Flavia Alemi/Estadão
Flavia Alemi/Estadão

Trilhas e tradições, além de Machu Picchu

Roteiro até Machu Picchu pela trilha Lares mistura caminhada entre montanhas a mais de 4 mil metros de altitude com experiências culturais em meio às comunidades andinas – tudo ao gosto do viajante

Flavia Alemi, Cuzco

10 Abril 2018 | 05h00

Tudo o que se descobriu a respeito de um dos locais mais procurados da América do Sul até hoje é tão repleto de incertezas que o espaço para misticismos é quase infinito. Foi Machu Picchu um centro de estudos astronômicos dos incas? Ou um santuário religioso? Há quem diga ainda que a cidade foi construída para ser um refúgio de Pachacutec, líder do império inca no século 15. 

Teorias sobre os possíveis usos da fortaleza surgem a cada nova escavação, mas o fato é que a cidade secreta dos incas foi um dos poucos lugares em que os colonizadores espanhóis não conseguiram colocar as mãos – seja porque o relevo os impediu de chegar, ou porque a cidadela já havia sido abandonada pelos incas. E são esses intrigantes questionamentos que atraem mais de 3 mil turistas a Machu Picchu todos os dias, cada um optando por um jeito diferente de chegar.

Não importa qual seja a maneira escolhida, você inevitavelmente começará sua aventura por Cuzco, um caldeirão onde cultura inca e turistas de todo o mundo se misturam a 3.399 metros de altitude. Fundada por Manco Capac, líder do império inca, a cidade de Cuzco teve parte da arquitetura ameríndia apagada pelos colonizadores espanhóis, que substituíram os templos por igrejas católicas. Apesar disso, ainda é possível ver nas construções da parte central da cidade algumas fundações dos tempos originais.

A estrutura turística se concentra na região da Plaza de Armas, onde estão a Catedral de Cuzco e a Igreja da Companhia de Jesus. Esta última faz parte da Rota do Barroco Andino, composta por um total de quatro igrejas que exibem a arte que mescla elementos ritualísticos dos povos ameríndios e do cristianismo espanhol. Ao redor, restaurantes, bares e hotéis que recebem de mochileiros aos mais exigentes hóspedes se fazem presentes, além dos incontáveis promotores que oferecem os mais variados produtos e serviços, de chaveiros e bijuterias até massagens. 

Fora do centro, a Cuzco turística dá lugar à Cuzco real, de vida simples e costumes tradicionais. Convém explorar locais fora do circuito principal, como o estádio do Real Garcilaso.

O caminho. De Cuzco para Machu Picchu, há várias possibilidades. A grande maioria embarca nos trens que levam direto a Machu Picchu Pueblo, de onde se sobe à montanha de ônibus. Os mais aventureiros, por sua vez, optam por trilhas – a chamada Trilha Inca é a mais famosa (e concorrida), mas não a única. 

E há uma terceira opção, que une os dois mundos, o do conforto e o da aventura. Com hotéis confortáveis isolados em meio às montanhas, a Mountain Lodges of Peru tem duas opções de programas: pela trilha do Salkantay ou a Aventura de Lares, no qual embarcamos.

Os grupos são pequenos, e os participantes podem optar, diariamente, entre trilha ou uma opção cultural – um chamariz para quem não tem preparo físico para encarar montanhas acima de 3 mil metros de altitude, e um alívio para quem se desgastou após alguns dias seguidos de caminhada. Entre as opções de passeios, destacam-se visitas a sítios arqueológicos e comunidades, mercados locais, aulas de culinária... 

Ao fim do dia, tenha ele sido ocupado por andanças a pé ou sobre rodas, chega o momento de aproveitar os luxuosos chalés – são no máximo duas noites em cada um. O conforto se traduz em jacuzzis, camas enormes, massagem e alta gastronomia. Tudo para começar a manhã seguinte com energias renovadas.

Os Lodges

Lamay 

Altitude: 2.958 metros

Localizado na província de Calca, tem áreas comuns amplas e quartos aconchegantes, além de um belo jardim, cujo centro é uma jacuzzi coletiva. A culinária requintada é composta de muita fibra para auxiliar na digestão, já que na altitude ela ocorre de forma mais lenta. Há massagistas para atender as câibras que surgirem depois das trilhas.

