Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Toda a beleza e a tensão de um almoço com as feras

Interessados em pedaços de peixe, tubarões nadam tão perto do grupo que chegam a esbarrar no corpo dos mergulhadores. Mas o que era medo vira puro deslumbre

31 Outubro 2011 | 23h00

NASSAU - Enquanto escutamos as orientações do chefe da equipe, inúmeros tubarões rodeiam o barco. Uma imagem difícil de esquecer. E que ajuda a explicar a mistura de emoções quando se está a poucos momentos de cair na água para participar, como espectador, de um almoço com os animais. Sem gaiola de proteção.

 

A tensão é inevitável e faz parte desta aventura. A Stuart Cove, empresa que promove os mergulhos, se encarrega de ir buscar cada viajante no hotel, para evitar atraso (e desistências, quem sabe?). A assinatura de um termo de responsabilidade, que isenta a empresa em caso de acidente - raros na região, destacam os guias - aumenta ainda mais a dúvida: será que é seguro?

 

Há exigências e regras para (quase) garantir que, sim, você vai e volta inteiro. Para começar, apenas mergulhadores certificados podem participar. A principal orientação é nunca fazer movimentos bruscos perto dos tubarões. Informações passadas ao grupo pelo alimentador de tubarões Neal Harvey, enquanto o barco cumpre o trajeto de 2 quilômetros até Bahama Mama. Lá fica o navio cargueiro Ray of Hope, naufragado em 2003 para servir de arrecife artificial. A região é farta em tubarões-tigre e tubarões caribenhos de arrecife, conhecidos no Brasil como cabeças-de-cesto.

 

Piadas como "estão prontos para virar comida de tubarão?" tentam descontrair e aliviar a tensão. Harvey explica que os animais se aproximam dos mergulhadores por instinto, mas logo tomam outro rumo.

 

 

No primeiro mergulho, para reconhecimento da área, chegamos a uma profundidade de 25 metros. Ver um animal de 2 metros de comprimento vindo rápido em sua direção e desviando a pouco menos de 2 metros de distância é aterrorizante. Mas o movimento se repete tantas vezes que você acaba se acostumando.

 

O grande momento. No esperado mergulho para alimentar tubarões, todos descem a uma profundidade de 15 metros, até a proa da embarcação naufragada.

 

Vestido com uma roupa de malha de ferro trançada, Neal Harvey chega depois, com a caixa de alumínio cheia de pedaços de peixe. Larga a caixa na estrutura de ferro do barco, o que emite um som que dá início ao ritual.

 

A quantidade de tubarões aumenta - são pelo menos 40 após 15 minutos. É possível ver fêmeas de 3 metros de comprimento. Você pode sentir parte dos corpos dos animais batendo nos seus ombros, cabeça e rosto, enquanto tentam alcançar a caixa. Estamos tão perto que é possível ver detalhes de suas íris. E o que era assustador passa a ser fascinante.

 

De volta à superfície, o entusiasmo toma conta do grupo, que se cumprimenta com gritos de euforia. O alimentador chega depois e é recebido sob aplausos. Sua mão sangra. Ele diz que já perdeu a conta de quantas vezes foi mordido. "Os tubarões sentem que não é peixe e largam, mas o ferimento é inevitável", diz. "Vocês não foram mordidos porque não fizeram movimentos bruscos", explica, depois de perguntar, de brincadeira, se estavam todos bem e "com tudo no lugar".

 

Uma apaixonante profissão de risco

 

Pode ser difícil de acreditar, mas há quem sonhe em ser alimentador de tubarões. O biólogo brasileiro Cristian Dimitrius, por exemplo. Influenciado por documentários e até mesmo pelas aventuras de Jacques Cousteau, colocou na cabeça que um dia exerceria tal função.

 

Concluiu os cursos de mergulho em Florianópolis, trabalhou como mergulhador na costa brasileira, Caribe, México, República Dominicana e conseguiu o posto na Stuart Cove no ano 2000. Foi um dos principais mergulhadores da equipe - seu currículo soma mais de 100 mergulhos para alimentar as feras.

 

"É claro que todos possuem um pouco de loucura quando escolhem essa função, mas a paixão pelos animais e pela natureza é o mais importante", diz.

 

Mesmo afastado da função de alimentador, ele continua dedicado aos tubarões. Hoje dono de uma produtora de imagens da vida selvagem, tenta, com seu trabalho, desmistificar a imagem de assassino que os animais possuem. "Os tubarões têm um potencial, mas não são agressivos por natureza. Eu os alimento como se estivesse dando comida aos meus cachorros", diz.

 

A Stuart Cove mantém o seu próprio centro de formação de alimentadores, estudos de comportamento e inúmeros programas com tubarões, em atividade há mais de 20 anos.

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