Bruna Toni/Estadão
Igreja Matriz de Santo Antônio, na Rua Pedro de Toledo, em Tiradentes Bruna Toni/Estadão

Igreja Matriz de Santo Antônio, na Rua Pedro de Toledo, em Tiradentes

Bruna Toni/Estadão

Três dias em Tiradentes: o que fazer na cidade histórica

Preparamos um roteiro que cabe perfeitamente em um feriado prolongado com atrações sacras, históricas, gastronômicas e até na natureza

Bruna Toni , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Igreja Matriz de Santo Antônio, na Rua Pedro de Toledo, em Tiradentes

Bruna Toni/Estadão

Gastei bons minutos observando o desenho da cidade de Tiradentes feito por Tarsila do Amaral na década de 1920, e também a pintura da Vila de São José, primeiro nome dado ao lugar, do alemão Johann Moritz Rugendas, do século 19. Levei ainda algum tempo na comparação entre as duas obras artísticas e as fotos que eu mesma fiz do destino. E a conclusão foi surpreendente: apesar do crescimento esperado de um lugar com mais de 300 anos de história, há muitas permanências. Da Serra de São José às igrejas coloniais. 

“Foi bom que Tiradentes, mesmo depois de tombada em 1938, ficou no esquecimento por um tempo”, disse Rogério Almeida, diretor do Instituto Histórico e Geográfico da cidade. Ele é um dos tiradentinos que nasceram no centro histórico, mas que hoje se mudaram da região. A redescoberta da cidade pelo turismo, na década de 1980, trouxe especulação imobiliária e aumento de preços. 

Por outro lado, é justamente o potencial turístico de hoje a principal diferença que a cidade guarda em relação à vila do passado, marcada pela exploração de ouro e diamantes. No circuito de cidades históricas de Minas Gerais (mas fora da rota de risco das barragens que se romperam nos últimos tempos, por estar mais ao sul do Estado), Tiradentes encontrou um modelo para se destacar e reerguer sua economia: investiu em uma agenda de eventos anuais, assim como fez Paraty, no Rio de Janeiro, há alguns anos.

São cerca de 15 festivais, com destaque para o de cinema, em janeiro; o de fotografia, em março; o encontro de motociclistas, em junho; o de congadas, em julho; o festival gastronômico, em agosto; e o de artes, em setembro. Há ainda a Páscoa, tradicionalíssima, e projetos como o de Carol Barbosa, uma das líderes do turismo local. Ela pretende oferecer dois passeios especiais: caminhada noturna para contar causos de assombração e caminhada por pontos que reconstroem a história das pessoas negras escravizadas na cidade.

Para aproveitar melhor o lado histórico e cultural, tente fugir das datas mais movimentadas. Delimitada pelo Rio das Mortes e a Serra de São José, Tiradentes também é um dos maiores refúgios de libélulas do mundo e área de proteção ambiental. E, a cerca de 7 horas de carro de São Paulo, é um ótimo destino para um feriado. Por isso, preparamos um roteiro que cobre o básico da cidade e algo mais em três dias. 

Em pouco tempo você entende o porquê de tantos forasteiros terem decidido se mudar para Tiradentes depois de visitá-la. Percebe a delícia de virar íntimo de alguém com apenas um dedinho de prosa. Cuidado apenas com a armadilha do cafezinho: café de mineiro, você sabe, é um banquete. 

Mas quer saber? Em Tiradentes vale a pena quebrar a dieta, ter muita memória na câmera fotográfica e liberar a imaginação para viajar aos tempos em que a cidade badalada de agora era a pacata vila de Rugendas e Tarsila.

ANTES DE IR

Como chegar

São 481 km a partir de São Paulo pela Rodovia Fernão Dias até Lavras. Depois, mais 115 km até Tiradentes. Partindo de BH, são 192 km pela BR-040. De ônibus, a Util leva até São João del Rey, distante 20 quilômetros de Tiradentes (desde R$ 222 ida e volta; util.com.br). O ônibus de linha sai a cada meia hora, há táxi e o Move SJ, o aplicativo local. 

