Sofia Patsch/Estadão
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Trilhos dourados: um trem de luxo pelas ferrovias da Índia

No país marcado por contrastes sociais, pela história e pela fé, embarcamos para um roteiro desde o Triângulo Dourado – com direito ao Taj Mahal, claro – até a vibrante Mumbai

Sofia Patsch, Délhi

29 Maio 2018 | 05h30

Viajar de trem era um sonho antigo, que nasceu do fascínio por filmes que mostravam pessoas bem vestidas entre vagões, vendo a vida passar pelas janelas. Em março, meu marido e eu embarcamos para uma viagem sobre trilhos pela Índia, de Délhi a Mumbai, a bordo do luxuoso trem Deccan Odissey.

A malha ferroviária indiana é uma das maiores do mundo, construída pelos britânicos durante a colonização. O trem é um meio de transporte muito comum no país – e, assim como o sistema de castas, é dividido em classes, da primeira à terceira. 

O trem de luxo no qual embarcamos faz seis rotas pelo país. Nosso roteiro teve duração de uma semana e passou pelo famoso circuito turístico conhecido como Triângulo Dourado, com Délhi, Agra e Jaipur nas pontas. Nele, pude ver e sentir as desigualdades que marcam a sociedade indiana. Enquanto apreciávamos um delicioso vinho no conforto de nossa suíte, víamos pela janela as mulheres que iam buscar água nas estações, crianças e animais passando com cargas, muita sujeira. Um cenário que transforma o trem de luxo em uma verdadeira bolha e me deu a certeza de que guardarei a experiência para sempre como um aprendizado. 

Dentro da bolha. Inspirado nas viagens dos aristocratas britânicos, o Deccan Odissey é um hotel cinco estrelas sobre trilhos. Nossa cabine ficava no vagão Bollywood. Era pequena, mas muito confortável, inclusive com água quente no banheiro. 

Tínhamos nosso próprio mordomo, Sanjay, que nos acordava cedo, às vezes às 5 horas da manhã, quando o passeio pedia. Ele estava sempre com um sorriso no rosto e café quente com bolachas na bandeja. No fim do dia, nos trazia uma taça de vinho tinto para relaxar. Também cuidava do que fosse necessário, como mandar as roupas sujas para a lavanderia e arrumar o quarto. 

O trem tem spa, com uma massagista tailandesa à disposição dos hóspedes, mediante pagamento à parte. Testei uma massagem relaxante e, mesmo com o balanço do trem, deu para ficar zen. Depois, fiz sauna. Ainda queria ter agendado pé e mão no salão de beleza, mas no dia a manicure estava de folga. O trem tem também uma pequena academia, com esteira, bicicleta e pesos, que não testei porque sempre preferia ir tomar vinho no vagão do bar.

As refeições eram feitas em dois restaurantes a bordo, um de comida tradicional indiana e outro de culinária continental. Ambos deliciosos. 

A cada parada para um passeio, éramos recebidos com um colar de flores tradicionalmente feito pelas mulheres indianas como oferenda aos deuses. Também pintavam o bindi – o famoso terceiro olho – em cada um dos turistas e apresentavam danças regionais. Depois, era só entrar no ônibus, onde havia água filtrada e petiscos. No caminho, um guia explicava a atração e contava curiosidades. Ingressos e refeições fora do trem eram parte do pacote. 

Na noite de despedida, todos ganhamos roupas indianas, sáris para as mulheres e kurta pajamas para os homens. Assim vestidos, participamos de uma festa no vagão do bar. 

A Índia não é fácil para estrangeiros. Falta saneamento e infraestrutura. Sobram cultura, tradição, fé. Um lugar intrigante, que convida à reflexão e a enxergar para além do caos, com a alma, sem julgamentos. 

