Arte|Estadão
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Todos os dias de todos os tempos

‘Não perco meu amor incomensurável pelas pessoas, sobretudo as que não conheço’.

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2015 | 03h00

Sim, ele está no Brasil! Confirmando as previsões, o grande viajante britânico decidiu passar o fim de ano entre nós. Mas, contrariando-as, resolveu ir para Itacarambi, 670 quilômetros ao norte de Minas Gerais, em vez de Itacaré, onde sua possível presença tornou o ambiente muito denso de expectativas. Itacarambi fica ao lado do Rio São Francisco, poucos quilômetros além de Januária, onde Mr. Miles viveu um antigo romance.

O objetivo de sua viagem foi revelar – aos brasileiros e ao mundo – a existência do Parque Nacional do Peruaçu, uma das maiores preciosidades de nosso País, infelizmente escondida da população por alguma decisão mesquinha e impensada dos gestores do Ibama.

Trata-se de uma imensa reserva com cavernas, dolinas e rios cristalinos onde fica, quiçá, a maior concentração de pinturas rupestres do Brasil, com painéis que ultrapassam os dez metros de largura e os cinco de altura. “It’s a shame, my friends. Algum bastard bem intencionado fechou a porta desse paraíso com as chaves da burocracia. Ninguém entra, ninguém vê. Se Peruaçu ficasse nos anéis de Saturno, pelo menos algum telescópio da Nasa permitiria que o víssemos. However, aqui não há jeito. Ou há: tanto que passei o dia por lá, de forma absolutamente clandestina.”

Indignado, mas feliz com o que pode melhorar no ano que chega, nosso correspondente inglês compartilha seus melhores votos de ano novo a todos os que o acompanham. A seguir, a correspondência da semana.

Mr. Miles: quantos anos-novos existem no mundo?

Nair Vasconcellos Brille, por email

Nice question, my dear! Para nós, ocidentais, o ano-novo ocorre quando os fogos explodem em Copacabana, na Trafalgar Square ou em Times Square. Sempre na noite de São Silvestre. Não vou fazê-la perder tempo explicando as razões dessa data específica, mas ouso dizer que, se tivermos a paciência de estudar as diferentes culturas do mundo, sejam elas ainda ativas ou não, quase todo dia do ano há uma festa em algum lugar. Can you believe me?

Há anos solares, lunares e lunossolares. Há anos hebraicos, chineses e assírios. Há anos babilônicos, cingaleses, talâmicos, nepaleses and so on. Dispensável dizer que para cada tipo de festividade há uma quantidade respeitável de costumes, hábitos e manias como as nossas – que incluem de roupa branca a lentilhas e sete pulinhos no mar.

Quem está com a razão?

Ninguém, of course. Ou, todo mundo, indeed. Rituais de passagem, sejam eles religiosos, políticos, zodiacais ou mesmo futebolísticos, são sempre convenções aceitas por um determinado grupo de pessoas. Os representantes da etnia xis resolvem que o melhor dia para festejar a passagem do ano ocorre em meados de março. Outros, como nós, preferimos o fim de dezembro. Não duvidem, my friends: nada começa e nada termina caso não determinemos que assim seja.

Ouso supor que o homem criou esses rituais de passagem para diminuir a monotonia do tempo e ter novas oportunidades de recomeço. Therefore: se o ano está ruim, graças a Deus está chegando ao fim. Se foi bom, então tudo indica que vai melhorar.

Somos assustados e esperançosos reféns das datas que, supostamente, mudam tudo – mesmo que, quase sempre, não mudem nada. Mas, por meio delas, deixamos para trás o que nos trouxe dor ou o que nos realizou. Lembramos, assim, que as coisas sempre podem mudar – e o que hoje parece impossível, amanhã será diferente. Mesmo que isso ocorra todos os dias de todos os tempos. Happy new year, my friends!”

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