na verdade, só depende de onde eu estou quando um ano se encerra. Cada lugar, as you know, tem os seus próprios hábitos, e, como hóspede, costumo respeitar e juntar-me às, well, mandingas alheias que, no mais das vezes, são inofensivas, quando não verdadeiramente eficientes. Rituais de passagem mostram, by the way, como estamos próximos dos povos primitivos que nos originaram e, of course, pelo mesmo medo que nos assola, sempre bajularam descaradamente o desconhecido. 

Algumas coisas, however, me recuso a fazer. Por muito tempo fui obrigado a ingerir detestáveis porções de lentilhas enquanto ainda vivia na casa de meus pais, em Essex. Um dia, arrisquei o ano vindouro e rejeitei minha porção. A expectativa de uma tragédia não se realizou, thank God!

Os fogos de artifício, as you know, são uma tradição de origem oriental: luzes e ruídos para espantar os maus espíritos. Nowadays, o que era uma inofensiva barulheira tornou-se um longo bombardeio. Os maus espíritos, I presume, é que estão organizando a foguetagem.

De todas as superstições de New Year’s Eve, a que mais me agrada é a que sugere beijar a mulher amada no exato instante das 12 badaladas. Tem poesia – e começar um ano com poesia é mais bonito do que berrar, sujar as praias (jogando coisas ao mar como vocês gostam, isn’t it?) ou mergulhar em fontes geladas como os londrinos embriagados fazem em Trafalgar Square. 

A mais assustadora das superstições, felizmente não muito repetida no Brasil, é aquela que anuncia morte na família dos que lavarem roupas no primeiro dia ano nascente. É a chamada praga inócua, isn’t it? Pois quem haverá de lavar roupas justo no dia internacional da ressaca? Happy New Year, my friends! Ah, e nunca esqueçam de abrir as janelas exatamente à meia noite do dia 31. Garantem os sábios que só assim o ano novo entrará na sua casa. E o velho partirá para sempre.”

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

Nem todo mundo pula 7 ondinhas. Veja outras mandingas de ano-novo pelo mundo:

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