Gabriel Pinheiro/Estadão
Gabriel Pinheiro/Estadão

Texas, para desbravar de carro

Em uma aventura de carro pelo Estado descobrimos que chegar ao Parque Nacional de Big Bend é apenas um pretexto para conhecer as particularidades da essência norte-americana

Gabriel Pinheiro, Estadão

16 Agosto 2016 | 00h45

Howdy y’all! O sotaque que acompanha a saudação – pronunciada em um inglês cantado, arrastado – é a primeira evidência de que você chegou ao Texas. O Estado da “estrela solitária”, assim chamado em referência a única estrela de sua bandeira, tem diversas particularidades que o fazem muito diferente dos outros 49 que compõem o país.

Esqueça os Estados Unidos de Miami, apinhado de turistas brasileiros, e de Nova York, dominado por refeições rápidas, maratonas de compras e muita correria. “Você já esteve nos Estados Unidos?”, perguntou uma simpática texana em Midland, cidade com pouco mais de 100 mil habitantes, por onde começamos nossa viagem de carro rumo ao majestoso Parque Nacional de Big Bend. Disse que sim, e enumerei Nova York, Miami, Las Vegas e Califórnia. “Ah, mas aqui é diferente. Totalmente diferente. Você vai gostar mais”, respondeu. “E você vai amar nosso churrasco.” 

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O bom texano senta-se à mesa sem pressa e come o dito churrasco acompanhado de chá gelado. As costelinhas, o frango e a linguiça que você encontra em qualquer esquina são um deleite para quem gosta de carne na brasa. Com muita, muita pimenta – traço da influência mexicana, que originou grande parte da cultura local.

Texanos também não dispensam um bom papo, e até o nome do Estado deriva da palavra indígena tejas, que significa “amigos”. O DNA do povo embute também um notável orgulho local: eles se apressam em dizer que são texanos antes de americanos. 

As bandeiras com uma estrela só estão por toda parte, assim como as bombas de sucção de petróleo nas extensas propriedades rurais vistas quando se pega a estrada. Sinal da pujança econômica. No verão, as altas temperaturas do clima árido, desértico em muitas regiões, fazem entender o porquê de os chapéus serem tão populares por aqui – embora hoje o look clássico de cowboy, com bota, colete e cinto afivelado, exista apenas no dia a dia dos texanos que trabalham em atrações turísticas das cidades do interior. 

Ao volante. É pela rodovia, de carro, que se chega aos parques naturais do Texas. As planas e bem sinalizadas estradas e o que você descobre pelo caminho são atrações em si. Há vários pontos que justificam uma parada. Entre deserto e montanha há cenários magníficos, pequenas cidades interessantes e natureza à vontade. Não tem segredo: alugue um carro com GPS (estude o mapa do trajeto, que é bem simples) e caia na estrada. 

Nossa aventura começou em Dallas, após o voo direto com 11 horas de duração desde São Paulo. De lá, outro trecho aéreo de 45 minutos para Midland, a 550 quilômetros de distância – trajeto que também pode ser feito de carro em cerca de seis horas.

Midland e San Antonio (a 470 quilômetros de Dallas) são consideradas pontos de partida para os viajantes que fazem a road trip rumo ao Big Bend. São 330 quilômetros, pouco mais de três horas, sem paradas. Mas você vai querer parar. A seguir, você descobre onde. E por quê.

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Gabriel Pinheiro, Estadão

16 Agosto 2016 | 00h35

A cidade natal da ex-primeira dama dos Estados Unidos Laura Bush é a maior do roteiro pelo Texas. Tem bons hotéis e infraestrutura de cidade média. Vive da exploração de petróleo. E venera o ouro negro: possui um Museu do Petróleo (petroleummuseum .org; US$ 12), único no país. Fundado em 1975 por alguns dos pioneiros na extração, o local mostra a importância do petróleo para o desenvolvimento do Texas.

