Mônica Nóbrega/Estadão
Mônica Nóbrega/Estadão

Tradição do vinho de talha vive momento de resgate

Ânforas de barro, de 200 a 300 anos, são chamadas de talhas e servem para fazer o vinho, de talha

Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

09 Maio 2017 | 04h30

VIDIGUEIRA - Em um salão envidraçado inundado de luz natural estão seis ânforas de barro, bojudas e com mais de 2 metros de altura. Cada um desses recipientes acumula de 200 a 300 anos de existência desde sua confecção, ninguém sabe ao certo. São chamados de talhas e servem para fazer vinho: o vinho de talha, que é o vinho alentejano de raiz. 

A Herdade do Rocim, adega inaugurada em 2007 perto da cidade de Vidigueira e que produz entre 400 mil e 450 mil litros de vinho por ano, é uma das vinícolas alentejanas que estão promovendo uma resgate do vinho de talha como produto com apelo comercial. Tanto que produtores promovem uma verdadeira caça às ânforas, porque não há fabricação significativa atual. Os vasos que existem estão espalhados por propriedades rurais, e são centenários. 

A enóloga Vânia Guibarra explica que, neste processo ancestral de vinificação, a interferência do enólogo é quase nula. As uvas maceradas são colocadas na ânfora para fermentar, e a ação humana limita-se a mexer o conteúdo diariamente para facilitar a oxigenação. O Dia de São Martinho, 11 de novembro, é a data oficial para abertura das talhas, segundo a tradição. Coloca-se uma torneira no orifício na base da ânfora e o vinho é extraído por ali, já filtrado pelo bagaço da uva que se depositou no fundo. Está pronto para beber. 

Na degustação que a enóloga conduz no restaurante da adega, o vinho de talha Amphora 2015, feito com as castas antão vaz, rabo de ovelha, perrum e manteúdo, tem um sabor vegetal fresco. É um vinho que pede sal; os enchidos e queijos no centro da mesa começam a desaparecer. 

Vânia Guibarra é boa professora de vinhos do Alentejo. Explica que antão vaz é uva nativa, querida por enólogos, rende vinhos perfumados e bem estruturados. O Olho de Mocho Reserva Branco 2014 é feito apenas com essa casta; com ele vem a entrada, feijão temperado com cardo.

A bochecha de porco preto servida como prato principal está de cortar com a colher. Vem com migas de azeitona – migas são uma receita alentejana, um tipo de purê de pão umedecido – e, no copo, o tinto Rocim Alicante Bouschet 2015. A casta alicante bouschet é outra que está na essência vitivinícola do Alentejo. 

A Herdade do Rocim recebe para visitas guiadas de segunda-feira a sábado. Custa de 5 euros a 50 euros por pessoa. Reserve. 

 

Arte contemporânea. A Quinta do Quetzal quer colocar o Alentejo no circuito de arte contemporânea. Desde setembro de 2016, abriga no prédio industrial e turístico um espaço de exposições. Atualmente, está em cartaz parte da coleção privada da família de proprietários, os holandeses De Bruin-Heijn, donos de uma das maiores coleções privadas de arte contemporânea do planeta. 

Os vinhos somam 200 mil garrafas por ano: o Guadalupe, que não passa por barris de carvalho, e o Quetzal, que tem madeira. A degustação é feita no restaurante, diante da colina-símbolo da marca, com linhas bem definidas de vinhas. Paisagem perfeita, como tudo o mais ali. 

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