Marco Garcia/NYT
Marco Garcia/NYT

Turismo científico: destinos para viajar no cosmos

Em lugares onde altitude e clima proporcionam condições ideias para olhar o céu e as estrelas, telescópios são o foco da atenção dos turistas

Peter Kujawinski, The New York TImes

20 Novembro 2018 | 03h50

SAN PEDRO DE ATACAMA - Depois de horas de solavancos em aviões e ônibus, finalmente deparei com um imenso céu noturno. Minha jornada parecia ter me levado para o espaço interestelar, e não ao platô do deserto do Atacama, no Chile. 

Foi a primeira de uma série de visitas a observatórios de astronomia no Chile, Los Angeles e Havaí. Projetados para uso profissional ou para o público em geral, esses observatórios nutrem as explorações do cosmos pela humanidade. Provocam admiração e descobertas.

No Atacama, nosso grupo passou quase cinco horas com os olhos fixos no céu noturno. Este é o deserto mais seco do mundo. A combinação de aridez, grande altitude e baixa população resulta em condições excepcionais de observação. 

San Pedro de Atacama oferece diversos tours para ver o céu à noite, mas esta área não é apenas para amadores. O Chile, especialmente o Atacama, abriga 70% dos observatórios astronômicos profissionais do mundo, se incluirmos os enormes em construção como o Telescópio Gigante de Magalhães.

Eu queria visitar o Alma (Atacama Large Millimeter Array). Projetado por um consórcio internacional de países, o Alma é “o mais complexo observatório astronômico já construído na terra”, segundo o National Radio Astronomy Observatory, dos Estados Unidos.

A ambição e a escala do observatório Alma fazem dele um local popular entre turistas apaixonados pelo céu. É difícil fazer uma reserva, embora o isolamento do local colabore com o viajante de última hora. Todos os sábados e domingos, um ônibus sai de San Pedro de Atacama e leva turistas para visitarem a base de apoio das operações do Alma, no deserto, a meia hora de distância. Apesar de os bilhetes grátis esgotarem com meses de antecedência, as pessoas que não possuem reservas chegam assim mesmo no ponto de ônibus e com frequência são recompensadas.

O observatório fica quase 3,2 quilômetros acima do nível do mar. A sensação é de uma colônia espacial, talvez por causa da sua limpeza e seu terreno desfavorável. Ou por causa das condições extremas do ambiente. As temperaturas na região congelam à noite e assam durante o dia.

Visitamos o campo base, o centro de controle, e Otto, um dos dois transportadores de antenas. Imagine uma fábrica de ferramentas em Marte – é essa a ideia. A sala de controle, operada 24 horas por dia, tem um ambiente que não combina com o custo de US$ 1,4 bilhão da instalação. Nada mais do que algumas mesas e cadeiras, muitos computadores e um único umidificador que é o modelo exato daquele que tenho no quarto dos meus filhos. 

A pesquisa do Alma é tão complexa quanto é simples sua motivação. Basicamente o objetivo do observatório é buscar as razões pelas quais nós somos seres humanos em vez de nebulosas flutuando no vazio. Por exemplo, o observatório achou uma forma simples de açúcar no gás que envolve uma estrela jovem, demonstrando que algumas das bases químicas da vida na Terra também existem em galáxias distantes. 

Próximas observações

Naturalmente, descobertas como essa só levam a mais perguntas. Para respondê-las, é preciso continuar construindo telescópios mais avançados. Mais ao sul do Atacama, o Telescópio Gigante de Magalhães (Giant Magellan Telescope) é um dos dois megaobservatórios em construção no Chile, ao lado do Telescópio Extremamente Grande (Extremely Large Telescope). Estes dois observatórios pertencem a uma nova geração que poderá analisar planetas com potencial de vida a anos luz de distância. Segundo os astrônomos, entrarão em operação em 2024. 