Passeios

Agências oferecem city tours e roteiros de natureza. Fiz os passeios com a Estrada Real Turismo. Há também a UaiSô e a UaiTrip

Onde ficamos

Depois de dois dias hospedada na Pousada Richard Rothe, a proprietária, Elisângela D’Ângelo, me deu a chave da porta principal do casarão na Rua Padre Toledo. É assim que, desde 1994, a terceira pousada mais antiga da cidade atrai e fideliza gerações de hóspedes, deixando todos à vontade.  A localização, ao lado da Igreja Matriz, é tão privilegiada quanto seu amplo espaço, que já foi casa e antiquário de um alemão que, ao morrer, deixou o casarão para seu sócio, Luís Antônio da Silva, marido de Elisângela. Quando Luís criou a pousada, deu a ela o nome do ex-parceiro. São 12 apartamentos de tamanhos variados, mas sempre espaçosos e com decoração colonial como a das áreas comuns, repletas de arte sacra e barroca. O café da manhã é simples e gostoso; há piscina e um Wi-Fi instável. Diária desde R$ 450 o casal, com café.

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Dia 1: city tour pelo centro, pôr do sol e cozinha mineira

O primeiro dia é para percorrer as igrejas repletas de tesouros sacros, conhecer museus e repor as energias com pratos típicos

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2019 | 04h25

City Tour: Arquitetura e igrejas

 

Uma das oito igrejas tombadas pelo Iphan na cidade, a Santíssima Trindade é uma graciosa construção da primeira metade do século 18, de estilo barroco-rococó. Acaba de ser restaurada, motivo da vivacidade do azul e do branco que colorem sua fachada. Não fica aberta em tempo integral. 

Foi em frente a ela que encontramos o guia Vicente Silva. Concretizadas as apresentações, ele desatou a falar sobre os elementos maçônicos da igreja, o conflito bem x mal do barroco e sobre a arquitetura colonial que nos cercava.

Assim descemos a Rua Santíssima Trindade, uma das mais bonitas da cidade. O contínuo de suas casas setecentistas coloridas é cenário de novela. “Quando o pessoal vem gravar aqui, proíbem a passagem de turistas”, diz Vicente, mostrando no caminho as antigas aldravas nas casas mais ricas, as particularidades de cada janela e a diferença de um solar (moradia) e um sobrado (moradia e comércio).

Igreja Matriz de Santo Antônio

Era informação atrás de informação e, entre papos e cliques, chegamos à Igreja Matriz, a mais antiga da cidade, construída entre 1710 e o início do século 19 – quando Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, foi chamado para refazer a fachada em rococó. Lá dentro, o que reluz são 482 quilos de folhas de ouro. Há santos, quadros barrocos, colunas jônicas e um altar com influências gregas e orientais. 

Desvie o olhar para o teto de madeira com forro pintado e note o órgão na parte superior, trazido de Portugal em 1798. Sentados ali, ouvimos histórias sobre os santos usados para esconder pedras preciosas nos tempos da mineração (os “santos do pau oco”).

Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos

Nosso roteiro terminou na Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, erguida e frequentada pelos negros escravizados no século 18. Com um sombreado e agradável pátio à sua frente, a construção está na parte mais central da cidade. Seu interior, entre pedras, madeira, santos e pinturas, também recebeu folhagem de ouro, algo incomum nas igrejas dos escravos.

Conta Vicente que, desejosos de ter um altar tão belo quanto o da Matriz, devotos traziam, escondidas, pepitas de ouro das minas que eram obrigados a explorar. Como nenhum homem branco entrava no local (e o padre nunca revelou o segredo), o altar – que está em restauração – pôde ser ornado.

 

História e Arte: Museus imperdíveis

O personagem que dá nome à cidade e que se tornou mártir pelas mãos do movimento republicano no século 19 tem, claro, um lugar garantido em sua homenagem. A estátua de bronze de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, está na Rua Padre Toledo. 

