Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

Trilha puxada rumo à casa das capivaras

Recompensadora. Eis a palavra que define a trilha do Caldeirão dos Rodrigues, Canoas e Esperança. Tanto pelas paisagens dramáticas quanto pelos sítios com pinturas que beiram a perfeição. Poucos, contudo, têm o privilégio de contemplá-los: o percurso de quatro horas exige preparo físico - e alguma coragem.

SÃO RAIMUNDO NONATO , O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2013 | 02h19

Passeio dos mais extensos da Serra da Capivara, o circuito de aproximadamente 12 quilômetros começa no fundo do Baixão da Pedra Furada, onde há um estacionamento. Sobe-se morro (ou melhor, pedra) acima numa formação geológica muito comum na região, os conglomerados de seixos.

Primeira parada oficial, a Toca dos Canoas garante não apenas sombra, mas desenhos de hominídeos com traços quadrados, que lembram robôs, encontrados também do outro lado do parque, na Serra Branca. São apenas dois deles, mas como estão bem conservados! Uma ema de traços precisos também ganha cliques.

Adiante, após aprender a diferença entre cactos xique-xique, rabo-de-raposa e coroa-de-frade (só vendo para entender, caro leitor), chegamos ao mirante: mato até onde a vista alcança, São Raimundo Nonato ao longe.

Talvez pelo nome - que soa como alívio para quem caminha sob um calor de 38 graus - ou pelo estado de espírito no momento em que lá chegamos, o Grotão da Esperança virou meu lugar favorito na Serra da Capivara. De um lado, um vasto cânion com bordas de arenito de uns 50 metros de altura, com cara de Grand Canyon. Do outro, formações irregulares de conglomerados de seixos que lembram as obras do arquiteto catalão Antonio Gaudí. E um silêncio, ah, que silêncio bom.

A parte radical do passeio começaria em seguida. Descemos por cerca de 60 metros em uma escada de ferro encravada na rocha. Muita atenção: qualquer deslize pode ser o fim da viagem. Já no fundo do vale percebo que escorre um suor frio pela testa, minhas pernas tremem. Parada para uma água e uma barrinha de cereal.

Mal sabia eu que o prêmio estava a poucos metros, escondido atrás de uma pedra, no fundo deste raríssimo trecho úmido forrado por gameleiras centenárias. Além de abrigo contra intempéries, a Toca do Caldeirão dos Rodrigues preservou aquele que é o terceiro sítio mais importante do parque. Expostas no paredão, capivaras perfeitas, que apesar de extintas na região há 7 mil anos, batizaram o parque. Ornadas com traços simétricos e mosaicos, têm estilo único e nitidez comovente. "Este é o sítio que mais concentra capivaras. Possuem traços dinâmicos e delicados. Realmente um lugar especial", diz o guia Nestor Paes Landim. Ele conta que uma escavação na região encontrou restos de carvão de 18 mil anos atrás. Uau.

Para terminar o dia com emoção nas alturas, use a criatividade. A Toca da Invenção reúne imagens de veados em traços sobrepostos brancos e vermelhos, dando um efeito diferente. Mas a graça aqui - para os destemidos - é subir outra escadaria de ferro, de 80 metros, para conferir o entardecer sem vivalma por perto. / F.M.

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