Andrea Comas/Reuters
'A Anunciação' (1576), de El Greco, no Thyssen-Bornemisza Andrea Comas/Reuters

'A Anunciação' (1576), de El Greco, no Thyssen-Bornemisza

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Thyssen-Bornemisza, obras de arte importantes para ver com pouco tempo

Com rico acervo, museu em frente ao Museu do Prado tem curadoria que permite ir do século 13 ao século 20 em uma única visita

Bruna Toni , O Estado de S.Paulo

Atualizado

'A Anunciação' (1576), de El Greco, no Thyssen-Bornemisza

Andrea Comas/Reuters

Distância a partir do Museu do Prado: 400 metros (5 minutos de caminhada).

Ano de inauguração: 1992, 173 anos depois do Museu do Prado.

O que ver: pinturas do século 13 ao século 20, com destaque para obras do renascimento e da escola flamenga e holandesa.  

Site: museothyssen.org

Serviço: Passeio do Prado, 8. Às segundas, das 12h às 16h, entrada gratuita; de terça a domingo, das 10h às 19h, entrada a 13 euros. 

A VISITA

O Museu Thyssen-Bornemisza me surpreendeu e impressionou, do atendimento ao visitante à curadoria. Ele é, por exemplo, o único do “trio de ferro” dos museus madrilenhos (formado também pelo Prado e pelo Reina Sofía) a oferecer audioguia em português (de Portugal, claro). É também o único a abrir todos os dias da semana e a ter ingresso gratuito às segundas-feiras, quando outras atrações fecham. 

Quando cheguei ao museu, já havia concluído todo meu roteiro de arte pela capital. Uma maneira de encerrar a viagem em grande estilo - mas, como ônus, ele também encontraria uma repórter cansada de bater perna e trabalhar a mente depois de centenas de obras de arte. 

Eis que ele, o Thyssen, inaugurado em 1992 no bonito Palácio Villahermosa, em frente ao Museu do Prado, se apresentou ideal. Ideal para quem já viu muita arte e ainda quer encontrar novos nomes e obras interessantes. Ideal para quem quer algo mais compacto, sem deixar de ver grandes mestres. 

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Sua coleção exposta, distribuída em três andares, é também a que atravessa mais movimentos artísticos, do primitivismo italiano dos séculos 14 e 15, seu principal acervo, ao neo-dadaísmo e arte pop do fim do século 20, passando pela escola flamenga e espanhola e pelo impressionismo, expressionismo, cubismo, futurismo e surrealismo. Tudo fruto da paixão por arte da família Thyssen-Bornemisza, que desde o fim do século 19 adquiriu obras valiosas, compradas pelo Estado espanhol na década de 90.  

Além de exposições temporárias, há duas coleções fixas: a permanente e a Carmen Thyssen-Bornemisza, agrupada numa ala mais recente do palácio, construída em 2004 e onde está exposto um maior número de obras de paisagens arcádicas, confeccionadas entre os séculos 17 e 19. Essas galerias estão batizadas com letras, de A à P, e ocupam o primeiro e o segundo andares.

A PARTIR DO ALTO

A curadoria do Thyssen sugere que o passeio tenha início no segundo andar, onde estão as mais antigas pinturas de seu acervo permanente e artistas como Caravaggio, Tintoretto e El Greco. A orientação vale também para a coleção Carmen, que começa com pinturas italianas do século 17. 

Nas paredes rosadas do museu, o ouro sobre tela de pinturas italianas e de retábulos e trípticos religiosos ganham mais expressividade. Dessa fase, Retrato de Giovanna Tornabuoni, de Domenico Ghirlandaio, produzido entre 1489 e 1490, é um dos que mais me encantaram - e um dos mais importantes da casa também. 

Em têmpera sobre madeira, a nobre florentina Giovanna degli Albizzi é retratada de perfil, com seus cabelos loiros impecavelmente penteados e seu traje amarelo e vermelho vibrantes, que denunciam sua alta classe social e elegância. Além de esteticamente bonito, o quadro é um representante da fase artística, econômica e política mais próspera de Florença e Veneza, as grandes cidades das rotas comerciais no Mediterrâneo nos séculos 15 e 16.

Quem também viveu essa efervescência cultural de Veneza foi El Greco. Nascido na Ilha de Creta, sob domínio veneziano até o século 18, o pintor chamava-se Doménikos. Foi em Toledo que ele viveu sua maturidade artística e recebeu o apelido (na cidade, visite o museu dedicado a ele bit.ly/museuelgreco). Depois, passou um tempo em Veneza como aprendiz de Ticiano, outro pintor com obras no Thyssen - os dois, ao lado de Tintoretto e Bassano, formam ali um quarteto imperdível do renascimento humanista. Do contato entre eles, a obra Anunciação, de El Greco, pintada na segunda metade do século 16, é testemunho.   

Em seguida, será a vez de um encontro com o barroco de Caravaggio, um dos mais importantes pintores italianos da virada do século 16 para o 17, e de Murillo, destaque da pintura espanhola no século 17. Do primeiro, o destaque é Santa Catarina de Alexandria (até 1598-1599), onde a santa é retratada com o rosto de uma cortesã da época e aparecem os elementos de sua morte ao redor: uma dramaticidade que ganha força com o contraste entre claro e escuro do barroco.