Esqueça a imagem de túnica branca e cabelos compridos. O retrato sacralizado do alferes (e dentista informal) foi uma das maneiras de os republicanos o transformarem em herói. Na cidade, o monumento mostra um homem de trajes militares e chapéu.

A estátua está ao lado da casa onde morou Padre Toledo. Tombado pelo Patrimônio Histórico, o solar do século 18 é uma das construções tiradentinas que mais preservam características arquitetônicas coloniais. Dentro dela, note os forros pintados nos nove cômodos, algo incomum em residências particulares da época. Abre de terça a domingo, ingressos a R$ 10. 

 

Coleção do pintor

Na Praça das Mercês, uma placa de azulejos pequenina num casarão anuncia a chegada ao Instituto Mário Mendonça. Trata-se de uma casa particular, com um jardim interno que faria inveja até a Padre Toledo. Seu dono é o pintor carioca Mário Mendonça, mais um entre tantos que se encantou com a cidade e quis estreitar laços.

Ele não mora ali, mas deixou em exposição permanente as telas que produziu e as obras de arte que adquiriu ao longo da vida – cerca de 1.400 peças de Dalí, Degas, Picasso e outros. Entre as obras de Mário, há retratos de amigos e de figuras conhecidas de Tiradentes. Os temas sacros, contudo, são os que mais aparecem em suas produções. Grátis (com hora marcada).

 

Fim do Dia: Pôr do sol e teatro

Pôr do sol

 

O atendente da papelaria foi incisivo. “Tem de assistir ao pôr do sol no morro de São Francisco, é lindo. É o fundo de tela do meu computador”. Fiz questão de ir. O que eu ainda não sabia é que já conhecia o morro da telinha: ele apareceu, em 1998, em uma cena da minissérie Hilda Furacão – aquela em que a personagem de Ana Paula Arósio dá um beijo apaixonado (e vai um pouco além disso) no jovem padre Malthus, vivido por Rodrigo Santoro. Dá para assistir online.

A subida é pequena e asfaltada. Depois do pôr do sol, tome um café na Doce Diferença ou na Casa do Sino, que tem no cardápio o gourmet e bem avaliado café da semente defecada pelo jacu (R$ 15 a xícara).  

Marionetes

Na Casa de Boneco, há 29 anos na Rua Direita, todos se divertem com os personagens do “construtor do imaginário” Bernardo Rohrmann, o Nado, mestre que dá vida a marionetes de madeira, canos de PVC e retalhos. A primeira gargalhada veio com o boneco fotógrafo clicando a plateia, um a um; depois chegaram marionetes dançantes, apaixonadas, briguentas… No carnaval, alguns dos bonecos desfilam na rua. Segundo Nado, trata-se do menor bloco do mundo – no tamanho de seus integrantes e no trecho percorrido. Ingressos de R$ 20 a R$ 30.

Onde comer: Mineirices à mesa

Raiz Mineira

 

Ter começado o farto roteiro gastronômico por aqui foi certeiro. O negócio é a culinária regional, com torresmo na caneca (R$ 15) e feijão tropeiro (R$ 78 para dois). Mas pode incluir risoto de abobrinha, gorgonzola e filé (R$ 94 para dois) ou tilápia grelhada (R$ 49, individual). Para fechar, doce de leite quente na panela (R$ 18) ou petit gateau de pão de mel com doce de leite (R$ 21). Tudo preparado pelo casal Ezequiel Souza, ex-chef do badalado restaurante Tragaluz, e Ana Carolina Barbosa, uma das líderes do turismo de Tiradentes. Juntos, decidiram há três anos investir num espaço que, apesar de pequeno, acolhesse moradores e turistas com preços acessíveis. 

Pacco e Bacco

Romântico, investe na cozinha contemporânea – experimentei um risoto com camarão grelhado, farofa de castanha do Pará e risoto de ora-pro-nóbis e alho poró (R$ 89, individual). A carta de vinhos inclui opções veganas e mineiras – segundo o dono e sommelier Francisco Rodriguez, o Pacco, a produção é realizada em Cordislândia, usando a técnica da dupla poda. 

