Treze ilhas, um parque. E inúmeras surpresas

Se estivesse com um microfone na mão em Galápagos, como num daqueles programas infantis dos anos 1980, precisaria agradecer a muita gente. À minha mãe, ao meu pai, a você, leitor, e, especialmente, a Darwin, por ter aberto os olhos do mundo para este arquipélago irreal.

ILHA DE SANTA FÉ, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2012 | 03h11

É preciso admitir, no entanto, que fosse com a viagem do cientista inglês, em 1835, ou anos depois, a fama desses 8 mil quilômetros quadrados de terra espalhados por 13 ilhas no Oceano Pacífico não tardaria a chegar. Antes dele, contudo, Tomás de Berlanga já havia atracado por lá em 1535, fazendo o primeiro registro de Galápagos que se tem notícia.

Se hoje não há monotonia para a visão - do azul da pata dos piqueros ao vermelho da carapaça dos caranguejos -, imagine naquela época. Por sinal, nessa terra onde 97% da área é Parque Nacional (e que tem apenas 30 mil moradores), não há tédio para sentido algum.

A audição cintila com o canto dos pássaros e barulho de suas asas batendo - rasantes de tirar fina dos visitantes. O tato se esbalda na textura das areias fininhas. Já no quesito olfato agradeço à minha rinite crônica por amenizar o odor dos excrementos dos leões-marinhos. E o paladar é bem tratado - a camarão e peixe fresco - pelas cozinhas das muitas embarcações que cruzam o arquipélago.

O navio Galapagos Legend, por exemplo, percorre todas as ilhas em 18 dias, mas há roteiros de quatro, cinco ou 13 dias. No nosso caso, fizemos o percurso de quatro dias, com paradas nas ilhas de Baltra (onde se localiza um dos dois aeroportos), Santa Cruz, Plaza Sur, Santa Fé e San Cristóbal - que, apesar de próximas, são bem diferentes entre si - tanto na fauna quanto na flora.

Saudações. Posso afirmar que senti Galápagos quando pisei na Playa de las Bachas, em Santa Cruz, e fui saudado por pelicanos. Na ponta da praia, numa pequena lagoa, percebo meu queixo caindo ao ver flamingos pescando com seus pescoços curvos e plumagem rosácea, contrastando com a floresta cinza de palo santos (árvore-símbolo do Equador) sem folhas. A foto fica perfeita com uma revoada de albatrozes ao fundo.

Ouço gritos abafados pelo snorkel na boca dos turistas. Algo me diz que a fauna subaquática também tira - literalmente - o fôlego. Com o rosto na água, flagro cardumes de peixes-anjo com cauda amarela, cirurgiões azuis e peixes-papagaio - verdes e roxos. O tímido peixe-cofre não queria papo e o peixe-pedra bem que tentou, mas sua camuflagem não passou batida nem para este repórter míope.

Impossível não se interessar por biologia num lugar assim. Os guias que viajam com o grupo são biólogos credenciados pelo parque, treinados durante meses e muito bons de explicação. Tão bons que, após cada dia de cruzeiro, chego a ter a inocente impressão de me tornar mais e mais um ás da botânica e da morfologia. Uma ilusão, logicamente: tudo é muito complexo.

Contrastes. A impressão que se tem ao aportar na Ilha Plaza Sur é de um misto de deserto de cactos gigantes e tundra siberiana colorida. O céu nublado ajuda nas fotos, dando o devido contraste. Na água, os leões-marinhos fazem barulho nadando com desenvoltura assustadora ao redor do bote. Em terra, se arrastam usando as nadadeiras traseiras como apoio, em movimentos cômicos. Secos ou molhados, são fofos e fotogênicos.

Durante a caminhada pela trilha (que não leva mais de duas horas), a ânsia por uma foto mais próxima dos animais é tão grande que muitos - insira um mea culpa aqui - acabam dispensando o zoom e desrespeitando o limite de dois metros. Dado que os bichos não apenas não têm medo como são curiosos, é o visitante quem deve pensar na distância. Tocar ou alimentá-los, nem pensar. Seus netos hão de agradecê-lo.

As cerca de 300 iguanas que vivem em Plaza Sur têm um tom amarelo-esverdeado que contrasta com o preto do dorso. Posam com cara de sábias. Parecem complementar os amarelos, vermelhos e laranjas surrealistas da vegetação. Nos buracos, as tímidas gaivotas de cauda bifurcada protegem seus ninhos. Afinal, esses seres com roupas coloridas e câmeras nas mãos podem até não dar medo, mas que são estranhos, isso são. E param de piar quando me afasto, num alívio silencioso. / F.M.

lEstá para peixe

Basta colocar o

snorkel para flagrar cardumes coloridos

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.