Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

'Toma catuaba que o confete desce'

Ele acordou, pronto para outra viagem de carnaval

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

06 Fevereiro 2018 | 03h00

Ele cantava uma dessas marchinhas em que a gente precisa abrir muito a boca na hora do “allah-la-ô, ô ô ô ô ô ô” quando foi alvejado por um punhado de confetes coloridos – que desceram pela traqueia causando um piripaque instantâneo. Ao redor do engasgado abriu-se uma roda de foliões. Mas, infelizmente, a moça fantasiada de enfermeira sexy era designer de joias e o salva-vidas bombado apenas um estudante do segundo ano de engenharia.

Um Pierrot abilolado gritou: “toma catuaba que o confete desce”. 

Houve quem considerasse a alternativa com seriedade. 

O que ele ouviu de toda essa balbúrdia foi uma paradinha de bateria – e só. Ele, que tinha medo de avião, e que enfrentou um voo turbulento para brincar o carnaval no Rio de Janeiro, estava morto.

Quer dizer, ainda não.

A coisa toda ia depender da velocidade da ambulância que agora o estava levando para o hospital – tal qual um carro alegórico emperrado na avenida sendo empurrado para evitar o estouro do tempo do desfile. 

O amigo, que acompanhava o drama, culpou-se por não ter aceitado a hipótese de um retiro espiritual. Tem um monte desses lugares cheios de coisa nenhuma pra fazer durante os quatro dias de carnaval. Lugares que oferecem pacotes promocionais pra gente ficar ouvindo passarinho, abraçando árvore e comendo tofu. Por que não optaram por uma viagem espiritual? Tanta excursão pro meio do mato sendo vendida em fevereiro. Mas não, ao contrário, quis levar o amigo recém-separado para uma farra carnavalesca, uma viagem carnal. Uma farra que estava terminando em tragédia. Que ideia de jerico essa de viajar no carnaval! 

Já o engolidor de confetes, que jazia inconsciente na maca, vivenciava aquela experiência clássica de quem já está mais pra lá do que pra cá. Ele assistiu sua história passar como um filminho, uma pornochanchada em que tudo se resumia aos carnavais de outrora.

Ele se transportou até a noite de carnaval em que foi concebido. As fantasias enroscadas pelo chão e o estouro de uma camisinha vencida (nunca contaram pra ele que tinha sido por acaso). Nove meses preso na concentração do útero até o “chora, cavaco” na maternidade.

Depois do choro, se viu no colo da mãe, com 3 aninhos, fantasiado de Bambam. Os amigos da família chegando, apertando sua bochecha e prevendo o futuro de um grande folião. Apesar de toda a atenção dispensada, os adultos se deixaram levar pela empolgação dos sambas e perderam o pequeno Bambam no meio do salão. Ele se viu perdido, chorando alto, e sendo levado para o palco – onde a cantora da banda iria anunciá-lo como se fosse uma carteira esquecida.

Daí, ele rolou para uma matinê do Clube Juventus, onde aos oito anos ficou em terceiro lugar em um concurso de fantasia – trajando uma batina de padre costurada pela avó. Depois, já um pré-adolescente, se viu sozinho no quarto, abençoado pela aquisição de uma televisão só pra ele. Foram muitos carnavais varando a madrugada para assistir às transmissões dos bailes cariocas pela finada TV Manchete. Foi uma vida sexual solitária, mas intensa. 

Foi assim até o dia em que seu amigo o convidou para passar um carnaval no Rio de Janeiro. Até o dia que, recém-separado, aceitou aquela proposta sem lembrar que tinha medo de avião, que achava caro o preço das passagens aéreas nessa época do ano, que não gostava de descer no Santos Dumont e que sempre se imaginava caindo no mar. Aí, na maca do hospital, se viu dentro do mesmo avião que havia embarcado, ouviu um comandante que cantava aquela marchinha dos “mais de mil palhaços no salão” e aeromoças oferecendo copinhos de catuaba e barrinhas de cereal: “toma catuaba que o confete desce”. 

Ele acordou. Estava vivo. Para alívio do amigo e do espírito desse carnaval, o confete havia descido. A bateria voltou a tocar com garra, prenúncio de nota 10. E ele logo estaria pronto para outra viagem de carnaval. 

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Rio de Janeiro [cidade RJ] carnaval

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