Outro ouro negro em Midland é a Susie’s South Forty Confections, uma fantástica fábrica de chocolates, caramelos e muitos doces, localizada em um salão texano, na região central da cidade. Sua carismática dona, Susie Hitchcock-Hall, tornou-se uma personalidade local: ex-coreógrafa, ela abriu o negócio em 1991 e ganhou fama após seus doces caírem no gosto de texanos bem conhecidos, como George W. Bush.

O republicano escolheu os doces de Susie para serem servidos na cerimônia de posse em Washington em 2004, quando conquistou a presidência norte-americana pela segunda vez. O fato é motivo de orgulho: nas paredes da loja, diversas fotos e reportagens mostram a ligação da proprietária com a família Bush. Não deixe de provar as trufas de caramelo e o Texas Trash, uma mistura de cereais criada por Susie, coberta com muito açúcar.

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Gabriel Pinheiro, Estadão

16 Agosto 2016 | 00h36

A cidadezinha de cerca de 500 habitantes fica a duas horas e meia de Midland, a 67 quilômetros do Big Bend. O clima é terra de cowboy, com propriedades rurais, ferrovia e casinhas que parecem ter parado no tempo. Foi cenário para o filme Fandango, com Kevin Costner.

A atração mais famosa é o histórico Hotel Gage. Construído em 1927, ele aparece em várias listas de hotéis preferidos de viajantes pelo mundo. O local é luxuoso e aconchegante. Possui 45 quartos amplos, decorados à moda texana, com pele de animais e alguns chifres nas paredes. Não tem televisão, mas oferece uma bela piscina e Wi-Fi de boa qualidade. Se quiser pernoitar, as diárias partem de US$ 229 para quartos com duas camas de casal.

O hotel conta ainda com bar e restaurante abertos ao público. O preço é salgado: um belo jantar – churrasco, é claro – com entrada e sobremesa não sai por menos de US$ 70 por pessoa. Como o restaurante é pequeno, é bom fazer reserva.

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A cidade fantasma de Terlíngua

De Terlíngua ao Parque Big Bend, vá pela FM 170. Vire à direita na primeira entrada da TX-118S. Siga até a entrada do parque. De Big Bend até Marfa, tome a TX-118N até a US-90W. Nela, vá até Marfa

Gabriel Pinheiro, Estadão

16 Agosto 2016 | 00h37

A pouco menos de duas horas de Marathon, a apenas 13 quilômetros do Big Bend, você encontra um lugar que parece ter saído de um filme de Velho Oeste. A cidade fantasma de Terlingua, como é conhecida, tem apenas 58 habitantes, segundo o último censo por ali, feito em 2010.

No começo do século 20, muita gente vinha à região para trabalhar em minas de mercúrio. O trabalho era insalubre. Nos anos 1940, as minas faliram, a extração terminou e a cidade dos mineradores acabou sendo abandonada. Hoje, o local virou ponto turístico, com um salão restaurado e loja de souvenir.

Em meio ao clima desértico, carcaças de jipes, construções e um cemitério dos antigos moradores rendem fotos com ares cinematográficos. Para se hospedar lá, há pequenas pousadas.

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Gabriel Pinheiro, Estadão

16 Agosto 2016 | 00h40

Em meio a deserto e às montanhas, a pequena cidade é rica em arte contemporânea. Marfa é uma das mais belas surpresas que você vai encontrar nessa viagem. Com apenas 2 mil habitantes, a cidade fica a 158 quilômetros do Big Bend, a cerca de 1 hora e meia do parque nacional. Abriga a Judd Fundation, do artista minimalista Donald Judd, que se mudou de Nova York para Marfa em 1971. Galerias de diversos outros pequenos artistas podem ser vistas na cidade. Algumas obras ficam expostas ao ar livre, como um falso conceito de loja da Prada que atrai diversos curiosos.

Além de ser conhecida pelas artes, a cidade é famosa por um fenômeno chamado Luzes de Marfa. Próximo à Rota 67, a leste da cidade, é possível observar estranhas luzes esféricas no horizonte. Elas piscam sem parar – e sem explicação. Até hoje, sabe-se muito pouco sobre elas, o que abre espaço para as mais diversas teorias: ovnis, extraterrestres… Veja e tire suas próprias conclusões. Gosta de astronomia?