Quando retornei a Santiago, olhando da janela do avião e vendo o vasto tapete marrom do Atacama embaixo, pensei na minha situação com uma estranha clareza: eu era uma coleção de átomos reunidos dentro do tubo metálico de um avião. Pensamentos como este não me ocorriam antes de visitar Alma.

Nos Estados Unidos

Em Los Angeles visitei um dos mais importantes observatórios do mundo – o Griffith Observatory, construído em 1935. Frequentemente mostrado em filmes e programas de TV, e conhecido pela participação no filme La La Land (2016), recebe um número cada vez maior de visitantes em seu icônico edifício com vista para o skyline da cidade. A entrada é grátis – o turismo científico geralmente não pesa no bolso. 

Visitei o Griffith Observatory à noite. Esperamos mais de uma hora pelo funcionamento do telescópio Zeiss, com uma fila de interessados em ver de perto a lua, planetas e estrelas. 

Me perguntei se a multidão no Griffith era culpa de Hollywood. Mas outros locais voltados à astronomia também andam lotados. Como ficou comprovado, quando segui para o Havaí para visitar Mauna Kea, um dos grandes centros de astronomia do mundo. 

A recepção a visitantes fica ao lado do vulcão adormecido. Há um campo de pesquisa para profissionais no topo, e um centro aberto ao público. 

Quatro noites por semana um grupo heterogêneo de funcionários e voluntários gira os telescópios para qualquer pessoa que queira ver. As pessoas chegam de carro horas antes porque o estacionamento lota antes das 7 horas da manhã; as filas são longas. Centenas de pessoas aguardam bebendo chocolate quente, à espera de ver Júpiter e a Estrela do Norte. Ao mesmo tempo, muita gente sobe a colina ao lado para ver os últimos raios do sol se pondo. Vá preparado: faz muito frio. No inverno, a neve cobre o pico enquanto veranistas desfrutam do clima tropical no nível do oceano.

No pico de Mauna Kea, a 4.200 metros de altitude, há 13 telescópios de propriedade de diversos países e universidades. Carros com tração nas quatro rodas conseguem chegar ao topo. Foi o que fizemos no final da viagem. Era o meio do dia, mas parecia noite.

Viajamos através de nuvens, a chuva batendo no para-brisa do carro e temperatura de 13 graus. Embora já sentisse a falta de oxigênio na estação que recebe os visitantes, a mudança de fato foi sentida no pico, onde há 40% menos de oxigênio do que no nível do mar. 

Fomos a pé até o Lago Waiau, bem no alto, com água azul em intenso contraste com o sol ardente. Depois de semanas imersos na astronomia, foi suficiente chegar ao topo da montanha, ver as cúpulas se destacando no profundo céu azul e lembrar das palavras do astrônomo Carl Sagan: “Partículas de estrelas meditando sobre as estrelas”.

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Outras opções pelo mundo

África do Sul: o Observatório Astronômico da África do Sul (SAAO) tem uma unidade nos arredores da Cidade do Cabo, aberta ao público todo segundo e quarto sábado do mês, às 20h – é só chegar. Mas o passeio definitivo para quem gosta de olhar o céu está a 4 horas, na cidadezinha de Sutherland. O local foi escolhido pelas condições climáticas, que permitem a observação desimpedida e espetacular das estrelas, e lá está Salt (South African Large Telescope, ou Grande Telescópio da África do Sul). Visitas custam 80 rands (R$ 20) e são agendadas.  

 

Ilhas Canárias: na ilha de La Palma, nas Canárias, o observatório de Roque de los Muchachos está a 2.400 metros acima do nível do mar. Visitas são feitas em pequenos grupos e devem ser agendadas. O Instituto de Astrofísica das Canárias também tem o observatório Teide, em Santa Cruz de Tenerife, com visitas anunciadas periodicamente no site. Datas e preços dos ingressos, para ambas as visitas, deve ser consultado por e-mail: teide@iac.es. / Colaborou Mônica Nobrega

 

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