Luth Bistrô

Uma opção romântica-descontraída, tem à frente da cozinha Luiz Cesar Costa, o Luth, dono do local. Seu cardápio, à la carte, inclui sugestões de harmonização com cervejas da marca TremBier, cujo festival anual ocorre, este ano, de 1º a 5 de maio. Telefone: (32) 99966-2819.

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Dia 2: pelas trilhas e cachoeiras da Estrada Real

Reserve um dia da estada em Tiradentes para conhecer a natureza do entorno e os caminhos históricos usados para levar ouro e diamantes das Minas Gerais ao portos do Rio de Janeiro

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2019 | 04h25

Natureza: Trilhas e cachoeiras

 

Cássio Barbosa, guia da aventura aos pés da Serra de São José, sugeriu que seguíssemos pela Caminho das Cachoeiras, nome que vem bem a calhar: foram quatro em um trajeto de 2 horas. 

A trilha, entre Tiradentes e São João Del Rey, é uma das que saem do marco zero da Estrada Real. Por ela, ou melhor, pelos caminhos que compõem a Estrada, ouro e diamantes das Minas Gerais foram transportados até os portos do Rio de Janeiro nos séculos 17 e 18. Segundo o Instituto Estrada Real, trata-se da maior rota turística do País. 

A Cachoeira do Bom Despacho nos recepcionou logo na saída – mais contemplativa do que para banho. Para chegar até a Cachoeira do Bem-Estar, essa sim ótima para mergulhar, é preciso certo esforço: levemente íngreme, o paredão de pedras exige força nas pernas e equilíbrio. Apesar da suadeira, não é uma subida muito longa e, depois dela, o resto do percurso fica mais plano.

Já na primeira parada, a vista forma um quadro de morros tomados pelo verde da vegetação baixa e pedras talhadas pela água. A paisagem se transforma: o que era íngreme, se torna plano; a terra vermelha cede espaço para a areia branca; os campos mais abertos de repente se fecham com os galhos da Mata Atlântica. 

Antes de partir, mais um banho nas águas geladas e cristalinas da piscina natural do Mangue. Os passeios são oferecidos por agências como a Estrada Real; de R$ 75 a R$ 120. 

​Bichinho: Bebericar ou brincar

“Há seis anos não tinha nada aqui”, diz o alambiqueiro Sérgio de Souza, nosso anfitrião na Cachaçaria Mazuma, cravada no distrito de Bichinho. De maio a outubro, época da safra, é possível acompanhar todo o processo com as máquinas e os homens trabalhando a todo vapor. Mas o ano todo o visitante é levado a conhecer o passo a passo da cana doce se transformando na bebida que desce queimando. 

Todo processo é sustentável e não produz lixo. Cada safra rende entre 16 mil e 20 mil litros de cachaça, que ganha sabor pela madeira dos barris (bálsamo, carvalho americano e jequitibá), onde repousa por pelo menos 10 meses. Quem faz o tour (gratuito) tem direito à degustação – as garrafas custam de R$ 55 a R$ 140. Inclua no seu roteiro de alambiques o Tabarôa e o Velho Ferreira.

Com crianças

 

No caminho da cachaçaria, uma casa engraçada e torta chama a atenção. A colorida fachada da Casa Torta já indica que ali a liberdade e a criatividade são bem-vindas. Construído pelo casal de artistas cariocas Renato e Lu, o espaço cultural e lúdico tem jogos de tabuleiro, pebolim, cama elástica... O ingresso para 1 hora custa R$ 15.

Onde comer: Da fazenda e de fora 

Pau de Angu

Restaurante-fazenda ideal para repor energias depois da trilha. Fica no distrito de Bichinho e tem cardápio essencialmente mineiro – apesar de a chef Leonidia Bezzerra ser capixaba. As verduras e legumes vêm da horta local. Provamos pastéis de angu (R$ 24) e costelinha (R$ 148, para quatro pessoas). De sobremesa, doce de coco, o melhor que já comi. Só aceita dinheiro. Telefone: (32) 99948-1692.