Huacahuasi

Altitude: 3.835 metros

Às margens do Rio Urubamba, tem como atrativo as jacuzzis privativas em cada quarto, de onde você pode pedir bebidas e petiscos depois de um dia exaustivo. A sofisticação segue o protocolo do chalé Lamay, com o adendo de pisos térmicos, já que, por estar numa altitude maior, o Huacahuasi é mais frio.

K’uychi Rumi

Altitude: 2.830 metros

O enorme jardim faz pensar que se trata de um sítio no qual foram distribuídas casas completas para várias famílias. O hotel é parceiro da Mountain Lodges of Peru, mas carece de alguns luxos presentes nos outros. Não há, por exemplo, massagista ou jacuzzi, mas o contato com a natureza é bem próximo. Por serem casas completas, é um desperdício passar apenas uma noite em K’uychi Rumi.

 

Saiba mais

Aéreo: SP–Cuzco–SP, com conexão em Lima, custa a partir de R$ 1.425,66 na Avianca e na Latam

Trilha: Há duas opções do roteiro Aventura Lares da Mountain Lodges of Peru, de 4 ou 6 noites. O preço varia de US$ 1.800 a U$ 3.100 por pessoa em quarto duplo, conforme a época do ano, e inclui guia, refeições e entradas nas atrações.

Quando ir: de novembro a março chove muito e podem ocorrer deslizamentos. A melhor época é de abril a outubro.

Moeda: 1 sol vale R$ 1.

Site: peru.travel.

A REPÓRTER VIAJOU COM APOIO DA MOUNTAIN LODGES OF PERU.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 1 - Quem cedo madruga

Algo que a maioria das pessoas omite quando conta sobre as aventuras no Peru é o quão cedo o dia começa. Se você não troca o café da manhã do hotel por nada, vai precisar de uma força de vontade extra para deixar a cama aconchegante às 6h e encarar o frio matutino da cidade de Cuzco para se alimentar.

Flavia Alemi, Cuzco

10 Abril 2018 | 04h55

Com a lã limpa, tingida e seca, começa a etapa mais longa: a tecelagem. Para fabricar um único caminho de mesa, leva-se cerca de um mês inteiro, o que valoriza o trabalho das famílias peruanas que fazem parte da cooperativa. É possível comprar um dos caminhos de mesa por 250 soles (que tem a cotação bem similar ao real). Já os cobertores, que têm mão de obra menos complexa, saem por 100 soles. Há também gorros, luvas, meias, porta-moedas, chaveiros e pulseiras.

O início da trilha 

Depois de abastecer a mochila com lembrancinhas, chega o momento de visitar o campo arqueológico de Chinchero. O que outrora havia sido um dos muitos templos incas foi derrubado para dar espaço a uma igreja católica quando os espanhóis dominaram a região. O entorno da igreja, por sua vez, é repleto de terraços agrícolas nos quais os incas cultivavam diversos tipos de batatas, grãos e ervas. E é na base desses terraços que a trilha finalmente começa.

Quem não tem experiência no assunto deve ouvir com alívio que essa primeira caminhada não tem subida, certo? Errado. Foram oito quilômetros de descida, boa parte deles cheios de degraus, que não fizeram nada bem aos joelhos desta repórter. A dor, no entanto, foi compensada pelas belas paisagens, principalmente nos pontos da trilha em que o Rio Urubamba e o povoado de Urquillos estavam visíveis. Um dos ensinamentos desse primeiro dia foi o de não subestimar a importância dos bastões de caminhada. Nos trechos em que a trilha fica mais seca e cheia de pedregulhos, eles evitaram pelo menos seis tombos homéricos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 2 - Acima dos 4 mil metros

Os músculos enrijecidos depois da primeira trilha deixam tudo mais complicado, desde pisar no chão até subir os degraus que levam à sala de jantar do chalé de Lamay. Mas a vontade de testar os limites do corpo tornam o segundo dia de trilha indispensável, principalmente quando você descobre que irá passar dos 4 mil metros de altitude. Para ajudar um pouco nessa árdua tarefa, a van dá uma carona até o ponto de partida da caminhada, que já está a 3.800 metros. 

Flavia Alemi, Cuzco

10 Abril 2018 | 04h50

Lembra quando chega aquele momento do calendário futebolístico em que algum time brasileiro precisa ir para a Bolívia numa decisão da Copa Libertadores? Cada clube arma uma estratégia parecida, que consiste basicamente em chegar a La Paz dias antes da partida. Mas, mesmo assim, parece que os jogadores não conseguem render o máximo que podem, e isso acontece por causa do ar rarefeito, que torna a respiração difícil e faz perder o fôlego com apenas alguns passos. Se isso acontece com atletas profissionais, imagine o efeito em corpos que apenas correm na esteira durante alguns minutos na semana. 

