Tradição medieval na acolhedora Coimbra

Visitar uma cidade universitária pode trazer algumas lembranças: moradia coletiva, madrugadas de estudo noite adentro, festas até dizer chega e passeios pelo câmpus fantasiado de vampiro.

SETH KUGEL / COIMBRA , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2012 | 03h09

A vestimenta de Conde Drácula pode parecer menos familiar se você não estudou na Universidade de Coimbra, fundada em 1290 (uma das mais velhas universidades em operação contínua do mundo) e, ainda hoje, uma das mais prestigiadas. Ao longo dos séculos, uma série de costumes e tradições foram criadas, entre elas o uso do uniforme oficial da instituição - uma capa preta que dá aos estudantes a tal aparência vampiresca.

Essa foi uma das coisas que mais me chamaram a atenção nos três dias em que estive em Coimbra. A cidade, no centro de Portugal, é um lugar fácil de chegar e barato de ficar. Gastei 12 (R$ 27) no ônibus (1h30 desde Porto; a viagem desde Lisboa é mais longa e cara) e mais 30 (R$ 69) por noite no Flor de Coimbra Guesthouse, em um prédio de 200 anos que vai agradar àqueles que gostam de telefones de disco, pisos rangentes e uma amistosa família de proprietários. E também que tolerem iluminação fraca, colchões irregulares e acessórios de banheiro excêntricos.

Altos e baixos. O Flor de Coimbra, como a maior parte das hospedagens da cidade, fica na Baixa, bairro do centro ao pé de uma exaustiva mas andável colina até a Alta, onde fica o câmpus. Para os que não gostam ou não podem caminhar, um elevador conecta as duas partes por 2,20 (R$ 5), preço de um bilhete de ônibus. Ambas as áreas são agraciadas com ruazinhas estreitas e sinuosas, apesar de o bairro da Alta ser majoritariamente tomado pelos prédios da universidade e pelas grafitadas repúblicas, de estudantes do mundo todo.

Já a Baixa é forrada de lojas, restaurantes e outros tipos de comércio. Igrejas antigas, praças pitorescas e a quase total ausência de lojas de grandes cadeias dão aos dois bairros a sensação de estar nos anos 1950 - ou 1590.

A peça central da área do câmpus é o Paço das Escolas, um antigo palácio real português - Coimbra foi a capital do país nos séculos 12 e 13 - que há muito deu lugar ao espaço universitário. Para visitar algumas das áreas do prédio é necessário um tíquete de 7 (R$ 16), pelo menos na teoria, já que não há ninguém pedindo o bilhete. Só perdi a biblioteca, aparentemente incrível. Como era Natal, assisti a um belo e gratuito concerto do coral dos alunos.

As melodias natalinas eram adoráveis, mas a verdadeira música de Coimbra é o fado, o melancólico ritmo cuja versão local é bem diferente da tocada em Lisboa. Em Coimbra, os cantores são tradicionalmente homens, se apresentam em duos e usam um violão ligeiramente diferente.

Ouvi dizer que o festival da Queima das Fitas é a melhor oportunidade para conhecer o fado. Mas o Café Santa Cruz, localizado desde 1923 debaixo das abóbadas de um antigo monastério do século 16, na Baixa, oferece boas performances o ano todo. Os cantores eram dois senhores, cujas vozes ecoavam pelos cantos e tetos do café.

Comer, comer. A população de estudantes pode ser internacional, mas a maioria dos restaurantes é puramente portuguesa. Caminhando pela Rua das Azeiteiras, decidi sentar no A Cozinha, que oferece, a 6 (R$ 13), um prato chamado "secretos do porco preto com ananás". A saber: secretos são um corte de carne. Apesar de promissor, estava em falta - eu tive de me contentar com um insosso filé de peixe.

Mais tarde, comi muito bem no Democratica, concorrido polo estudantil onde provei chanfana (cabrito cozido com vinho; 7,50 ou R$ 17). Mas foi na Pastelaria Arco-Íris que fiz minha melhor refeição: suco de laranja, pão, canja, um expresso e, de sobremesa, filhoses de abóbora (frita e embebida em açúcar). Conta: 8 (R$ 18).

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