Tons de amarelo no horizonte de Budapeste

Chico Buarque tinha razão: sob o céu azul da primavera europeia, Budapeste resplandece amarela. A capital húngara se despediu dos ares cinzentos. E o amarelo vintage se espelha do Rio Danúbio aos bulevares largos e construções arquitetônicas ecléticas de uma cidade onde se suspira o ditado: "Um húngaro se alegra chorando".

BUDAPESTE, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2012 | 03h09

Mas a triste história, pontilhada por bastardas glórias bélicas, não ofusca a vivacidade e o orgulho imperial de uma das mais belas capitais europeias. Desde o século 3.º a.C., o território já foi ocupado por celtas, romanos, hunos e otomanos. À época da Áustria-Hungria, o império reunia 12 etnias, entre alemães, eslavos, judeus e turcos. No século passado, o país passou por domínios de nazistas e soviéticos. Dessas trilhas vieram matizes multiculturais, como as vias largas de inspiração germânica, os banhos turcos e os cafés vienenses.

A Avenida Andrássy é um dos símbolos dessas transições. Inaugurada em 1885, foi batizada em homenagem ao primeiro-ministro Gyula Andrássy. Tornou-se Avenida Mussolini, Stalin, Juventude Húngara e República Popular, até retornar ao nome original em 1989. A querida Andrássy - bulevar inspirado na arquitetura francesa da Champs-Elysées parisiense, hoje endereço de maisons como Dior e Chanel - é um bom ponto de partida para se aventurar pela cidade. Em Peste, o lado mais moderno da capital.

A Andrássy começa no Parque da Cidade, ao lado da portentosa Praça dos Heróis - a cultura da guerra, aliás, é muito forte no país que já liderou um dos maiores impérios europeus. Além de proporcionar um belo passeio por alamedas arborizadas e diversos banquinhos para quem prefere parar para ler um livro, o parque reserva ainda um dos endereços tradicionais de Budapeste: as termas de Széchenyi Gyógyfürdo (Állatkerti körut, 11), fundadas em 1913. A majestosa fachada neobarroca esconde um ótimo spa e revigorantes banhos turcos. Aos fins de semana, a entrada para as piscinas custa 3.950 florins (cerca de R$ 35).

Voltando à Andrássy. Do Parque da Cidade rumo ao centro, a caminhada perpassa pontos interessantes, como o Terror Háza (Andrássy üt, 60), um forte museu sobre as ditaduras fascistas e comunistas no país no século 20; o Liszt Feren Museum (Vörösmarty üt, 35), em homenagem ao compositor húngaro; e a bela Magyar Allami Operaház (Andrássy üt, 22), a imponente ópera abrigada em uma construção neorrenascentista de 1884.

Nos arredores da extensa Andrássy também está o Mercado Central de Budapeste (Vámház körút 1-3), uma versão (menos charmosa, porém mais roots), do Covent Garden londrino. Vale experimentar o autêntico goulash, a deliciosa sopa húngara com marcante tempero de páprica.

Ainda à margem leste do Rio Danúbio, encontramos o Parlamento, um dos principais cartões postais de Budapeste. Inaugurado na comemoração do milênio do país em 1896, o parlamento é marcado pela profusão de estilos arquitetônicos. Por dentro, vitrais coloridos, detalhes dourados e átrios pomposos dão uma dimensão da obra-prima húngara.

Oposta. Enquanto Peste tem uma atmosfera jovial e colorida com bares, cafés, catedrais, galerias de arte, museus e sinagogas, Buda é o distrito histórico. Ornamentada por estátuas de leões, a Széchenyi Lánchid é a mais bela das dez pontes que unem as duas partes da cidade.

Buda, a cidade amuralhada na colina, ostenta o esplendoroso castelo e a extravagante Igreja de São Matias. Ali há praças, monumentos e museus. Mas a principal atração é ao ar livre: a vista panorâmica a partir do morro do castelo. Ao amanhecer, é possível contemplar uma cidade brava, mas charmosa; boêmia, mas cult; versátil, mas autêntica; e, no limite, cinza, mas amarela. /J.S.

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