Poucas passadas já faziam ser necessário parar para beber água e recuperar o ar. Na pausa mais longa, Steven, um dos canadenses do grupo, verificou nos seus gadgets que nós havíamos nos deslocado apenas 244 metros em 40 minutos. E ainda faltavam mais 121 metros até a passagem. Em frente.

Para baixo todo santo ajuda?

O pico da caminhada é marcado por um montinho de pedras arrumadas para o clique perfeito do grupo, com o céu e as montanhas ao fundo. Depois do registro, sobra apenas o caminho morro abaixo, para azar dos pobres joelhos, que precisarão aguentar mais 1h30 de descida até Viacha, vilarejo onde será servido o almoço. Na trilha tortuosa, o contato com os animais criados pelas famílias do povoado é direto. 

Caminhando entre rebanhos de ovelhas, finalmente chegamos à casa de Bertha e Julian, casal morador das montanhas que nos recebeu com a pachamanca. Prato típico do Peru, consiste num tipo de cozido de cordeiro, porco e frango – além de vários tipos de batata e milho –, preparados sob a terra.

Pisac 

Depois do almoço, as ruínas de Pisac são o próximo destino. Construída por civilizações pré-incas, a cidade foi uma das maiores durante o apogeu do povo pré-colombiano e se destacava por sua completude: agrupava torres, edifícios, templos, terraços agrícolas e um cemitério. Explorar Pisac após uma trilha moderada é desafiador, mas a energia dos incas parece dar uma forcinha extra para que você não desista. A vastidão da paisagem sopra um ar contemplativo enquanto o relógio insiste em avançar. Já é hora de ir para o chalé.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 3 - Ruínas e desafios

Como mudaríamos para um chalé diferente, era preciso acordar um pouco mais cedo para deixar as malas prontas. Isso, é claro, se o despertador tivesse sido programado. Esqueci – e tive de fazer tudo na correria. 

Flavia Alemi, Cuzco

10 Abril 2018 | 04h45

Depois do café da manhã, o mercado de Pisac aguardava nossa visita. De milho roxo a pimentas enormes, os produtos expostos nas barracas dão a oportunidade de conferir de perto os hábitos alimentares da população peruana.

Após o passeio, chegamos de van no sítio arqueológico de Ancasmarca, um dos mais fascinantes da viagem. Ali, as construções seguem um formato circular. De acordo com os guias, cada um dos círculos eram silos, onde ficavam estocados grãos e outros alimentos. Por ter bastante incidência de sol e vento, Ancasmarca possui as condições ideais para manter tudo fresco, o que mostra a sabedoria dos incas a respeito de suas terras.

Piquenique no riacho 

Ancasmarca é de cair o queixo, mas não havia tempo para continuar admirando a inteligência inca enquanto havia uma trilha à espera. Depois de uma hora dentro da van, fizemos um piquenique ao lado de um riacho. Sanduíches, frutas e suco deram energia para a segunda parte do dia. 

Mais 20 minutos de van e chegamos ao ponto de partida em Cuncani, no pé de uma montanha, a uma altitude de 3.800 metros. A passagem estava a 4.200 metros. Sem pânico.

Sinceramente, quando você começa a trilha, bate uma sensação de arrependimento. É muito difícil superar as dificuldades físicas, principalmente quando você passa duas horas apenas subindo a montanha. O fôlego vai embora muito rápido e toda a água fresca do mundo parece insuficiente para repor os minerais perdidos ao longo da empreitada. A cada parada para respirar, a cada esticada de braço para pegar o cantil, você olha para baixo, procurando onde foi o local onde a trilha começou. E são nesses breves momentos em que um misto de sensações que nada tem a ver com arrependimento se manifesta. Felicidade, superação, dever cumprido. Com esse incentivo, terminar a trilha fica bem mais fácil. 

Da passagem em diante, o cenário muda: os caminhos estreitos e pedregosos se transformam em campos abertos e úmidos, recortados por três lagos. No topo da montanha, o vento forte e gelado obriga a vestir peças de lã, como cachecóis e luvas, para aguentar a parte final da caminhada – agora, morro abaixo. 