Curiosidades

- A Índia é o país com a segunda maior população do mundo, atrás da China: mais de um bilhão de habitantes. Sozinho, o Estado de Uttar Pradesh, quinto mais populoso do planeta, tem o mesmo número de habitantes do Brasil

-  Mais de 70% da população vive em regiões agrícolas, muitas precárias. Mesmo assim, a economia da Índia deve chegar ao 5º lugar no mundo ainda este ano e ao 3º até 2032, segundo o Centro de Pesquisa de Economia e Negócios, uma consultoria de Londres

- Contra atentados, para entrar em restaurante, hotel ou atração, todos passam por detector de metal e scanner de bolsa

- Hinduísmo é a fé de mais de 80% da população, seguido de islamismo, cristianismo e sikhismo

- Bandeiras sinalizam se os templos estão ativos ou não. Se não há uma, não se trata de um local sagrado

- Cidades terminadas em “pur” foram fundadas por hindus. A terminação “abad” indica origem muçulmana

- Só beba água filtrada e, se possível, lacrada. Leve um lenço para cobrir os braços dentro dos templos

Como fazer este roteiro

Aéreo: Emirates (desde R$ 4.253; emirates.com/br), Ethiopian (R$ 4.450; ethiopianairlines.com) e Turkish (R$ 6.496; turkishairlines.com) voam SP-Délhi-SP, com uma parada.

 

Pacote: desde US$ 6.100 para uma pessoa, ou US$ 8.750, para duas; 7 noites, com refeições e passeios. Reserve em Deccan Odissey ou Cox&Kings.

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Sofia Patsch, Délhi

29 Maio 2018 | 05h09

É a capital da Índia e principal porta de entrada do país. A metrópole é poluída e caótica, antiga e moderna. Carros dividem espaço com tuk-tuks e animais nas ruas. O trânsito não tem muitas regras e o que impera é a buzina. Nosso motorista até comentou que dirigir na Índia é trabalho duro, por isso não aconselho nenhum turista a alugar seu próprio carro. Mas o metrô funciona e é um grande aliado para fugir do trânsito nos horários de pico. 

A cidade é dividida em Nova Délhi e Antiga Délhi. Na parte nova é onde estão a maior parte dos monumentos e vestígios de impérios passados. 

Nosso tour incluiu pontos importantes da cidade. A Qutab Minar, ou Torre da Vitória, que é patrimônio da Unesco e foi construída para estabelecer o poder do Islã e o início do domínio muçulmano na Índia. O túmulo de Humayun – o primeiro grande exemplo do estilo arquitetônico islâmico/hindu, que se tornou a marca da dinastia mongol no país. Índia Gate, o Portão da Índia, um memorial aos soldados que lutaram e morreram na 1.ª Guerra Mundial. 

E também os prédios que datam da época da invasão britânica, como a residência do Presidente, a Casa do Parlamento, sede do governo e as embaixadas, que ficam na área mais policiada e florida da cidade. 

Old Délhi, ou Antiga Délhi, é onde fica o maior mercado de especiarias da Ásia. Você vai reparar que muitas pessoas ali começam a tossir por causa do cheiro forte das pimentas. Local bem tradicional, com comércios que são passados de geração em geração. Não se pode entrar de carro, só de tuk-tuk ou moto. Os indianos têm o costume de andar em três ou mais em cima da mesma moto. Foi em Old Délhi que comecei a entender como é a cultura indiana. 

Antes de pegar o trem, passamos a noite no hotel The Oberoi, que fica em Gurgaon, uma cidade satélite mais moderna e industrial, com escritórios, arranha-céus e shoppings.

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Sofia Patsch, Sawai Madhopur

29 Maio 2018 | 05h08

Fizemos nossa primeira parada, no dia seguinte ao embarque, no Estado do Rajastão. Sawai Madhopur, conhecida como “cidade do tigre”, é o endereço do Parque Nacional Ranthambore, aonde fomos para um safári. O parque abriga espécies selvagens como crocodilos, leopardos e, claro, tigres – em dia de sorte, você talvez veja um deles relaxando ao sol ou caçando cervos. Infelizmente, não foi o nosso caso.

Visitamos as famílias que vivem nas fazendas da região, e que mantêm costumes de antigamente e se sustentam com o cultivo de goiabas. Um desses fazendeiros recebeu nosso grupo em sua propriedade e ofereceu o tradicional masala chai, chá feito de especiarias, que foi degustado em baixo de um pé de manga. 

