Walter Wlodarczyk/NYC & Company
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Turismo da vacina: que países, quanto custa e mais dúvidas sobre o tema

Brasileiros buscam imunização em Nova York e na Flórida, após quarentena no México. Viagem aos Estados Unidos em busca de vacina é criticada por questões éticas

Nathalia Molina, Especial para o Estadão

24 de maio de 2021 | 05h00

Nova York, Orlando e Miami sempre estiveram entre os destinos preferidos dos brasileiros nos Estados Unidos. As três cidades americanas ganharam agora um atrativo a mais: a vacina contra a covid-19. Após a divulgação da notícia, o buscador Kayak registrou alta de até 719% na procura por voos para essas cidades em maio, em relação a abril. O turismo da vacina, como vem sendo chamado no mundo, já deu origem até a produtos no Brasil criados especificamente para isso.

Formatado pela BWT, operadora com quase 2 mil agências credenciadas em todo o País para venderem seus pacotes, o pacote de 20 dias custa a partir de US$ 2.799 (cerca de R$ 15 mil) por pessoa, com passagem aérea e hospedagem no México e nos Estados Unidos. “Desde maio de 2020, a gente já customizava as viagens de 20 dias, com 15 dias de quarentena em Cancún. Mas, com o boom dessa notícia de vacinação em Nova York e na Flórida, a gente recebeu tanta demanda que formatou um pacote e já teve fechamento de venda nesta semana”, afirma Gabriel Cordeiro Strobel, gerente geral na BWT.. Antes da pandemia, Estados Unidos e México respondiam por mais da metade do volume de vendas de viagens internacionais da empresa.

Segundo Simone Mariote, vice-presidente para a América Latina da Preferred Hotels, selo global de hotelaria de luxo, os empreendimentos de Miami estão fazendo campanhas para brasileiros, argentinos e peruanos, entre outros viajantes latinos. “Eu estive na semana passada num hotel Preferred que tem shutle para o Aventura Mall, onde os estrangeiros podem tomar vacina”, conta Simone. “Eles estão realmente promovendo o turismo de vacina, e o resultado tem sido bem promissor. A gente está com bastante solicitação para Miami e Nova York também. É uma tendência e, se a fronteira americana finalmente abrir no meio do ano, a gente vai ter um número considerável de brasileiros viajando para tomar a vacina.”

Por enquanto, os viajantes daqui têm de permanecer 14 dias em outro destino fora da lista americana de bloqueio sanitário, antes de voar para os Estados Unidos. “O pessoal fica 15 dias nesses destinos e depois vai para Miami ou Nova York porque são os lugares onde eles não estão pedindo comprovação de residência”, diz Roberto Haro Nedelciu, presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa).

Assim como o passaporte de vacina (possível apresentação de imunização para conseguir entrar em alguns países, como os da União Europeia), o turismo da vacina também recebe críticas pela questão ética por beneficiar quem tem dinheiro, que conseguiria ser imunizado antes de pessoas que precisariam da vacina para ter mais chances contra a covid-19. Tire essa e outras dúvidas sobre o assunto:

1. Em que destinos o turismo da vacina vem sendo mais comum?

Brasileiros têm ido aos Estados Unidos em busca da imunização. Hotéis de luxo como os da rede Four Seasons em Nova York já percebem aumento de hóspedes do Brasil desde a divulgação do turismo da vacina, especialmente depois da declaração do prefeito da cidade, Bill de Blasio, de que ofereceria o imunizante em pontos turísticos.

Ao lado de Orlando e Miami, essas já eram os destinos muito procurados por viajantes brasileiros. Mas, mesmo durante a pandemia, foram cidades que apresentaram novidades no setor de viagens. Em abril, o buscador Kayak inaugurou seu primeiro hotel, em Miami Beach.

Outros destinos, como Cuba com a sua Soberana, também são lembrados quando o assunto é turismo da vacina, mas a ilha já divulgou que doaria doses para países sem recursos. “A Rússia está vacinando com a Sputnik sem burocracia, mas tem de ficar lá pelo menos três semanas”, explica Roberto Haro Nedelciu, presidente da Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa). Na Romênia, segundo ele, quem vai ao Castelo do Drácula toma a Sputnik e visita a atração de graça.

“Tem também as Maldivas. Estive lá agora e eles vão vacinar depois que atingirem 70% da população vacinada. Eles querem usar a vacinação como um marketing para atrair turismo, que é 90% da economia das Maldivas. Eles vão usar o plano 3V: visit, vaccine e vacation (visita, vacina e férias)”, diz Nedelciu.

2. Que países vêm sendo destino de quarentena antes dos Estados Unidos?

Os brasileiros têm de permanecer 14 dias em outro país fora da lista americana de bloqueio sanitário, antes de voar para os Estados Unidos. Segundo Nedelciu, o México é o país mais procurado por brasileiros para essa parada antes de seguir viagem, mas outros também aparecem nos roteiros, caso de Panamá, República Dominicana, Costa Rica e Anguilla. Resorts na mexicana Cancún, como os da rede Palladium, estão nos pacotes da BWT.