Depois de uma hora encontrando lhamas e alpacas no meio do caminho, já conseguimos avistar o chalé Huacahuasi. A jacuzzi privativa me aguardava, quentinha, em meio ao frio de 7 graus.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 4 - Cânticos infantis

Foi difícil decidir entre fazer mais uma trilha ou ir para a atividade cultural. As dores nos joelhos estavam melhores depois de ficar cozinhando na jacuzzi, mas ainda marcavam presença. Pela manhã, decidi que aguentaria mais três horas de caminhada e resolvi fazer a trilha, que, pela primeira vez, começou direto do chalé, sem que a van nos levasse ao ponto de partida. 

Flavia Alemi, O Estado de S. Paulo

10 Abril 2018 | 04h40

Parte do caminho fazia parte do final da trilha do dia anterior, mas a proposta era diferente: iríamos ver as cachoeiras do começo do vale. Até chegar do outro lado da montanha, o caminho foi relativamente fácil, sem grandes inclinações e com a grama amortecendo os passos. A descida, por sua vez, reforçou, mais uma vez, a importância dos bastões de caminhada, já que as pedras davam pouca sensação de segurança ao pisar. 

Depois de atravessar o riacho, seguimos o caminho vale adentro, parando para observar algumas casinhas de pedra e barro que pipocavam ao longo do curso das águas. Chegando mais perto do centro do povoado, a presença de civilização fica mais forte, com construções de alvenaria, cartazes de políticos, igreja e escola. 

Nos bancos da escola

Um dos guias, Carlos, conseguiu com que os diretores do centro de ensino autorizassem a nossa visita, um passeio que não estava programado e que acabou se tornando uma das experiências mais enriquecedoras da viagem. Vestindo as roupas coloridas tradicionais das montanhas, com ponchos e chapéus, as crianças cantaram músicas usadas no processo de alfabetização em castelhano – nas montanhas peruanas, a maioria da população fala quíchua. 

O chalé não estava longe. Deu tempo de participar da aula de culinária na qual aprendemos a preparar a Causa Limeña (leia mais abaixo). Dali, direto para a jacuzzi particular até a hora do jantar.

Sabores típicos

Causa Limeña

Parecido com nosso escondidinho, é uma entrada servida fria. Dois discos de purê de batatas com pimentão amarelo cercam o recheio, que pode ser de atum, frango ou abacate, temperados com suco de limão, maionese e sal. Saboroso.

Pachamanca

É o churrasco peruano. Usando uma espécie de forno de pedra escavado na terra, cozinham-se cordeiro, frango e porco junto com diversos tipos de milho e batatas. Controverso: só provando para ter o próprio veredito.

Chicha morada

Feita com suco de milho roxo, a chicha morada lembra uma versão não alcoólica de uma sangria, com abacaxi, maçã, limão, canela e cravo compondo a lista de ingredientes, além de muito açúcar. 

Cuy

O porquinho- da-Índia, no Peru, não é um bichinho de estimação. Consumido principalmente pelos moradores das montanhas, o cuy é servido inteiro, assado, para traumatizar os turistas que tiveram o pet na infância.

Pisco sour 

Carro-chefe do Peru, o Pisco Sour é docinho e saboroso, mas deve ser consumido com moderação, devido aos 40% de teor alcoólico. Leva pisco, limão, clara de ovo, xarope de açúcar, angostura e muito gelo.

Leia mais: Bebidas com sotaque — os drinques típicos mundo afora

Picarones 

Comida de rua em formato de rosquinha. Trata-se de uma massa feita com farinha, abóbora e batata doce, frita em imersão e coberta com mel de rapadura. Aprovado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 5 - Descanso para os joelhos

Depois de quatro dias de caminhadas, os joelhos imploravam por descanso. Como as duas opções de trilha eram de dificuldade elevada, optei pela atividade cultural. Assim, pude acordar um pouco mais tarde. Com as malas prontas para serem levadas até o próximo chalé, subimos na van às 9h e fizemos um longo caminho de volta ao Vale Sagrado, até Urubamba.

Flavia Alemi, O Estado de S. Paulo

10 Abril 2018 | 04h35

A atividade programada era uma visita ao Museo Inkariy, que conta a história dos povos que habitaram a região andina desde antes da expansão do Império Inca. Nas oito salas, são apresentados, por meio de dioramas, os costumes, indumentárias e características físicas dos principais povos andinos.

Seguindo uma ordem cronológica, a primeira sala, do povo caral, conta detalhes sobre a civilização mais antiga da América, que teria se formado há cerca de 4.600 anos no litoral peruano. Na sequência, a sala dedicada ao povo chavin traz uma representação dos rituais de sacrifício, enquanto a dos paracas mostra técnicas de deformação de crânios, que serviam para distinguir a função de cada membro da sociedade.