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Sofia Patsch, Agra

29 Maio 2018 | 05h07

Taj Mahal é o epítome do turismo na Índia. Patrimônio da Unesco e uma das Sete Maravilhas do Mundo Moderno, é celebrado não só por sua magnificência arquitetônica, mas por ser o símbolo do amor eterno. 

Trata-se, na verdade, de um mausoléu, construído pelo imperador Shah Jahan entre 1631 e 1648 em memória de sua terceira esposa, Mumtaz Mahal. Quando Jahan morreu, em 1666, foi colocado ali, ao lado de sua amada, onde ambos repousam até hoje. 

Feito em mármore branco, foram necessários 22 anos e mais de 20.000 trabalhadores para completar a obra. Na entrada, é preciso colocar proteção nos calçados para não riscar o mármore delicado – mas é comum ver indianos andando descalços ali, mesmo com o sol abrasador. Vá cedo para evitar multidões.

É um lugar que transmite paz, com seus lindos jardins de cartão-postal – um contraste com o caos de vendedores na parte externa. Entrada a 1.000 rupias (R$ 53); clique no site oficial. Fechado ao público às sextas.

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Sofia Patsch, Jaipur

29 Maio 2018 | 05h06

É por causa da cor de suas construções que Jaipur, terceira parada no roteiro de trem, é conhecida como “cidade rosa”. Capital do Rajastão e uma das cidades mais pulsantes do Estado, abriga belos edifícios, incluindo o Palácio da Cidade, Amber Fort e o Hawa Mahal ou Palácio dos Ventos. O centro histórico está em obras por causa da construção do metrô, o que dificulta um pouco os deslocamentos. 

Os mercados são tentações para quem curte moda e compras. Artesãos exibem joias, pinturas, esculturas e tecidos. A marca de Jaipur são os tecidos com estampas fabricadas manualmente com carimbos de madeira, num método conhecido como block print, usado na Índia há mais de 300 anos. 

Uma dica: não aceite o primeiro preço. Indianos adoram negociar e baixam o valor para menos da metade, basta mostrar desinteresse. É bom trocar seus dólares por rupias indianas, pouquíssimos estabelecimentos aceitam dinheiro estrangeiro. 

Muitos turistas optam por subir até o Amber Fort em cima de elefantes. Os animais são meio de transporte na Índia há séculos e, na época dos marajás, quanto mais elefantes o exército tinha, mais poderoso ele era. Para evitar acidentes, no turismo os operadores dão preferência às fêmeas, mais calmas que os machos. 

Para quem se interessa por arte e cultura, visitar o museu do Palácio da Cidade é obrigatório. O local abriga uma vasta coleção de utensílios da família real de Jaipur. Podem ser vistos trajes que eram do rei, bordados com muito ouro e prata; antiguidades e artefatos de guerra; uma excelente coleção de pinturas em miniatura, tapetes e raros trabalhos astronômicos em árabe, persa, latim e sânscrito. Hoje o Palácio da Cidade é muito procurado para realização de casamentos. 

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Sofia Patsch, Udaipur

29 Maio 2018 | 05h05

A cidade, conhecida como Veneza do Oriente por causa de seus lagos, é a mais romântica e limpa que conhecemos em todo percurso. É lá que fica o maior complexo palaciano do Rajastão, segundo maior da Índia. 

O Palácio da Cidade é hoje um museu com vasta coleção de arte e arquitetura indianas. Lá também funciona um hotel de luxo que abriga a maior coleção de cristais do mundo. São 1.600 peças datadas de 1900, entre elas, uma cama de cristal – o guia afirmou que é a única feita com o material no mundo. 

Em frente fica o Lago Pichola, onde foi construído o Lake Palace, que era para onde o rei e sua família iam para passar os dias de verão. Hoje o local funciona como um hotel cinco-estrelas administrado pelo grupo Taj. 

Foi nesse mesmo lago que gravaram o filme 007 Contra Octopussy, em 1983. O ator Roger Moore foi o primeiro hóspede do hotel que fica dentro do Palácio da Cidade. O rei de Udaipur ainda mora na cidade e é um homem de negócios, administra 15 hotéis no Rajastão. 

