'Tiririca’s class'

Mr. Miles* ,miles@estadao.com.br,

03 Novembro 2010 | 10h00

 

 

 

O correspondente britânico começou a correspondência da semana com um comentário sobre a eleição no Brasil: "Well, my friends, a esta altura vocês já têm um novo presidente. No momento em que vos escrevo, havia uma tendência de que a eleita fosse aquela senhora de traços búlgaros. Mas, quiçá, numa reviravolta improvável, o vencedor tenha sido aquele outro senhor, que me lembra um bedel. Anyway, desejo ao vencedor muito sucesso, além de bom senso e boas intenções. E, desde já, ouso dar-lhe um palpite: a julgar pelo sucesso desta coluna, seja mais bem humorado!"

 

Mr. Miles: o que o senhor acha da recente sugestão para que companhias aéreas cobrem menos de quem leva menos bagagem?

Marcelo Travassos, por e-mail

 

"Well, Marcelo, confesso que não li nada a respeito no Essex Chronicle, mas a ideia me pareceria fair enough, não fosse o fato de que há uma maneira de interpretá-la ao contrário. Algo me faz suspeitar que por trás desse rompante de generosidade esconde-se o plano de cobrar mais de quem leva bagagem. Don’t you agree?

 

Como já tive oportunidade de comentar em correspondências anteriores, não me oponho à existência de companhias aéreas low cost, que facilitam o deslocamento de passageiros provisória ou definitivamente desprovidos de recursos e democratizam a possibilidade de viajar. Acho, by the way, que o conceito é brilhante quando exemplarmente usado. However, dear Marcelo, tenho observado em diversas regiões do mundo um fenômeno que, na Inglaterra, chamamos de crookedness - algo como ‘picaretagem’, em tradução livre.

 

Ou seja: temos um necessário rebaixamento na qualidade dos serviços para que as tarifas atinjam patamares inferiores. Cream crackers no lugar de refeições; espaços cada vez mais reduzidos entre poltronas, indicados para passageiros flexíveis que não sofram torções ao apoiar o queixo nos joelhos; descontos para quem não levar bagagens, etc, etc. Nevertheless, como a memória é curta e a economia dinâmica, muitas companhias vão, aos poucos, recuperando o valor das tarifas originais sem, of course, devolver benefícios extirpados.

 

Esta situação, aliás, é mais notável, nowadays, nas ditas empresas tradicionais do que nas que propõem-se a praticar tarifas low cost.

 

As you know, Marcelo, não sou a pessoa mais indicada para comentar o tema, já que, como sócio-remido de diversos programas de milhagem, não preciso pagar pelos bilhetes aéreos há muitos anos. Mas ouso dizer que a velocidade com que os serviços da classe econômica - que um amigo bem-humorado apelidou de Tiririca’s class -, vem despencando é astounding. Em voo recente, reparei que até a qualidade da borracha de que são feitos os frangos servidos a bordo andou piorando. Sem dizer que as cenouras, que não tinham gosto de nada há algum tempo, agora adquiriram o sabor de chuchus! E dizer que, há alguns anos, jantares saborosos eram servidos em louça noritake, na classe econômica. Oh, my God!

 

Aqui, I must say, cabe uma pequena indagação: teria a qualidade das viagens aéreas diminuído porque é isso o que queremos ou será que estaríamos dispostos a pagar um pouco mais por serviços de melhor qualidade? Sim, porque a distância que separa o valor das passagens econômicas das de classe superior, for instance, é abissal. Reconheço que há algumas tentativas (pífias, eu diria) de criar padrões intermediários. Mas talvez fosse uma boa ideia tentar para valer. Don’t you agree? Escrevam-me para falar a respeito, my friends."

 

*É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

 

 

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