Tour nostálgico a bordo do bondinho

No posto de informações de Zurique, uma profusão de folhetos sugere city tours, excursões e passeios culturais. Nem todos estão em inglês, mas no guichê você pode até ser atendido em português. Foi o que aconteceu comigo quando perguntei em voz baixa, para mim mesma, quanto tempo durava o tour no classic trolley: "Duas horas", disse a atendente. O passeio, feito em um nostálgico bonde vermelho, percorre os pontos turísticos mais famosos da cidade, com duas paradas para fotos e roteiro narrado em oito línguas, incluindo o português (num sotaque pois, pois). Sai por 33 francos suíços (R$ 65).

ZURIQUE, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2011 | 03h06

É uma opção charmosa, mas você também pode percorrer o centro velho a pé com um guia a tiracolo, fazer um percurso mais prolongado de ônibus, incluir um trecho de barco pelo Lago de Zurique ou experimentar o segway. Aliás, não é qualquer desavisado que pode se projetar para frente e para trás nesse carrinho bípede. É preciso ter mais de 18 anos, carteira de motorista e um minicurso de 20 minutos oferecido pela empresa - duas horas custam 100 francos suíços (R$ 196).

Fiquei com o trolley, mesmo porque fazia quase 40 graus. A sombra ocasional seria bem-vinda e imaginei que as janelas de correr dariam conta do recado. Não exatamente. Um ar-condicionado teria sido alpinamente mais refrescante. Na companhia de indianos, chineses, peruanos e americanos, passei pelo cultuado setor financeiro da cidade, pela opulenta Bahnhosfstrasse, pela sintética biblioteca central (Zentralbibliothek, que ocasionalmente oferece concertos) e por galerias e museus.

Vai ser difícil não perceber a Igreja de São Pedro e seu relógio de 8,7 metros de altura, o maior do continente. A Grossmünster é aquela de cujo púlpito o pastor Ulrich Zwingli galvanizou a região e incutiu no povo a tentação das tentações: influência global e riqueza sem culpa. Já a Igreja de Fraumünster tem um tesouro artístico, os vitrais de Chagall, que exige uma parada mais demorada. Presente de Luís, o Germano, para as mulheres nobres de Zurique, os vitrais datados de 1970 retratam a Lei, Jacó, O Cristo, Os Profetas e Sião. São como guache em vidro, de uma beleza diáfana, que vão impelir seu bolso a comprar um cartão postal - mesmo porque fotos são proibidas.

O trolley passa ainda por áreas residenciais, nas quais descobre que apenas 30% da população do cantão de Zurique (o país é dividido em cantões) mora na própria. A maioria prefere os arredores, onde o imposto é mais barato e a natureza generosa, plena de framboesas e cerejas no pé. Já pelas bandas de Niederdorf, no lado leste da cidade, o motorneiro aponta o Odeon: centenário café-restaurante que foi frequentado por Mata Hari, James Joyce, Mussolini e Einstein, e onde Lenin e Trotsky planejaram a Revolução Russa. Famosa esquina gay ao cair da noite, traz a aura da intelectualidade regada a absinto.

Antes do retorno ao ponto de partida, pausa para fotos. O trolley para perto do límpido Rio Limmat, às margens do qual um civilizado conglomerado de banhistas aproveita a vitamina D até a última gota de suor. / MÔNICA MANIR

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