Felipe Mortara|Estadão
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Três formas de curtir natureza e gastronomia na Austrália

Sobre a terra ou debaixo d’água, a fauna australiana é igualmente encantadora e assustadora. Inclua no roteiro a Opera House, mergulhos na Grande Barreira e visita a vinícolas

Felipe Mortara, O Estado de S. Paulo

22 Março 2016 | 05h00

SYDNEY - Está no olhar do guia aborígine na reserva de Mosmann Gorge e na orla de Sydney. Nas cores néons da Grande Barreira de Corais e nas notas amadeiradas do vinho de Yarra Valley. Está no pôr do sol de Port Douglas e no canguru saltitante que cruza a estrada. A natureza australiana é vasta e única – espalhados pelo país-continente de dimensões semelhantes às do Brasil estão os fofos coalas e os assustadores crocodilos de água salgada, florestas e um imenso deserto, o Outback. Conhecer tudo em uma só viagem, portanto, está fora de cogitação. 

Mas vale reservar um bom tempo para o país. Afinal, a distância – de 19 a 30 horas de voo para chegar, dependendo da rota – e os preços altos das passagens costumam ser as maiores barreiras para os brasileiros. Por esse motivo, separamos três roteiros diferentes, que você pode combinar como bem entender: um voltado às aventuras terrestres, outro às maravilhas do mar e um terceiro para relaxar nas vinícolas dos arredores de Melbourne. 

Embora o dólar australiano tenha cotação menor que o americano (vale R$ 2,81), é importante dizer que o custo de vida é alto e atrações como os indispensáveis mergulhos têm preço tão salgado quanto a água do mar cristalino que banha o norte do país. Por outro lado, o nível dos serviços é excelente. Do garçom numa cafeteria qualquer aos guias dos passeios mais turísticos, todos mostram uma educação, elegância e atenção de ruborizar britânicos e suíços. 

Identidade malemolente. Apesar de ser um país jovem – a Austrália foi reivindicada para a coroa britânica pelo capitão James Cook em 1770 e começou a ser colonizada 18 anos depois –, há, sim, uma identidade australiana. Uma espécie de Inglaterra malemolente, com um quê da nossa leveza latina. Talvez sejam os trópicos, afinal, grande parte do país está em latitudes semelhantes às brasileiras.

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Comparações entre Sydney e o Rio de Janeiro não demoram a surgir diante de praias convidativas, surfistas e parques cheios de esportistas e famílias com carrinhos de bebê. Reflexos ou causas dessa tal qualidade de vida, aparentemente tão abundante que colocou a Austrália na segunda posição do ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre 187 países, em 2013. 

É no aeroporto da maior cidade australiana, com cerca de 5 milhões de habitantes, que desembarcam os viajantes internacionais – reserve alguns dias para explorá-la. O metrô (chamado de train) leva ao aeroporto e a pontos turísticos, como a Darling Harbour. O complexo guarda bares e restaurantes animados, além do espetacular Aquário de Sydney (28 dólares ou R$ 78).

Para ter uma visão privilegiada dos contornos da cidade, a 134 metros de altura, encare um tour pela Harbour Bridge (158 dólares australianos ou R$ 440). Ali pertinho, a Opera House e os belos jardins do Royal Botanical são programa obrigatório. Do Circular Quay, terminal de balsas, saem ferryboats para praias como Bondi Beach. Antes de chegar à areia, o amplo gramado funciona como arquibancada para observar surfistas profissionais e amadores em ondas.

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Já Manly tem um astral mais família e é a favorita dos brasileiros que vivem na cidade. O centrinho é gostoso, com restaurantes vegetarianos e abundante oferta de açaí, mas chama mais atenção por seu calçadão repleto de coníferas. No canto direito, caminhe pela Marine Parade margeando Cabbage Tree Bay até Shelly Beach, prainha miúda e aconchegante. Em dias de mar calmo, é possível avistar tartarugas nadando por ali.

A minha favorita, contudo, foi Balmoral Beach, cuja delicadeza é acentuada por Rocky Point, uma pequena península que divide a praia em duas. Mas outras belezas me esperavam ao sul e ao norte do país.