Uma boa dica é ir até Fort Davis, a cerca de 30 minutos de Marfa, e conhecer o Observatório McDonald (desde US$ 8). Com seus enormes telescópios, em uma noite clara é possível observar muitas estrelas e planetas. Compre os ingressos com antecedência pela internet.

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O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2016 | 00h41

Faça uma pausa para um mergulho em uma piscina de águas naturais. O parque estadual da cidade de Balmorhea, a uma hora de Marfa ou cerca de 250 quilômetros do Big Bend, é um verdadeiro oásis no deserto. O local abriga uma imensa piscina de águas límpidas, belos gramados e mesinhas para fazer piquenique ou simplesmente curtir o sol.

Dá para passar um dia inteiro e recarregar as energias. A entrada custa US$ 7, com direito a usar todas as instalações, que incluem banheiros limpos, vestiários e restaurantes. 

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Gabriel Pinheiro, Estadão

16 Agosto 2016 | 00h42

Pense em montanhas, rios e deserto. O Parque Nacional de Big Bend, no Texas, é uma imensa área de preservação no Deserto de Chihuahua que combina paisagens de tirar o fôlego. São 3,2 milhões de quilômetros quadrados de natureza exuberante na fronteira dos Estados Unidos com o México. Todo o cenário é permeado pelas Montanhas Chisos – uma cordilheira cujo pico, chamado Emory, está 2,4 mil metros acima do mar – e pelo lendário Rio Grande, que divide os dois países. 

Os enormes cânions, esculpidos ao longo de milhões de anos, ficam mais bonitos a medida em que você avança no parque, que ainda é pouco visitado tanto por norte-americanos quanto por estrangeiros. No último ano, recebeu cerca de 400 mil turistas. 

Não espere encontrar brasileiros. Para os amantes da natureza com uma boa dose de aventura, o Big Bend tem muito a oferecer: abriga 3,6 mil espécies de insetos, 1,3 mil espécies de plantas e nada menos que 600 tipos de animais, entre pássaros, mamíferos, répteis e anfíbios. Há pumas e coiotes – que só saem das tocas à noite, para caçar –, ursos, leões da montanha, raposas e águias, símbolos dos Estados Unidos.

Desbravando. Para explorar o parque, pegue um mapa e pé na tábua: são 40 quilômetros de estradas e trilhas interconectadas, muito bem sinalizadas. A estrada mais famosa, Ross Maxwell Scenic Drive, passa por pontos espetaculares, como Sotol Vista (que oferece uma das melhores vistas do parque) e trilhas populares, como Chimneys, Burro Mesa Pour-Off e Tuff Canyon. 

Placas indicam extensões e recomendações, e o centro de visitantes do parque oferece serviço de guia. Se quiser começar com uma trilha mais fácil, aventure-se na Lost Mine Trail, perto do alojamento oficial e com bela visão das Montanhas Chisos. Ao fim da Ross Maxwll Scenic Drive, você chega à joia do Big Bend: o cânion de Santa Elena, na fronteira com o México, cortado pelo Rio Grande, que você terá de atravessar a pé para alcançar a trilha que leva à garganta do cânion.

A tarefa pareceu fácil, o que não era, apesar da correnteza calma ali e da profundidade de menos de um metro e meio. Mas as margens cobertas de lama, que afundam conforme você avança, tornam a travessia com uma mochila tarefa para iniciados. Tombos são frequentes. Melhor se aventurar apenas com trajes de banho, protetor solar e repelente. A máquina fotográfica? Leve por sua conta e risco. Há a opção de fazer rafting no Rio Grande. 

Feita a travessia, você alcança a trilha, não muito extensa. Todo o percurso leva pouco mais de uma hora. Ao final, a vista do cânion cortado pelo Rio Grande é cinematográfica. Se você não levou sua câmera, certamente aqui vai bater um arrependimento.

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