Toque de Pompidou

Casa de Smurfs, lanterna mágica, chapéu chinês. Os moradores logo trataram de arrumar[br]definições para o mais novo prédio da cidade, coração do renascimento de Metz

Carla Miranda, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2010 | 02h31

 

Curvas. Prédio do Metz ao entardecer em Lorraine

 

 

A criatividade humana logo buscou definições para o mais novo prédio de Metz. Chapéu chinês, casa de Smurfs, lanterna mágica. Ou ainda cogumelo, arraia gigante, tapete voador. Se quiser ouvir outras tantas, basta perguntar a alguém no mercado ou numa rua como a Serpenoise, sempre agitada por causa de sua longa fileira de lojas.

A filial do parisiense Centre Georges Pompidou (nuvem, concha, onda...) aterrissou em meio a uma região vazia da capital de Lorraine, no nordeste francês. E veio com a disposição de transformar Metz num ponto de convergência artística. Representatividade que a vizinha Nancy teve a partir do fim do século 19, por ser uma das expoentes do estilo art nouveau (leia mais ao lado).

 

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Em volta do magnífico museu, inaugurado em maio, está surgindo um bairro inteiro, desde já chamado de Amphithéâtre, com opções culturais, gastronômicas e de consumo. E, espera-se, toda uma gama de serviços para receber os visitantes ? por enquanto, há um único quatro-estrelas disponível, o bem localizado La Citadelle, no centro. Paris fica a parcos 90 minutos dali, graças ao trem de alta velocidade. Alemanha, Bélgica e Luxemburgo também ficam próximos.

Se o exterior do prédio idealizado pelos arquitetos Shigeru Ban e Jean de Gastines possibilita tantas interpretações (óvni, célula, colmeia...), o interior encanta pela amplitude, pelas galerias panorâmicas e pela distribuição da luz. A gigantesca manta ecológica que faz as vezes de teto garante luminosidade suave de dia e, à noite, com a ajuda de muitas lâmpadas, vira uma incrível malha tridimensional.

A manta é sustentada por pequenas vigas de madeira cortadas uma a uma e encaixadas com precisão. Quem está no vão central do museu e olha para cima vê infinitos losangos (ou seriam estrelas de Davi?), formando uma composição por si só artística e merecedora de atenção, independentemente das obras que estiverem sendo expostas no momento de sua visita.

Não que se possa questionar a qualidade do que está nas paredes e nos corredores. Para montar cada mostra, peças são escolhidas entre o vasto acervo do Pompidou de Paris ? Metz não terá coleção permanente, apenas exposições temporárias. Por que, então, se deslocar da capital? O museu espera resolver essa questão incentivando o debate sobre a arte. Em vez de tão somente agrupar Picassos, investirá em mostras como a inaugural Chefs-d''oeuvre?, que discute o conceito de obra-prima e segue até outubro.

Vejo estrelas. Vigas de madeira foram encaixadas para suportar o teto feito com manta ecológica

 

Efeito Bilbao. Em meio a tantas descrições, no entanto, uma comparação inevitável. É impossível olhar para Metz e seu Georges Pompidou sem pensar num certo efeito Bilbao, a espanhola que redefiniu seu espaço no mapa turístico após a abertura de uma unidade do nova-iorquino Guggenheim, em 1997. Antes do museu, pouco se falava da cidade ? a não ser para comentar um ou outro ato tresloucado do grupo separatista ETA. Depois do Gugg, e com a renovação ali iniciada, tornou-se impossível ir ao norte da Espanha e não parar em Bilbao.

O custo para construir os museus foi equivalente, segundo o presidente do Georges Pompidou Paris, Alain Seban: US$ 96 milhões. E Metz espera que o resultado, também.

Pouco conhecida até pelos franceses, a cidade de invernos rigorosos, anexada pela Alemanha entre 1870 e 1918, quer poder mostrar a mais gente suas belas construções às margens dos Rios Moselle e Seille, além da Catedral de Saint Étienne, gótica do século 13, e a antiga capela dos templários. O projeto de renascimento ainda está em curso. Mas, por enquanto, já se vê uma tentativa de abraçar pelo menos esteticamente o Pompidou, mesclando novidades contemporâneas com os prédios seculares.

A fonte da Esplanada ganhou duas esculturas que lembram asas coloridas e a praça principal, carneirinhos metálicos. A catedral também exibe obras modernas, como em pequenas exposições temporárias. Metz quer se tornar um grande museu a ser visitado por inteiro.

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