COMER E BEBER

Dos vinhedos às panelas

Dominique Portet é um homem cujo sotaque denuncia imediatamente sua origem francesa. Pas de problème, estamos em Yarra Valley, uma das mais festejadas regiões vinícolas australianas, a 50 quilômetros de Melbourne. Há tempos é conhecida a qualidade dos tintos, brancos e espumantes produzidos na Austrália. Gente com o know-how de Portet, da nona geração de uma família de vitivinicultores da região de Bordeaux, transformou os terroirs de diversas regiões em fábricas de grandes vinhos e polos turísticos e gastronômicos. 

Tido como o melhor produtor de Yarra Valley, Portet aposta nos cortes (misturas de diferentes qualidades de uvas) – o rótulo André 2008 foi, de longe, o melhor tinto que provei do outro lado do mundo. A mistura de shiraz e cabernet sauvignon tinha um aroma fabuloso – percebi que se tratava de um grande vinho antes mesmo de degustar. O bolso é que não gostou muito: 150 dólares australianos (R$ 418) a garrafa. 

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Beber é tão importante quanto comer nessa região. Usar ingredientes vindos de produtores locais é regra em quase todas as casas, e o restaurante Bella Vedere conectou com primor os vinhedos às panelas – a lasanha de enguia defumada com massa de ovo com mostarda (19 dólares australianos ou R$ 53) deu liga com um belo sauvignon blanc 2015. 

Outro destaque gastronômico, o The Stables at Stones aposta no seu edifício histórico com paredes de tijolinhos do fim do século 19 para criar um ambiente intimista. O chef Hugh Davison serve menu degustação, de cinco ou sete tempos, com ingredientes da estação (85 a 145 dólares, R$ 237 a R$ 404). 

Por falar em sintonia entre sabores, mesmo em meio a parreirais festejados não deixe de conhecer a Napoleone. Cervejaria artesanal que produz 2 mil litros diários, tem ganhado adeptos para suas cidras. O fermentado de maçã ou pera sempre foi muito consumido pelos australianos, mas está ainda mais na moda. Após um tour guiado de uma hora (20 dólares australianos ou R$ 56), gostei mais da variedade que mistura as duas frutas. 

Para dar um tempo na comilança, o zoológico Healesville Sanctuary foi o único onde vi um ornitorrinco. Ali também há apresentação de aves adestradas, com cacatuas, falcões e corujas voando a poucos centímetros da sua cabeça. 

Miniatura. A 247 quilômetros de Sydney, o Hunter Valley é uma versão miniatura do Yarra Valley. O horizonte formado por vinhedos em colinas de pequenas propriedades atrai casais e a produção é de menor escala. Uma ótima escapada de dois dias.

Fundada em 1860, a Adina Vineyard é a mais antiga produtora de vinhos da Austrália. Com mais de 60 mil garrafas por ano, tem aura antiquada que condiz com sua idade e serve também como pousada. O forte são os vinhos semillon e pinot grigio e a limpeza nos quartos é impecável (desde 190 dólares australianos ou R$ 534). 

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Para acompanhar um bom vinho, nada como um ótimo queijo. Na queijaria artesanal Binnorie Dairy, veja como são transformados, diariamente, 100 litros de leite de cabra em ricotas, bries, chèvres com dill ou alho e outras qualidade e combinações. Feito o aperitivo, ande alguns passos até o Muse Kitchen, que durante o dia serve perna de pato com pele crocante acompanhada de repolho roxo, bacon caseiro e ameixas (36 dólares australianos ou R$ 100). À noite, entra em cena o menu degustação com três pratos (95 dólares australianos ou R$ 265).

Visite ainda a Audrey Wilkinson, que desde 1866 produz vinhos corretos. O divertido gestor, Ross, guia a visita pela fotogênica propriedade sem economizar nas piadas. 

Ao fim do dia, repouso e mais comida. O pernoite no Spicers Vineyard Estate relaxa corpo e alma – o ápice foi o jantar no Botanica, localizado no jardim, talvez o melhor restaurante de toda a viagem. Com três pratos, o menu de 79 dólares australianos (R$ 220) teve bochecha de boi com vieira, aipo e bacon, um sonho superado pela carne de veado de fazenda com tortellini de batata doce, castanha portuguesa e couve-de-bruxelas. Para harmonizar, um Broken Wood shiraz 2013. Ah, e o sorriso ao lembrar que a cama estava a menos de um minuto dali. 

