Toronto para além do óbvio: lugares para ver arte e comer bem

De hotel a galerias, tudo vira tendência nos bairros do oeste de Toronto. Enquanto isso, o leste ainda preserva o clima residencial, em meio a novas apostas gastronômicas

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

15 Março 2016 | 05h00

TORONTO - Toronto é uma velha conhecida, de quem tinha me habituado a lembrar como um lugar de prédios espelhados, logotipos de banco e gente de terno e salto alto, com respiros criativos em meio às construções de tijolinhos nos quarteirões dos bairros adjacentes ao centro. Mas no último outono, junto com a 10.ª edição de sua virada cultural, chamada Nuit Blanche como a de Paris que a inspira, Toronto mostrou que os focos isolados de criatividade que eu conhecia viraram polos expressivos de cultura pop, arte, comida boa, inspiração. E ganharam outros territórios.

Essa Toronto novidadeira tem focos no centro, mas se expande mesmo pelas bordas, em direção à periferia. Como ocorre em quase toda grande cidade, as cabeças cheias de ideias e com bolsos vazios fugiram dos aluguéis caros do centro. Na última década, o West End se consolidou como distrito alternativo de arte e design: um enclave de galerias tocadas por uma pessoa só, restaurantes pequenos, bares malucos, tudo acomodado em casas térreas e prédios baixos.

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Fui apresentada à região pela guia Betty Ann Jordan, que conduz passeios a pé por preços que partem de 25 dólares canadenses por pessoa. Betty Ann usa como ponto de encontro o Hotel Drake (diária desde 199 dólares canadenses), um hub informal da Toronto hipster: além dos quartos todos diferentes entre si, tem bar, balada e mostras de artes plásticas.

Adiante, o prédio de uma antiga escola pública foi transformado em um condomínio de ateliês, estúdios de design, escolas de música e teatro, oficina de pilates e ioga. Trata-se do Artscape Youngplace, que tem entrada gratuita e um café gracioso. Quando visitei o lugar, em destaque no jardim que dá para a rua estava o mural Sem Paredes Entre Nós, do ativista pelos direitos dos imigrantes Pablo Muñoz, de origem colombiana.

Em anos anteriores, imigrantes de renda modesta eram a maioria da população do West End. Também como costuma acontecer, o processo de gentrificação correu depressa no bairro, com aumento gradativo do custo de vida. No vizinho Little Portugal, há casas dessas de filme, grandes, com jardim bem cuidado e cerca baixa, à venda – entre elas, graciosas caixas de madeira convidam as pessoas a trocarem livros como parte do movimento Little Free Library.

Betty Ann conta que a especulação imobiliária é, hoje, um problema na cidade. Para ilustrar a fala, mostra reportagem de uma revista local que afirma que os preços de imóveis em Toronto estão com preços entre 40% e 70% inflacionados.

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Com isso, a expansão artística e cultural dá passos para ainda mais longe do centro. Na Dundas Street West, a fotógrafa Lisa Klapstock abriu a galeria Something to Think About, pequena e coletiva, que abrigava em outubro, duas semanas antes da votação que escolheu o novo primeiro-ministro do país – o agora pop Justin Trudeau – a mostra Vote, com trabalhos de duas dezenas de artistas. A maioria deles questionava uma certa guinada conservadora que o país deu na última década, sob o governo de Stephen Harper.

“É no Junction Triangle que a cidade está acontecendo agora”, disse Betty Ann, a caminho do bairro ainda mais afastado, que margeia a ferrovia. Ali, conhecemos a galerista Belinda Chun e sua linda Gallery House. Apenas uma das opções entre as portinhas de restaurantes, cafés e lojas que começam a criar, pouco a pouco, mais uma cena cultural em Toronto.

Turistas parecem estar gostando dessa outra faceta de uma cidade acostumada a se vender ao mundo como polo econômico globalizado, o que, sim, continua a ser sua principal definição. Em 2015, Toronto recebeu 14,03 milhões de visitantes para ao menos um pernoite – bateu seu próprio recorde pelo sexto ano consecutivo.

