Caltrans/AP
Caltrans/AP

Trecho da Highway 1 reabre depois de um ano - é hora de se planejar

Clássico roteiro de carro na Califórnia, entre São Francisco e Los Angeles, inclui paisagens espetaculares e ficou prejudicado no último ano por causa de obras de emergência

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

18 Julho 2018 | 18h55

Finalmente: depois de mais de um ano de interdição para obras de reparação, o último trecho da Highway 1, estrada cênica no litoral da Califórnia, acaba de ser reaberto. Isso significa que aquela clássica viagem de carro entre São Francisco e Los Angeles, com direito a muitas pausas para fotos em mirantes e paradas para dormir nas cidadezinhas do caminho, pode ser feita novamente em sua plenitude.

O último trecho que faltava fica na região de Mud Creek, ao sul de Big Sur, a cerca de 300 quilômetros de São Francisco. No ano passado, fortes chuvas causaram deslizamentos e destruíram vários trechos da estrada, impedindo o tráfego direto e causando impacto expressivo em estabelecimentos turísticos dispostos ao longo da via.

Esta é a melhor época do ano para encarar a aventura – como é verão por lá, dá para curtir as praias do caminho com o clima favorável.

O Viagem percorreu, de carro e trem, os 800 quilômetros entre São Francisco e Los Angeles há três anos – uma viagem inesquecível. Se você quiser aproveitar para fazer esse roteiro, confira as dicas abaixo:

1- Prefira ir de São Francisco a Los Angeles, e não o sentido oposto, para estar no mesmo lado da estrada dos mirantes.

2 - Não tenha pressa. Uma semana é o mínimo para fazer essa viagem como ela merece, parando nos mirantes e curtindo as cidades do caminho. Para aproveitar também Los Angeles e São Francisco, reserve no mínimo 10 dias.

3- Dispense o carro na chegada a São Francisco. Você estará cansado da viagem, o balcão das locadoras tem filas enormes com turistas que também vão desbravar a costa californiana e, acredite: ele não será necessário na cidade. Use metrô, táxi, ônibus, Uber e, claro, os tradicionais bondinhos para desbravar a cidade. Deixe para alugar o carro no dia em que você for de fato cair na estrada (reserve com antecedência para conseguir melhores tarifas).

4- Não adianta sair cedo demais de São Francisco: os nevoeiros pela manhã são comuns, e você perderá muito da paisagem. O ideal é cair na estrada entre 9 e 10 horas da manhã.

5 - É possível pegar a icônica Highway 1 a partir de São Francisco, mas há quem diga que esse primeiro trecho não tem lá grandes atrativos. A maior parte dos turistas segue pela 101 até a saída para Monterey, a cerca de 2 horas de distância. É ali que a aventura realmente começa.

 

Principais trechos do roteiro de carro:

1- De São Francisco a Carmel

Monterey é primeira parada saindo de São Francisco. Seu principal ponto turístico é Cannery Row, distrito onde ficavam as fábricas de sardinha em lata no fim do século 19.

O nome do local veio em 1958, em homenagem ao livro homônimo de John Steinbeck. “Um poema, um fedor, um rangido, um tipo de luz, um tom, um hábito, uma nostalgia, um sonho”, escreveu ele sobre essa parte da cidade, muito antes de ela entrar na rota dos viajantes.

A atmosfera industrial permanece, mas ganhou cor e charme, restaurantes e cafés, lojas e jardins. Em uma das antigas fábricas está o indispensável Aquário de Monterey, com mais de 35 mil animais e plantas de 550 espécies. Fique atento aos horários de alimentação dos animais – você receberá a lista logo na entrada.

No nosso caso, almoçamos na cidade, curtimos o aquário de seguimos viagem até Carmel-By-The-Sea pela 17 Mile Drive. Mesmo com o GPS, nos perdemos um pouquinho, o que proporcionou surpresas como uma casa colorida, enfeitada de borboletas – P.G. Butterfly House. Numa viagem de carro como essa, se perder um pouco faz parte – e até dá certa graça ao passeio.

Já no caminho certo, cruzamos os portões de Pebble Beach, um condomínio por onde passa a estrada cênica. O trajeto é repleto de mansões, campos de golfe e paisagens que fazem você querer parar para fotografar a cada minuto, especialmente se o dia estiver ensolarado. Na entrada, paga-se a taxa de US$ 10,25 por carro e ganha-se um mapa, que lista as principais paradas.

É claro que o mapa não aponta algumas deliciosas particularidades, como os esquilos que povoam as praias e posam para os cliques ao lado das gaivotas, ambos interessados nos lanches dos turistas. Ou a família de cervos que cruzava um dos campos de golfe e permaneceu nos observando, imóvel, até que alguém tentasse uma aproximação maior.

Mas marca o impressionante Cipreste Solitário, uma árvore à beira de um precipício que resiste aos fortes ventos daquela região há 250 anos.

Chegamos a Carmel no fim da tarde. A cidade é pequeníssima, com lojas charmosas (e caras), que fecham às 17h e só reabrem às 10h da manhã. Aproveite para assistir ao pôr do sol na praia, alguns metros abaixo e, depois, escolha um dos restaurantes para uma deliciosa refeição.

Fomos ao Basil Carmel, que trabalha com ingredientes sazonais (quer algo mais californiano que isso?) e serve um polvo fantástico. Mas é preciso fazer reserva.