E como em toda boa ida ao museu descobrimos algo, no Thyssen fui apresentada a Canaletto, meu novo pintor favorito. Em suas obras, as figuras humanas cedem espaço a paisagens de canais, rotas marítimas, praças, edifícios. São cenas urbanas de Veneza, as vedutas, pintadas com delicadeza e poesia, como em Vista do Grande Canal do São Vío e A Praça de São Marcos em Veneza, ambas de 1723-1724.

ENCONTRO DE MESTRES

Depois de dezoito salas, chega-se à vasta coleção de mestres flamengos e holandeses. Nessa ala, Rubens e Rembrandt são os principais nomes. Do segundo, há apenas um quadro, Autorretrato com gorro e duas correntes (1642-1643), pelo qual quase passei despercebida - para não ter erro, procure com mais atenção entre as salas 19 e 21. Entre as obras de Rubens, Vênus e Cupido (1606-1611), uma cópia barroca da arte de Ticiano, é um retrato sedutor de Vênus, a deusa do amor, contemplando sua imagem no pequeno espelho de um cupido.  

Entre outras preciosidades, a área a seguir reserva mestres impressionistas e expressionistas - falamos deles a seguir -, além de um retrato belíssimo do Brasil do século 17 feito pelo pintor holandês Frans Post. Fixado numa parede lateral entre duas salas, passei uma primeira vez sem notá-lo. Até que, talvez por intuição, bati o olho na imagem com um conjunto de homens e mulheres negros caminhando em direção ao mar, bem ao longe, e resolvi voltar para conferi-la. Vista das Ruínas de Olinda, de 1665, é uma das pinturas mais marcantes deste roteiro.      

DO BARROCO À ARTE POP

Depois dos pintores flamengos, passei rápido pela coleção de natureza morta e me deparei com ícones das pinturas francesa, inglesa e norte-americana, com o romantismo, naturalismo e realismo, até chegar à pintura europeia do século 19. Parei por uns instantes diante de O Duque de Orleans mostrando sua amante (1825-1826), de Eugène Delacroix. Ali, a exposição da mulher seminua e envergonhada por dois homens causaria angústia às mentes feministas.

O impressionismo e o expressionismo, assim como os movimentos que deles nasceram, dominam as últimas salas do primeiro andar. Essa coleção se soma aos exemplares da ala mais nova do museu, da coleção Carmen Thyssen, com obras de Van Gogh, Monet, Cézanne, Gauguin, Lebasque, Degas, Renoir e Pissarro.

De Monet, Charing Cross Bridge (1899) deixa a fria e cinzenta Londres mais romântica e azul. De Lebasque, gosto do pitoresco do cotidiano que há em Nas margens do Marne perto de Montévrain (1900). Mas é o francês Alfred Sisley quem mais me encanta. Na sala H, ainda no primeiro andar, A inundação de Port-Marly (1876) e Uma tarde em Moret, final de outubro (1888) merecem suspiros. Enquanto a primeira faz parte de uma série de pinturas sobre a inundação do Rio Sena em 1876, mostrando uma capital mais serena, recuperando-se do alagamento, a segunda é ótimo exemplo da técnica impressionista de mostrar diferentes pontos de vista de uma mesma cena a partir das diferentes estações do ano e horas do dia.

Russo naturalizado alemão e professor da Bauhaus (leia nosso especial de 100 anos sobre e escola bit.ly/100anosbauhaus), Kandinsky chega invadindo o século 20 com sua arte abstrata e colorido provocante. Entre suas obras, Murnau, casas em Obermarkt (1908), uma imagem das ruas de um povoado situado aos pés dos Alpes, é exemplo encantador do movimento fauvista do início dos novecentos. 

E por falar nisso, é no térreo que estão concentrados exemplares de movimentos artísticos do século passado como cubismo, o futurismo e o dadaísmo. Diante do Museu Reina Sofía, dedicado à arte moderna e contemporânea, a coleção do Thyssen fica pequena. Mas segue sendo interessante e valiosa. Prepare-se para se deliciar com Picasso, Juan Miró, Matisse, Juan Gris, Gabrielle Münter e Torres García, nomes do período entreguerras. 

LER E COMER

O museu tem uma boa livraria. No restaurante e cafeteria, há opções rápidas e pratos mais sofisticados. Durante o verão, entre março e setembro, é possível sentar-se no mirador, no 5º andar, e almoçar ou jantar com vista para a cidade - reservas em elmiradordelthyssen.com. Há cadeiras e sofás de descanso no terraço. 

O Thyssen-Bornemisza também oferece duas visitas guiadas, de cerca de 1h de duração: a “de portas abertas”, que ocorre com um guia da casa durante o horário de funcionamento do museu (25 euros por pessoa), e a “de portas fechadas”, que ocorre antes de o museu abrir ao público e pode ser feita com guia local (71,50 euros) ou um particular (40 euros) - detalhes em bit.ly/guiadasthysen. Também é possível baixar o mapa do museu em português: bit.ly/planothyssen.  

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