Depois de conhecer o museu e a Galeria de Cristal, pegamos uma balsa para almoçar na ilha de Jag Mandir, um palácio do século 17 que era usado para festas e comemorações reais. Hoje funciona como restaurante e continua sendo usado para festas. O local é muito procurado para casamentos de indianos endinheirados. 

Uma curiosidade: quando vai acontecer um casamento na cidade, as pessoas pintam as fachadas de suas casas com desenhos típicos indianos, como o símbolo de Ganesha, que significa boa sorte. A cultura hindu diz que o deus ajuda a remover obstáculos do caminho. Por isso Ganesha é sempre o primeiro convidado dos casamentos. 

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Sofia Patsch, Vodadora

29 Maio 2018 | 05h04

A cidade fica no estado de Gujarate, região da Índia onde nasceu Mahatma Gandhi e também o atual primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, empossado em 26 de maio de 2014. 

Aqui visitamos o Parque Arqueológico Champaner-Pavagadh, patrimônio da Unesco. É a única cidade islâmica pré-mongol que continua completa e inalterada. É no parque que se encontra a Jama Masjid, mesquita que data de 1513. Sua construção foi realizada ao longo de 25 anos e é um dos monumentos mais notáveis construídos pelo sultão Mahmud Begada. Está em ótimo estado de conservação. 

Almoçamos no trem e fomos tomar um autêntico chai indiano no belo Laxmi Vilas Palace. 

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Sofia Patsch, Aurangabad

29 Maio 2018 | 05h04

Saímos cedo do trem, às 6h30 da manhã, e entramos no ônibus para um percurso de quilômetros até Ellora Caves, as incríveis cavernas artificiais esculpidas por monges budistas, hindus e jainistas ao longo de cinco séculos. São 34 cavernas que funcionavam como mosteiros, capelas e templos. Além da antiga arquitetura indiana, o que impressiona no conjunto são as belas esculturas que decoram os locais, notavelmente detalhadas.

A mais impressionante das cavernas é Kailasa Temple, templo dedicado à divindade Shiva. É a maior escultura monolítica do mundo, escavada de cima a baixo contra uma encosta rochosa. Foram precisos mais de 7.000 homens para moldar a estrutura em um período de 150 anos. 

Na entrada do parque arqueológico existe bastante comércio. Tentam vender de tudo, desde colares de pedras até bananas para dar aos macacos, que são numerosos e ficam espalhados pelo local. Os animais, inclusive, viram uma atração à parte. 

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Sofia Patsch, Mumbai

29 Maio 2018 | 05h03

Chegamos em um fim de tarde à capital financeira da Índia, uma metrópole de mais de 20 milhões de habitantes, quando o sol estava se pondo no mar. Mumbai é a cidade indiana mais ocidental deste roteiro, com muita arquitetura britânica, herança dos ingleses que lá viveram.

Com bons restaurantes e grandes hotéis, foi uma pena que tivemos tão pouco tempo na cidade. Nos hospedamos no Trident Hotel, que fica de frente para a orla. O calçadão chega a lembrar algumas cidades litorâneas brasileiras, mas com outra atmosfera. As pessoas frequentam a praia artificial, construída pelos britânicos, mas ninguém se arrisca a entrar no mar, por causa da poluição. 

Do nosso hotel dava para ir a pé até a Colaba Causeway, ótimo lugar para compras. Ali dá para achar de tudo, desde souvenirs indianos até finas pashminas nas lojas mais chiques. Só tem que tomar cuidado com o assédio dos vendedores e sempre lembrar de barganhar. 

À noite fomos encontrar um amigo indiano que nos levou para jantar em um gostoso restaurante japonês no bairro chamado Bandra, conhecido como bairro dos artistas. Uma região jovem e descolada, mas um pouco longe do centro. Tivemos que pegar um típico táxi de Mumbai, decorado com motivos indianos. Para fechar a noite, fomos tomar cerveja em um pub inglês, mais uma herança e um hábito deixados pelos britânicos. 

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