De acordo com Simone, da Preferred, a notícia de imunização para visitantes em destinos americanos aqueceu as reservas. “A gente tem visto aumentar o número de brasileiros que viajam para o México para fazer quarentena. Muito deles acabam trocando de hotel para curtir dois ou três diferentes”, conta.

3. Que documentos e outras vacinas são exigidos?

Um detalhe óbvio, mas que não custa lembrar: é preciso ter visto americano válido. O viajante também deve estar atento a uma possível exigência de imunização no destino de parada. “O México não exige a vacinação de febre amarela. Alguns países da América Central, sim, caso do Panamá. A vacina de febre amarela tem de ser tomada dez dias antes do embarque”, diz o infectologista Jessé Reis Alves, do ambulatório de Medicina do Viajante do Hospital Emílio Ribas.

4. E se o viajante testar positivo ao longo da roteiro?

Strobel, da BWT Operadora, ressalta que o passageiro tem de estar ciente da possibilidade de prorrogação da viagem, caso teste positivo para covid-19 em alguma das etapas. “No México, o viajante faz um teste antígeno ou PCR porque os Estados Unidos aceitam os dois. Se a pessoa contraiu a doença lá, tem de ter tempo disponível para ficar de quarentena”, explica. “Depois, o passageiro faz um PCR dois dias antes da voltar para o Brasil. Caso dê positivo, precisa prorrogar a viagem.”

5. Quanto custa o pacote para ir aos Estados Unidos em busca de vacina?

“Com 15 dias de hotel no México, sem ser all inclusive, mais cinco dias em Nova York e passagem aérea via Panamá, dá em torno de R$ 20 mil de preço mínimo”, afirma Nedelciu, da Braztoa. Segundo ele, a maior parte dos brasileiros que vêm embarcando têm um alto poder aquisitivo. “São pessoas de mais idade que já se vacinaram e querem vacinar os filhos com 30 anos ou menos. E tem casos extremos, que a gente fica sabendo por operadores, como o de um avião fretado para 16 pessoas da mesma família irem ao México e aos Estados Unidos.”

6. Que outras despesas o viajante deve considerar?

Além do valor do pacote, é preciso levar em conta gastos com alimentação, transporte e exames obrigatórios. Se a pessoa testar positivo para covid-19 no exterior, o custo sobe em decorrência de diárias extras de hotel, refeições e possíveis diferenças tarifárias nos trechos aéreos (caso a passagem esteja mais cara na nova data em relação ao voo inicialmente comprado).

Para esses casos, resorts luxuosos do México criaram uma oferta para garantir a hospedagem sem despesa adicional. “A gente tem hotéis que oferecem ao cliente a garantia de que, se o PCR der positivo, ele tem 14 noites gratuitas, numa ala separada, com todo o conforto e comida incluída”, diz Simone, da Preferred.

7. Em Nova York e na Flórida, onde os viajantes estão sendo vacinados?

Nedelciu, da Braztoa, afirma que passageiros brasileiros já foram imunizados em lugares turísticos de Nova York, como Empire State Building, Times Square, Brooklin e Central Park. “As lojas da Publix e as farmácias da CVS também estão vacinando”, diz o presidente da Braztoa. Segundo Strobel, da BWT, o pacote da operadora tem Miami como destino final, onde um funcionário recebe o viajante no aeroporto. “Ele leva o passageiro até a farmácia para tomar a vacina. O agendamento é feito antes pelo site.”

8. O viajante com certeza consegue ser imunizado?

Tanto Nedelciu quanto Strobel ressaltam que não há nenhuma garantia. “Turismo da vacina nem é um nome correto porque ela não é um produto que a gente possa comercializar. Nas viagens aos Estados Unidos, a vacinação acaba sendo um dos desejos desse viajante, mas gosto de reforçar que oficialmente não há plano, norma ou regra que fale disso. “Busquei informação sobre a vacina em Nova York, mas não consegui identificar como está sendo feito esse procedimento. Lá é a vacina da Janssen, que tem uma efetividade atribuída não tão alta quanto a da Pfizer e da Moderna, que estão sendo administradas nos Estados Unidos, mas tem a vantagem de ser de dose única. Entretanto, eu não achei nada que informasse definitivamente se esse indivíduo vai ser vacinado”, diz Alves, médico do Emílio Ribas.

9. Por que há críticas ao turismo de vacina?

Assim como o passaporte de vacina (possível exigência de comprovação de imunização para entrar em alguns países, como os da União Europeia), o turismo da vacina recebe críticas pela questão ética. “É complexo, é um tema que precisa ter uma abordagem múltipla. Eu sou bastante favorável à publicação da OMS (Organização Mundial da Saúde), que faz uma análise ética e também científica. Aquelas pessoas que têm dinheiro conseguem se vacinar antes da própria população do local. Você gera algum tipo de privilégio num momento de pandemia, em que isso realmente não poderia ocorrer”, afirma o infectologista.

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