Atrás da Matriz

De volta ao centro, é boa ideia sobretudo para o jantar. Seus principais pratos são distintos: bacalhau e pizza. “Bacalhau é ame ou odeie. E pizza ainda não tinha na cidade”, nos explicou o casal Arlete Santos e Gustavo Dias. Pedimos torresmo de bacalhau 

(R$ 14), bem sequinho, bacalhau fumeiro (R$ 98) e pizzas (partir de R$ 49), com destaque para a de gorgonzola com abobrinha. Fecha às quartas-feiras. 

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Dia 3: garantir as lembrancinhas e passear de trem

Deixe o terceiro dia para as compras - de artesanato em pedra-sabão a artigos de antiquário - e, se sobrar tempo, vá de maria-fumaça a São João Del Rey

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2019 | 04h25

Compras: artesanato e antigas preciosidades

Em Tiradentes, espaços de consumo oferecem também encontros deliciosos. 

Casa de Panela 

Funciona numa casa colonial da Rua Padre Toledo. Da janela para dentro se avistam panelas de pedra-sabão e outros tantos produtos de esteatito, entre utensílios, decoração e souvenirs. Adilson é o proprietário: ao ver meu interesse, garante que a panela de pressão não tem risco de explodir. 

O imóvel tem piso de madeira e pinturas dos cinco sentidos. É dos mais antigos da cidade, pertenceu a um compositor do começo do século 20, Custódio Gomes. Está na fila da restauração.

RM Cerâmica Artística

No bairro do Cascalho está a casa, estúdio e loja do casal Rose Valverde, artista plástica e professora, e Maurílio Souza, físico e professor aposentado. Fazem cerâmica desde 2013. Dá para conhecer o espaço e as técnicas sustentáveis. O ateliê tem belos conjuntos esmaltados, canecas, moringas, jogos de servir (de R$ 20 a R$ 1.000). 

Marcas Mineiras 

No Largo das Mercês, o casarão com enorme jardim interno funciona como galeria que vende apenas itens de artistas mineiros. Há cristais Cá D’Oro, de Poços de Caldas; tapeçarias de Marie Camille, de Belo Horizonte; bordados com técnicas tradicionais de Barbacena, por Graziela Guimarães, dona do espaço ao lado do marido, Cléber. Na cafeteria do jardim é servido café com borda de doce de leite e bolos de laranja e de abobrinha, excepcionais. Gastei um tempão na loja.

 

Antiquário

No alto de um morro no distrito de Bichinho, a família de Thomaz Franchi construiu um casarão típico do século 19, utilizando materiais de outro casarão demolido. Portas, janelas, piso e parte da estrutura, portanto, podem ser considerados originais importados. A construção durou 10 anos. Paulista de São Bernardo do Campo, Thomaz foi morar na casa com a esposa e a filha e cuida do antiquário, uma paixão que vem do pai. À venda, há 500 itens que custam de R$ 50 a R$ 120 mil. Chamou minha atenção uma santinha de madeira do século 17, de autoria, provavelmente, de mestre Cabelinho. É o item mais antigo dali. 

Acervos da fé: Liturgia e Sant’Ana

Museu da Liturgia

Na Rua Jogo de Bola – existe nome mais divertido? – é possível entender a presença e a importância da fé no cotidiano de Tiradentes. Nela fica o Museu da Liturgia, onde somos recebidos pelo diretor, Rogério Almeida, para uma prosa antes da visita às 380 peças expostas – de um acervo total de 420. Tiradentino, o diretor é também presidente do Instituto Histórico e Geográfico, e já foi secretário de Cultura. 

“Obra de arte enclausurada é furto”, diz. Ele se refere à formação do acervo, que dependeu de árdua negociação para que a igreja e a população devota aceitassem retirar dos cofres peças de valor histórico e cultural – que são emprestadas a eventos religiosos e outros. 