AVENTURA

Selva, reserva e bichos tipicamente "aussies"

A floresta tropical lembrava muito a nossa Mata Atlântica. A trilha de 1h30 até a cachoeira poderia estar em qualquer canto da faixa litorânea do Brasil. Assim como os granitos sobre os quais as águas corriam e os poucos mosquitos que vinham xeretar. Até a aparência do guia, Sean, remetia aos miscigenados traços tupiniquins. 

Mas as coincidências pararam por aí. O trekking guiado por um nativo aborígine na reserva de Mossman Gorge é dessas experiências que revelam uma Austrália nada óbvia e ultrapassa os (indispensáveis) clichês, como coalas e cangurus fofos. 

A 76 quilômetros ao norte de Cairns pela deslumbrante Capitain Cook Highway – que lembra muito a Rodovia Rio-Santos –, o parque faz parte de uma série de terras demarcadas pelo governo e entregues para gestão dos próprios povos nativos. O bem estruturado centro de visitantes recebe com um bom café e uma excelente loja com livros e arte dos povos originários da Austrália. Para mim era tudo novo; seria mentira dizer que os traços da moça do caixa não me impressionaram. Um tom de pele cinza-chumbo que desenhava traços duros e viscerais, emoldurando um olhar de profundidade abissal. 

Filho de mãe aborígine e pai irlandês, Sean pede bênção aos espíritos para entrar na floresta. “Gosto da floresta porque tudo ao seu redor não é você, é diferente”, divaga. O que impressiona é que na fácil caminhada de 1h30 (8,90 dólares australianos ou R$ 25; mossmangorge.com.au) ele apontava no meio da massa verde uma série de plantas medicinais, mostrando suas propriedades: uma que vira sabão, com direito a espuma ao ser esfregada, outra cuja folha é venenosa, mas a própria raiz é o antídoto. 

Aprendi que a noz-moscada é a semente de uma frutinha vermelha e colhemos macadâmias do pé. Um mar verde cujos detalhes poderiam facilmente passar despercebidos. 

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Feras. Zoológicos e reservas particulares de animais são tão abundantes na Austrália quanto a fauna em si. As experiências e a interação com os bichos é que muda de lugar para lugar. Se a ideia for sentir a vida selvagem de perto, nada superou o Hartley’s Crocodile Adventures (37 dólares australianos ou R$ 104), 40 quilômetros ao norte de Cairns. Seja em uma pequena navegação num lago ou em um show com treinadores, é impressionante ver de perto os animais devorando pedaços de frango. É preciso ter estômago forte, mas estar a poucos metros dessas feras de aspecto pré-histórico é tocante.

Além dos gigantes, capazes de viver tanto na água doce como na salgada, os visitantes poderão ter contato com outros animais, especialmente répteis. Cobras, lagartos e pequenos jacarés podem ser tocados – e dá para usá-los como coadjuvantes nas selfies. Ainda dentro do parque, o Restaurante Lilies oferece porções de carnes tipicamente australianas, que incluem ema, canguru e crocodilo. Pode ser estranho, mas admito que sim, é saboroso. 

Para concluir a imersão na fauna aussie (o gentílico informal da Austrália), o Wildlife Habitat (33 dólares australianos ou R$ 93) foi especialmente divertido, principalmente no imenso cercado dos cangurus e seus “primos” walabies, onde se pode alimentar os bichinhos na mão (eles só vêm se você comprar um pacotinho de ração) e fazer carinho – prepare-se para fazer muitos cliques. Outra graça é tirar foto abraçado a um coala, mas os 15 dólares australianos (R$ 42) podem ser melhor investidos em um café da manhã entre cacatuas e periquitos coloridos.

MERGULHO

Vida marinha para nunca mais esquecer

Este texto pretende deixar o leitor com muita vontade de visitar a Grande Barreira de Corais sem fazer nenhuma alusão a aquários. Para isso, é preciso explicar que se trata da maior formação do tipo no mundo, espalhada por 2,3 mil quilômetros na costa nordeste da Austrália, no Estado de Queensland. Que a variedade de peixes chega a 1,5 mil espécies, que as cores dos 600 tipos de coral beiram o indefinível, que abriga 4 mil espécies de moluscos e recebe 2 milhões de visitantes (humanos) por ano. Ah, e que é visível do espaço. Pronto, agora vamos falar do que você pode ter a ver com isso tudo.

