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Todos os meus nomes no copo de café

Viajamos pela possibilidade de assumir, por alguns dias, uma nova identidade

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2019 | 03h00

Tem dias em que a gente não passa de um nome, um nome escrito em um copo de café do Starbucks.

 Tem dias em que o copo de café do Starbucks é a única coisa que leva o seu nome, como se fosse um filho enjeitado ou uma apólice de seguros assinada sem muita convicção.

– Repara na grafia…

Tem dias que a cidade passa e você nem buzina.

Mais um cidadão comum com seu copo de café do Starbucks:

Com ar perdido.

Atrás da senha do Wi-Fi

 E de alguma paz de espírito.

***

– Mas repara na grafia...

No exterior, meu copo de café vem com um nome que não é o meu. Sou Guilberto, Jilberto, Chilbert e outros. São versões do Gilberto, que é repórter, que trabalha no Estadão e gosta de uísque e pão com manteiga na chapa. 

Não necessariamente são versões melhores. Mas são diferentes da minha persona diária e habitual.

Viajo por isso. Viajo para assumir a persona que a atendente do Starbucks me der. 

Fora do meu País, com um novo nome, posso ser quem eu quiser. Sei que já escreveram isso milhares de vezes (eu mesmo já devo ter tocado no assunto). É um clichê absurdo, mas também é uma verdade difícil de contestar.

Não viajamos para conhecer pontos turísticos. Viajamos pela possibilidade de assumir, por alguns dias, uma nova identidade. 

A atendente simpática da cafeteria deve ter colocado alguma energia quando escreveu Chilbert no copo. Para ela, devo ser um decorador de interiores pesquisando novos designs de cadeira para escritório. Ou então um ex-contrabaixista de uma banda punk que fez apenas um show no início dos 70 (mas se separou por conflitos artísticos irreconciliáveis).

O Chilbert pode ser um jogador de xadrez profissional que também atua como espião para um governo do Leste Europeu. Chilbert pode ser um desempregado que sonhou com um produto que irá revolucionar o mercado de aplicativos para celular. Chilbert pode ser um fofo ou um canalha, um gênio ou um beócio da pior marca.

Se o copo de café como um oráculo...

No dia seguinte, eu tomo outro café e ganho outro nome. Nas ruas de um país que não é o meu, caminho de um jeito diferente, cabeça mais ereta, mãos no bolso da calça jeans e óculos escuros. Gosto tanto do Jilberto que a simples lembrança de voltar a ser eu mesmo me entristece um pouco.

Como Jilberto sou um homem de família, do signo de sagitário, fã de basquete, eleitor do partido verde e adepto de alguma religião exótica. Tenho dois filhos, estou no segundo casamento e acabei de comprar um apartamento ainda na planta. Além disso, gosto de jogar pôquer com os amigos no fim de semana, sou um razoável pescador e acabo de comprar ações de uma empresa de telecomunicações. 

Ou seria o Jilberto alguém que anda pelas cidades do mundo como se delas fosse habitué. Alguém que nunca se sentiu desconfortável ou estrangeiro em nenhum lugar. O dono dos mil passaportes. A célebre figura de rosto conhecido. Amado e temido na mesma medida. Nunca se perdeu em um metro estrangeiro. Nunca precisou fazer reserva em um restaurante, nunca foi barrado em nenhuma festa ou pegou fila para visitar museu. Jilberto é alguém que tem passe livre para entrar e sair de qualquer buraco, viela ou armadilha. Jilberto ainda vai ganhar uma estátua! 

Mas... no fim das férias, volto a vestir a mesma camisa, usar o mesmo perfume, acreditar nas mesmas mentiras (e contar as mesmas mentiras também). Volto para o meu personagem habitual, o Gilberto que escreve agora. O Gilberto que já está planejando em que cidade vai tomar café nas próximas férias. Quem sabe não posso me chamar Iliberto? 

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