2- De Carmel a San Luis Obispo

Antes de cair na estrada e curtir o trecho mais impactante pelas escarpas de Big Sur, resolvemos visitar a Missão de Carmel. Foi uma decisão acertada: a missão de San Carlos Borromeo de Carmelo, uma das mais bem preservadas da Califórnia. Construída em 1771, guarda uma área de belos jardins e um museu com artefatos sacros e históricos. Ainda há missas na capela.

Esse é o dia de fotografar as pontes erguidas sobre impressionantes precipícios, como as clássicas Rocky Creek e a Bixby Bridge. A vista é linda com ou sem céu azul.

Paramos para comer no River Inn (que está radiante com a reabertura da Highway e a volta da clientela), em Big Sur. O local tem clima de casa de campo, com cadeiras espalhadas sobre o riacho, caminhão de sorvetes e restaurante intimista. É restaurante e também hospedagem, para quem quiser se demorar por lá.

A partir daí, a paisagem muda pouco. A parada seguinte foi em San Simeon, na praia de Piedras Blancas, conhecida por abrigar uma colônia com cerca de 17 mil elefantes-marinhos. Eles se espalham preguiçosamente na areia e, vez ou outra, decidem ir à água. É aí que se estranham, reclamam e voltam a cochilar.

Foi justamente esse trecho, entre Big Sur e San Simeon, que acaba de ser reaberto.

A praia de San Simeon não está longe da saída para o Hearst Castle, mansão com vista para San Simeon planejada pelo ricaço William Hearst para abrigar sua coleção de arte. Concluída em 1947, a construção, em uma área de 127 acres, é hoje um museu. É preciso tempo para ver tudo como se deve.

A parada seguinte era em San Luis Obispo, uma cidadezinha simpática e refinada, por onde circulam 20 mil estudantes da Universidade Politécnica da Califórnia – ou, mais precisamente, metade da população local.

A cidade tem lá suas regrinhas (especialmente quando se trata de fumantes) e o grande ícone rebelde do local é o Bubblegum Alley, o Beco do Chiclete.

Ninguém sabe como começou a tradição de grudar chicletes naquelas paredes. Acredita-se que tudo começou na década de 1950, em uma disputa entre estudantes – hoje, há milhares de gomas de mascar coloridas enfeitando o local. Graças também aos estudantes, há uma ampla oferta de bares na cidade, que costumam fazer convidativas promoções às terças-feiras.

Nós deixamos nosso carro ali e seguimos de trem até Santa Barbara. Mas você, se preferir, pode continuar pela estrada.

3- De San Luis Obispo a Santa Barbara

Foi preciso madrugar para embarcar no trem de San Luis Obispo rumo a Santa Barbara. O Pacific Surfliner da Amtrak partia às 6h55 – seriam 2h30 confortáveis, com Wi-Fi grátis e chance de cochilar enquanto a composição passa por campos de cultivo e povoados até, finalmente, margear o Pacífico. Para a melhor vista, sente-se ao lado direito.

Deixar o carro para desbravar Santa Barbara pode ser uma boa ideia, principalmente para provar os famosos vinhos produzidos na região sem ter de dirigir depois. Boa parte dos vinhedos fica no Vale de Santa Inês, logo ao lado, de onde vem a maior parte dos rótulos locais.

Mas mesmo dentro da cidade há boas opções. A Urban Wine Trail marca as casas que oferecem degustação de vinhos produzidos no condado de Santa Barbara e imediações. A maior parte fica no Art District, área de antigos galpões próximos à linha do trem. É ali que os moradores fazem seu happy hour, entre bares com mesinhas ao ar livre. Cada casa tem o próprio sistema – algumas vendem apenas marcas próprias.

Se não ficar próximo aos vinhedos, um bom lugar para se hospedar é nas imediações da State Street, onde está o burburinho de lojas, brechós divertidos, ótimos restaurantes e bons hotéis.

4- De Santa Barbara a Santa Monica

De Santa Barbara, é possível seguir direto a Los Angeles pela 101 (se tiver compromisso, lembre-se que o trânsito é pesado nas proximidades de L.A.) ou continuar pela Highway 1, passando por Malibu, Santa Monica e San Diego.

Minha viagem terminou em Santa Monica, cidade vizinha a Los Angeles (e a 20 minutos de seu aeroporto). Santa Monica esbanja charme - e cobra caro por isso -, por isso muita gente que a visita vem no fim de semana, apenas para passar o dia.

O Pacific Park é seu principal cartão-postal. A roda-gigante sobre o píer é um cenário clássico de diversos filmes (pode apostar, se tem um píer com roda-gigante, foi filmado ali). O brinquedo é movido por energia solar. Me diga se isso não é supercaliforniano?

Aproveite a ciclovia que corre à beira-mar para pedalar até a vizinha Venice. No caminho, é comum ver atletas fazendo manobras incríveis em argolas e barras na areia. Se preferir companhia, o Santa Monica Bike Center oferece algumas opções de roteiros que vão além do arroz-e-feijão turístico.

Aliás, falando em arroz e feijão, comer bem na Califórnia (e de maneira saudável) faz parte da rotina. Para entrar no clima, visite as feiras – os Farmer’s Markets. O mais famoso de Santa Monica é realizado às quartas e sábados, próximo à 4th Street, e tem frutas, flores e ingredientes frescos.

O meu favorito, contudo, ocorre aos domingos na Main Street, próximo à Heritage Square. Embora menor, tem ares de piquenique comunitário, com famílias esparramadas nos gramados, música ao vivo e comidas orgânicas, como falafel, omeletes, waffles. Para beber, nada de refrigerante: vá de limonada com morangos. Termina às 13h. Aproveite para caminhar por esse trecho da Main, cheio de butiques descoladas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.