O espaço teve patrocínio do BNDES entre 2009 e 2012 e também a ajuda de Padre Lauro, que cedeu a casa paroquial, do século 18, para abrigar este que é o único museu litúrgico da América Latina. 

Sorteamos papeizinhos com nomes de santos em uma cesta. Tirei Santa Efigênia, cuja imagem, nas salas superiores, me impressionou. Na visita guiada, soube que o hábito de acender incenso na missa, que perdura até hoje, era uma forma de disfarçar o cheiro dos cadáveres sepultados nas igrejas. As visitas são agendadas; R$ 10.

Museu de Sant’Ana

Na Rua Direita, o pequeno Museu de Sant’Ana funciona no prédio da antiga cadeia pública, do século 18. O acervo tem 291 esculturas de Ana, a mãe de Maria, venerada em religiões cristãs e algumas de matriz africana. Há imagens eruditas e populares, dos séculos 18 e 19. A coleção foi doada ao Patrimônio Público pela empresária Angela Gutierrez – o museu é administrado pelo instituto que ela fundou, o Flávio Gutierrez. Custa R$ 5. 

 

Onde comer: Tailandês e vegetariano, uai

Uaithai bistrô

 

“A aromática comida tailandesa encosta na fascinante comida mineira” é como se define o restaurante na Rua Padre Toledo. A ideia de inspirar o menu nas gastronomias do sudeste asiático e de Minas Gerais foi do chef goiano Ricardo Martins, que morou na Tailândia e, há quatro anos, se fixou em Tiradentes. Super descolado, o local tem um bar com drinques diferentes e, na parte externa, um pequeno teatro de arena onde já se apresentou o ator Tonico Pereira.

Almocei um thai ceviche: linguado marinado com limão, leite de coco, goiabada, coentro, pimenta dedo de moça, cebola, milho, amendoim e mel (R$ 45). Para beber, o drinque que mais sai, o Chiang Mai: gim e suco de limão siciliano, finalizado com xarope de jasmim, melissa e flor de hibisco (R$ 25). Quase 80% dos pratos podem ser feitos na versão vegetariana.

Cultivo

Dois jornalistas de Belo Horizonte decidiram (quase) abandonar a carreira para se dedicar à gastronomia vegetariana e vegana em Tiradentes. O resultado é um espaço aconchegante onde, além dos bem servidos hambúrgueres de feijão com funghi (R$ 41) e dos drinques refrescantes (a partir de R$ 20), você encontrará livros, poesia e discos disponíveis para serem tocados na vitrola ao gosto do freguês. Point da ala mais progressista da cidade, o lugar tem exemplares do jornal – eu disse que eles quase abandonaram a profissão – O Latido de Tiradentes, que satiriza fatos e personagens locais. Telefone: (31) 98868-4928.

De trem até São João Del Rey

A bordo de uma das mais antigas marias-fumaça do País, parte-se da Estação de Tiradentes, na Praça da Estação, em direção à vizinha São João del Rey, outra cidade do circuito histórico mineiro – mas muito maior. Para se ter uma ideia, Del Rey tem quase 90 mil habitantes, enquanto a pequena Tiradentes não passa dos 7 mil. 

O trem, operado pela VLI atualmente, segue por 12 quilômetros pela Estrada de Ferro Oeste de Minas, inaugurada por D. Pedro II em 1881 e tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ao longo da viagem com uma hora de duração, logo surgem na janela os contornos da Serra de São José e o curso do Rio das Mortes, assim como casas do século 19 e a paisagem que mescla cerrado e Mata Atlântica. 

Em São João del Rey, visite as igrejas Nossa Senhora do Carmo e São Francisco de Assis e, já que estamos falando de trilhos, o Museu Ferroviário, também tombado pelo Iphan. Ali está a locomotiva número 1 que cruzou a estrada de ferro e uma rotunda manual, entre outros objetos. 

O passeio de ida e volta custa R$ 70.

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