Caminhando, comendo e seguindo sabores

Chegamos quase meia hora antes do combinado ao ponto de encontro indicado por “chef Scott”, que lideraria o grupo em um passeio gastronômico a pé pelo bairro de Riverside. A área, a leste do centro de Toronto, é mais um polo de ocupação recente dos alternativos. Ainda não parece tão mudada em relação à sua origem industrial, o que era há apenas 20 anos, e como lar de trabalhadores de renda mais baixa, embora já tenha muitos endereços descoladinhos nas construções vitorianas. Tanto a moradora irônica diante dos turistas atrapalhando seu caminho (“desculpem, eu também gostaria de usar a calçada”) quanto a mesa e a cerveja no pub An Sibin (ansibinpub.com) deixaram aquele fim de manhã com gosto de vida real. 

Scott, o chef, chega e conta que o An Sibin está entre os pubs mais concorridos e autênticos de Toronto. Pede também a sua cerveja enquanto apresenta rapidamente sua experiência de mais de 25 anos como cozinheiro e fala um pouco do bairro. Um prédio abandonado ali na frente vai virar hotel butique. A lanchonete Dangerous Dan’s, na outra esquina, é famosa pelo sanduíche gigantesco, com quase meio quilo de carne, metade disso em bacon e três ovos fritos. No restaurante de Lynn Crawford não existe cardápio, come-se o que a chef achar por bem servir no dia. 

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Cruzamos a ferrovia para lá e para cá entre Riverside e Leslieville. O tour, criação da Culinary Adventure (desde 79 dólares) é sempre conduzido por cozinheiros profissionais. Degusta-se pão fresco na padaria St John’s, peixe defumado na peixaria Hooked, que diz vender pescados que saíram da água há um ou dois dias apenas, sorvetes artesanais na Ed’s Real Scoop, todas pequenas lojas de rua.

Ainda teve almoço: no Tabule, as berinjelas fritas pareciam recheadas com purê, de tão cremosas, e o falafel era um acontecimento, saboroso e sequinho. Entradas e pratos para duas pessoas custam em torno de 65 dólares.

Diga ‘cheese’. A versão Toronto dos mercados chiques de ingredientes gastronômicos é a Cheese Boutique. Fica longe, 10 quilômetros a oeste do centro, no subúrbio de Swansea, à beira do Lago Ontário. Por fora, parece uma lojinha comum; dentro, é um universo de itens de centenas de nacionalidades, para cozinhar depois ou comer imediatamente, em meio a uma decoração que alude à cultura pop e aos restaurantes famosos que se abastecem ali. 

Com tanto imigrantes, multinacional é também a gastronomia de Toronto.

 Veja a lista dos restaurantes que não se deve perder:

1. Luckee: o restaurante chinês do chef Susur Lee é um dos melhores de Toronto. Miniporções (dim sum) de 6 a 12 dólares; pratos até 33 dólares.

2. Warehouse: o ambiente informal, o cardápio variado e descomplicado – macarrão tailandês e hambúrguer ótimos –, as cervejas e os preços da comida, tudo a 4,95 dólares fazem do Warehouse uma enorme alegria. No número 232 da Queen Street West.

3. Joey: com cardápio e ambiente enormes e modernos, o Joey, no Eaton Centre, é um lugar onde você pode pedir steak e sushi no mesmo prato (25 dólares) sem ser julgado por isso.

4. Hy’s Steakhouse: churrascaria clássica no visual e no preparo das carnes, cortes excelentes finalizados à mesa, diante dos clientes. Em média, 55 dólares o steak.

5. Cluny Bistrô: ambiente lindamente rococó, cardápio francês, pães de comer rezando e um hambúrguer com bacon defumado e fritas (24 dólares) no delicioso Distillery District.