Mesmo que não seja lá um grande nadador, a Grande Barreira é desses lugares em que é preciso se permitir e, algumas vezes, enfrentar medos. Há muitas recompensas por isso. Basta 1h30 de barco para ter essas águas cintilantes diante dos olhos. Tanto em Cairns como em Port Douglas, as duas principais cidades de onde partem mergulhadores e turistas em geral, a Grande Barreira não fica a uma distância razoável da orla. Aliás, não há praia nessas cidades, apenas mangue. 

Porém, há charme. Especialmente na pequena e descolada Port Douglas, com 3,5 mil habitantes, que vive do turismo e de seus barcos, que diariamente partem até pontos variados dessa maravilha declarada patrimônio pela Unesco em 1981. Uma dezena de operadoras credenciadas pelo governo organizam saídas que duram o dia todo.

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Em duas incursões ao fantástico mundo submerso, experimentei os serviços de duas empresas. Com a Quicksilver Cruises (232 dólares australianos ou R$ 653), naveguei por duas horas a bordo do potente catamarã a motor Silversonic até Agincourt Reef, 72 quilômetros ao norte de Port Douglas. Era uma saída dedicada ao mergulho, credenciado (mais 164 dólares australianos ou R$ 461, duas descidas) ou iniciante (162 dólares australianos ou R$ 455, uma descida com instrutor). A bordo havia máscara, snorkel e nadadeiras de sobra para quem preferisse o snorkeling. Mas o melhor estava em águas mais profundas. 

Foram três mergulhos nos pontos conhecidos como Wreck Bay, Castle Rock e Barra, onde cardumes de chiras, barracudas e peixes-borboleta ziguezagueavam entre colunas de corais multicoloridos – atenção para não se perder do grupo ao seguir os peixes coloridos. Morador da Austrália há oito anos, o instrutor de mergulho Pedro Linhares descobria esse canto da Grande Barreira pela primeira vez, mas já apontava minúsculos nudibrânquios e um camarão-palhaço, transparente com bolinhas roxas e menor que um dedinho. 

Segunda vez. Cairns, com 150 mil habitantes e bem espalhada horizontalmente, tem um calçadão às margens da lama que surge na maré baixa e uma piscina pública convidativa, meio com jeitão de praia, chamada Lagoon. Dali embarquei para a segunda vivência submersa, a bordo do catamarã Ocean Spirit (a partir de 196 dólares australianos ou R$ 551). Adequado a famílias e iniciantes, Michaelmas Cay é um atol a 43 quilômetros a nordeste de Cairns – 2h30 de navegação. No caminho, o biólogo marinho Elliot dá uma palestra sobre biodiversidade; depois guia um tour, cobrado à parte: 60 dólares ou R$ 168). 

Michaelmas Cay é um pequeno banco de areia sem árvores, de 360 por 50 metros. Um santuário para até 20 mil pássaros migratórios, como atobás e fragatas, durante o verão, temporada de reprodução. Tem uma prainha linda, com mar azul, aves barulhentas e águas abrigadas perfeitas para o snorkeling, onde vivem peixes-palhaço (sim, o Nemo), tartarugas e o incrível peixe-picasso, batizado assim por suas formas cubistas. 

Para quem não se sente à vontade com snorkel ou cilindro, é possível embarcar em um semi-submersível (incluído), pequeno barco com fundo rebaixado e janelinhas de vidro. E quem quiser a experiência completa, um mergulho ou batismo nos corais mais profundos (120 dólares ou R$ 337). Bonito de não querer esquecer nunca. 

SAIBA MAIS

Aéreo: SP–Sydney–SP, com conexão, R$ 5.166 na TAM; R$ 5.205 na Emirates; R$ 5.551 na Etihad e R$ 6.786 na Qantas

Visto: faça online: bit.ly/vistoaus; 165 dólares australianos (R$ 461).

Site: australia.com.

* O repórter viajou a convite do Tourism Australia.

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