Origem dos incas

Depois de conhecer os mochica, nazca, wari e chimu lambayeque, chega a vez dos incas. Há diversos mitos que narram a origem desse povo. O mais difundido é o de que os irmãos Manco Capac e Mama Ocillo, filhos do Deus Sol, emergiram das profundezas do Lago Titicaca para procurar um lugar para estabelecer um reino. Esse local seria o Vale de Cuzco. 

Já a versão arqueológica sugere que os incas tenham sido um resultado da união entre os moradores do vale e tribos nômades. Fato é que, em apenas 50 anos, o Império Inca se tornou um dos mais prósperos da América devido à preferência por construir alianças com outros povos por meio de casamentos – e outras negociações diplomáticas – em vez de simplesmente submeter um grupo ao império à força.

Depois da injeção de cultura pré-colombiana, fomos conhecer o novo chalé, cuja proposta é diferente dos outros. Trata-se de um grande terreno com várias casas completas, cada uma delas com salas de estar e jantar, cozinha e espaço suficiente para uma família inteira se hospedar. Os jardins são repletos de flores e árvores – além de dois cachorros amigáveis.  

À tarde, enquanto o grupo que fez a trilha mais longa não chegava, fomos conhecer uma cervejaria local, a Cerveceria Del Valle Sagrado. Degustamos um pequeno copo de cada um dos tipos produzidos por lá e depois pudemos escolher um pint do que gostamos mais. Mas sem abusos: não é recomendável exagerar no álcool na altitude. Um pouco mais alegres do que quando entramos, voltamos ao chalé para nos prepararmos para o sítio arqueológico de Ollantaytambo no dia seguinte.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 6 - No balanço do trem

A trilha pesada que a maioria do grupo enfrentou no dia anterior não deixou ninguém com vontade de fazer longas caminhadas às vésperas de conhecer Machu Picchu. Para facilitar a logística, a Mountain Lodges of Peru colocou à disposição dos viajantes uma mala extra para colocar os pertences que seriam usados nos próximos dois dias. O motivo é que a companhia de trem que leva a Águas Calientes, povoado aos pés das famosas ruínas, limita o tamanho da bagagem dos passageiros, portanto, não dá para correr o risco de chegar na estação e não poder embarcar.

Flavia Alemi, Cuzco

10 Abril 2018 | 04h30

Partimos do lodge por volta das 8h30 em direção a Ollantaytambo, a última ruína inca antes de Machu Picchu. Os detalhes das portas de cada casa, que ainda adotam o formato trapezoidal – mais resistente a terremotos – chamam atenção em meio às estreitas ruas de pedra. De acordo com os guias, a maior parte dos alicerces das casas é original dos tempos do Império Inca.

Entrando no sítio arqueológico, a arquitetura dos povos pré-colombianos novamente impressiona. Com os terraços agrícolas servindo como fortaleza, Ollantaytambo foi palco de uma das poucas vitórias dos incas sobre os espanhóis quando estes começaram a dizimar a população indígena no século 16. 

Fugindo de Hernando Pizarro, irmão de Francisco Pizarro, o líder Manco Inca usou os canais previamente construídos em Ollantaytambo para inundar o pé do morro e impedir que os espanhóis o alcançassem. A vitória durou pouco tempo, já que Pizarro retornou ao local com reforços, forçando nova fuga de Manco Inca.

A cada ruína, uma história 

O topo da fortaleza, onde está localizado o Templo do Sol, está separado da planície por altos degraus que exigem esforço renovado dos músculos ainda fragilizados. Cada parte de Ollantaytambo tem uma história para contar, desde as janelas acústicas até as casas de estocagem. Caso do Templo do Sol, que nunca foi terminado e cuja parede principal é formada por seis monólitos finamente polidos.

Depois de se perder pelas construções, é hora de começar a descer a montanha para voltar ao trem. O almoço ficou por conta da empresa, que preparou outra lancheira, que consumimos dentro da locomotiva da Peru Rail. O sacolejo do trem durante 1h30 proporciona um ótimo cochilo antes de chegar a Águas Calientes.

++ Há vários tipos e classes de trem para Águas Calientes. Entre os mais recentes lançamentos, o 360°, da Inca Rail, tem janelas maiores e teto de vidro para observar a paisagem; já o Belmond Andean Explorer liga Cuzco a Arequipa e Puno.

