Aryane Cararo/Estadão
Aryane Cararo/Estadão

Toda a elegância da injustiçada Milão

lDisputa de atenção

MILÃO, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2013 | 02h08

Repare nos detalhes do Castelo Sforzesco, tão ricos quanto seu acervoMilão é uma cidade injustiçada. Dizem que é feia. Fria. Desinteressante. Indicam apenas como local de compras. Não sei se fui com poucas expectativas, mas desconfio que o problema seja a comparação. Ela não tem toneladas de monumentos como Roma, a aura artística de Florença, a beleza medieval de Siena, nem o charme de Veneza. Mas, verdade seja dita: sem alarde, Milão surpreende pela harmonia. É agradável, cosmopolita, antenada. Tem arte, cultura, boa comida. Tem pontos turísticos interessantíssimos. E alguns dos rostos mais bonitos e bem-vestidos da Itália.

Ora, é a cidade onde se pode ver A Última Ceia, de Leonardo da Vinci. Onde está uma das catedrais góticas mais bonitas do país. Onde fica o imponente Castelo Sforzesco, hoje um grande espaço expositivo e casa da Pietá Rondanini, de Michelangelo. Onde foi construído o neoclássico Teatro alla Scala (1778), que tem o maior palco da Europa e local de estreia da ópera brasileira O Guarani, de Carlos Gomes, em 1870. Onde funcionam as pinacotecas Ambrosiana - que expõe o Codex Atlântico de Da Vinci e as primeiras edições de A Divina Comédia, de Dante - e a di Brera, com obras de Rafael, Modigliani, Tintoretto e Caravaggio.

Ali também se passeia pela bela Galleria Vittorio Emanuele II, projetado por Giuseppe Mengoni em 1865, em frente à catedral, com lindos vitrais, mosaicos com imagens de continentes e telhado de vidro. Há Prada, Gucci e Louis Vuitton, mas irrita apreciar vitrines em um local tão lotado.

Se não fizer compras ali, não se preocupe. Milão tem um enorme número de grifes por quilômetro quadrado, a maioria concentrada no Quadrilátero de Ouro - formado pelas vias Montenapoleone, Manzoni, Spiga e Sant'Andrea. Mas, se quiser um endereço mais descolado, desvie para a 10 Corso Como (10corsocomo.com), loja-conceito aberta em 1991 por Carla Sozzani, ex-diretora da Vogue italiana. Há um misto de roupas, itens para a casa, galeria de arte, café e uma livraria com ótimos livros-arte por preços acessíveis. Vende peças de Alexander McQueen, Stella McCartney, Comme des Garçons e Louboutin, por exemplo. Muita coisa escolhida a dedo.

O calçadão da Via Dante também tem algumas boas lojas, permeadas por cafés agradáveis, mas o melhor é que liga dois pontos imperdíveis da cidade: o Duomo de Milão e o Castelo Sforzesco. A catedral resplandecente, com suas 135 agulhas que parecem rendadas, impressiona. Suas obras começaram no século 14 e levaram 500 anos para serem concluídas - só houve fim graças a uma ordem de Napoleão Bonaparte, conta-se.

Valeu o esmero. Seu interior tem 52 altíssimas colunas e um chão de mármore trabalhado que dá pena de pisar. Não deixe de subir ao telhado, mas dispense as escadas e vá de elevador se não estiver fazendo penitência. Você terá uma magnífica visão da cidade, tão perto do céu e tão longe dos homens. Como não amar Milão ali do alto?

Na outra ponta da via, o contraste: o escurecido castelo, de formas robustas. Construído no local do antigo palácio da família Visconti, no século 15, a mando de Francesco Sforza, duque de Milão, ele ainda preserva afrescos de Da Vinci. Ao longo dos séculos, serviu até de fortaleza militar quando a Lombardia foi ocupada pela Espanha e pela Áustria. Hoje, abriga Museu de Arte Antiga, Pinacoteca e coleções de Artes Aplicadas, instrumentos musicais, arqueologia, além de ter uma linda vista para o Parque Sempione - e seus 380 mil metros quadrados de verde, com o Arco della Pace ao fundo. Não há como ser injusto com Milão. Ela surpreende.

/ ARYANE CARARO

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