Rabiscos e fricotes nas ruas do centro

O principal é olhar ao redor, ensina o guia Jason Kucherawy. “Se você olha ao redor, descobre coisas incríveis.” E aponta para o alto: pendurada num poste na esquina da Spadina Avenue está uma placa amarela que poderia ser uma qualquer, de trânsito. Mas que, reparando, é intervenção artística: o desenho de uma seta faz curvas e laços, e a indicação, “meander”, significa desvio, meandro, enrosco. 

Aqui é o centro de Toronto, lugar onde a arte de rua vive uma situação dúbia. Dá vida e cor a coisas banais como paredes de becos e um tronco de árvore na Queen Street West, que ganhou o desenho de um rosto e a legenda “hug me”, me abrace. Mas pode render enrosco de fato, na forma de multa, aos grafiteiros que se atrevem e aos donos de imóveis que permitem, já que não existe autorização municipal para o grafite. 

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Fiscais e policiais fazem vista grossa para um ponto específico que começa na Spadina Avenue. O Grafitti Alley é um beco de 500 metros de extensão, até a Portland Street, com paredes inteiramente grafitadas. Os trabalhos, claro, são sempe renovados. 

Jason Kucherawy é pós-graduado em Belas Artes, já tentou ser grafiteiro (“mas vi que eu era melhor estudando o grafite do que fazendo os meus”) e atualmente comanda, em sociedade com um amigo, a Tour Guys, que promove passeios em Toronto, Vancouver e Ottawa. Arte urbana é um tema querido, mas há outros para interesses específicos, como bacon e carne de porco, história, cerveja. Preços começam em 30 dólares canadenses por pessoa e no site há opções de tours a pé gratuitos. 

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Yorkville. Mas Toronto também sabe ser muito chique. Num começo de tarde, depois de um almoço no restaurante Sassafraz – com cardápio canadense-afrancesado e clientela que, aos 30 e pouquinhos, já pode ser definida como bem-sucedida –, saímos para um tour a pé por Yorkville. 

Esse antigo bairro de hippies, onde está o Royal Ontario Museum, um dos mais importantes do país, enriqueceu nos anos de 1980. Hoje, o comércio é de lojas de grife, cerca de cem delas, que faturam entre 15 mil e 45 mil dólares canadenses por metro quadrado, segundo a Bloor-Yorkville, uma associação de empresários.

Na Bloor Street, a ostentação tem espaço para coisas como tapete vermelho na rua durante a festa de dia dos pais, alfaiataria dentro da loja masculina Harry Rosen (um terno a 15 mil dólares, em média) e um Lamborghini em exposição na multimarcas de luxo Holf Renfrew. 

Basta olhar ao redor. 

MAIS PARA VER:

1. Vida marinha: Uma das atrações mais novas de Toronto, o Ripley’s Aquarium abriga 16 mil animais e tem túnel envidraçado rodeado pelo tanque com tubarões e arraias. Ingressos desde 26,98 dólares. 

2. A torre: sempre: é um clássico e não perde a graça: a CN Tower (32 dólares) tem mirante com piso de vidro a 342 metros de altura e, se tiver coragem, você pode caminhar do lado de fora da torre, atado a cabos, por 195 dólares.

3. Cidade subterrânea: The Path é a maior rede de vias subterrâneas para pedestres, segundo o Guinness Book. Tem 30 quilômetros com lojas, restaurantes e até acesso ao metrô. Não é fácil andar nela: imprima um mapa em torontopath.com

4. Sim, tem shopping: um quarteirão inteiro, enorme, com vários andares e todas as lojas internacionais que você quer. É isso o megashopping Eaton Centre

5. Antiga destilaria: nos prédios de uma antiga destilaria, o Distillery District tem restaurantes, compras, cultura e charme.

SAIBA MAIS

Aéreo: na Air Canada, direto SP-Toronto-SP, US$ 850; na TAM, R$ 2,7 mil, com conexão.

Visto: nem todo brasileiro precisa. Veja em oesta.do/vistodocanada.

Moeda: 1 dólar canadense vale R$ 2,76.

Site: seetorontonow.com.

*A repórter viajou a convite do Turismo de Toronto.

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