O povoado pitoresco está em franca expansão, a julgar pela quantidade de obras que cercam a rua da qual partem os ônibus para Machu Picchu. Perto do rio, um mercado de artesanato forma uma explosão de cores que encanta os turistas. O charmoso hotel Inkaterra, onde nos hospedamos, está a alguns metros da estação.

Ao todo, são 83 acomodações amplas e confortáveis, distribuídas em uma área com riacho e jardins de mata nativa – incluindo uma coleção de orquídeas com 372 espécies. É hora de relaxar – o momento pede descanso e Machu Picchu nos aguarda.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Dia 7 - Finalmente, a cidadela

A névoa das primeiras horas do dia preocupava. Será que daria para ver as ruínas? Durante o café da manhã, esse foi o receio geral. Afinal, depois de tantos dias com tempo perfeito, seria possível o grande final ficar nublado? Não ficou. 

Flavia Alemi, Cuzco

10 Abril 2018 | 04h25

Pegamos o ônibus às 7h30 e começamos a subir a montanha por uma estrada tortuosa. Em alguns momentos, era possível avistar os aventureiros que tentavam chegar para chegar até Machu Picchu por um dos caminhos incas que cruza a montanha de 2.400 metros de altitude. Chegamos às ruínas às 8h20 e o tempo não podia estar melhor. A neblina havia se dissipado, e as nuvens, pouco a pouco, abriam espaço para os raios de sol penetrarem as sombras de Machu Picchu.

Eleita como uma das sete maravilhas do mundo moderno, a cidadela teria sido descoberta em 1911 pelo pesquisador norte-americano Hiram Bingham. No entanto, um estudo conduzido pelo cartógrafo americano Paolo Greer aponta que o governo peruano já sabia da existência de Machu Picchu desde, pelo menos, 1887, e teria concedido ao engenheiro alemão Augusto R. Berns permissão para explorar a área (inclusive para retirar e vender quaisquer objetos de valor que fossem encontrados). Um tema controverso entre os guias locais.

As novas regras de visitação não permitem mais ficar na cidadela do amanhecer até o pôr do sol (leia mais abaixo). Portanto, quando entramos, tínhamos a parte da manhã para explorar as ruínas.

++  Para subir à montanha de Huayna Picchu – a mais alta, de onde se vê a cidadela –, é preciso fazer a reserva antecipadamente, na compra do ingresso para Machu Picchu. A entrada combinada custa 152 soles.

Raio X

Na entrada, conforme explicou Danny, o guia que liderou o grupo em Machu Picchu, ficava o exército inca, guardando a cidade. Logo abaixo concentravam-se as residências dos nobres e havia, ainda, um espaço para fábricas. Os incas dividiam a produção sazonalmente, reservando uma parte do ano para fabricar tecidos, outra para quebrar e polir pedras que seriam usadas nas construções, outra para produzir ferramentas. 

O setor mais importante é a zona sagrada, onde estão os espaços nos quais os incas realizavam diferentes rituais. É nesse ponto que está a pedra Intihuatana, espécie de relógio solar esculpido em uma única rocha. A crença dá conta de que Intihuatana emana uma força eletromagnética, pois estaria sobre o centro energético do Império Inca.

Depois de explorar cada canto da cidadela, ainda há a opção de subir além de visitar a Porta do Sol, a entrada oficial do complexo inca. Definitivamente, a joia peruana vale qualquer esforço – e é o melhor grand finale para a jornada.

Novas regras para visitar a cidadela

Com 1,4 milhão de visitantes em 2016, o governo do Peru anunciou mudanças nas regras de visitação a Machu Picchu no ano passado. O acesso passou a ser em dois turnos, das 6h ao meio-dia e do meio-dia às 17h30 – é possível comprar ingresso para o dia todo por um preço mais alto. Além disso, é obrigatório estar acompanhado de um guia (ou contratar um dos disponíveis na entrada). 

Apesar da aparente rigidez no controle do fluxo de pessoas em Machu Picchu, não avistamos cenas de fiscais expulsando visitantes. Também não havia uma gerência sobre os turistas que estivessem, aparentemente, desacompanhados de guias. No entanto, é altamente recomendável contratar um, para que ele explique os detalhes de Machu Picchu. Um guia privativo sai por cerca de US$ 50.  Os ingressos custam US$ 70 (um turno) ou US$ 125 (dois turnos). Site: machupicchu.gob.pe.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.