Braziliando
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Turismo indígena pelo computador, de tour a programação cultural

Braziliando mostra ao vivo comunidade na Amazônia, e Terra Nativa apresenta aldeia na cidade de São Paulo. Confira ainda música, foto e artesanato

Nathalia Molina, Especial para o Estadão

14 de maio de 2021 | 15h00

Na minha bagagem para a viagem virtual até o povo Baré, na Amazônia, eu levava muita curiosidade e, devo admitir, certa apreensão. Alguma pergunta seria inadequada? Por onde começar a descobrir aquele mundo tão distante do meu, de mulher branca e urbana até o último fio dos meus cabelos pintados? Aquele batido aposto dos livros de História do colégio nos anos 1980 – “índios, os primeiros habitantes do Brasil” – já havia caído por terra, no entanto, meu contato com os povos indígenas não passava de leituras e programas vistos já durante a pandemia.

Ciente da minha ignorância, decidi ser gentil comigo. Aceitei embarcar na Conexão Baré, vivência ao vivo com uma comunidade na Amazônia proposta pela Braziliando. Essa é uma das experiências de viagem com os primeiros povos do País possíveis de serem realizadas sem sair de casa. Nem pense naquela visão de índios de cocar, seminus, dançando em roda com o corpo pintado. A proposta é conhecer os indígenas, os atuais habitantes do Brasil, afinal.

“A viagem presencial tem um público específico. Não é todo mundo que está disposto a ficar hospedado na comunidade. Acredito muito que o online pode ser um início de despertar e ainda permite a participação de deficientes visuais e pessoas com dificuldade de locomoção”, afirma Ana Taranto, que fundou a Braziliando com a mãe, Tereza, após uma viagem das duas juntas ao Norte do País.

As iniciativas a distância dão visibilidade ao turismo comunitário em terra indígena e ajudam a contribuir neste momento, quando a visita presencial ainda não é recomendada. E a ideia é seguir com o tour virtual mesmo quando acabar a pandemia. De agosto de 2020 até 13 de maio deste ano, a Braziliando realizou dez viagens online com 170 pessoas, gerando em torno de R$ 7 mil em renda para a comunidade na Amazônia.

Negócio de impacto social, antes da pandemia, a empresa levava viajantes até a Comunidade Indígena Nova Esperança, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Puranga Conquista, uma unidade de conservação gerida pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema). Embora fique nos arredores de Manaus, a aldeia está distante 2h30 de voadeira (embarcação rápida) ou entre 6 e 11 horas de recreio (barco de linha de transporte dos locais).

Guarani dentro da cidade de São Paulo

Acostumada a levar turmas de alunos a incursões de turismo pedagógico em São Paulo, ao longo dos últimos 20 anos, a Terra Nativa também buscou um meio de transportar a vivência em campo para a tela. A operadora criou uma expedição virtual à Tenondé Porã, terra Guarani no extremo sul da capital paulista. “A gente gosta de conversar com o passageiro, para conhecer a experiência dele com o assunto e construir em cima. Vai depender muito do público, se a gente falar mais sobre demarcação de terra, artesanato ou culinária”, explica Paulin Talaska, proprietária da Terra Nativa. “A ideia é que se possa visitar no futuro, conversar com essas pessoas, retomar o programa de turismo que fez com essa aldeia também se mantivesse no lugar.”

Assim como nos programas criados sobre a Ilha do Cardoso e a história do café, a previsão é continuar com as expedições virtuais depois da pandemia para que o viajante já vá ao lugar com algum conhecimento prévio e possa aprofundá-lo presencialmente. Em 2020, uma das escolas parceiras da Terra Nativa organizou a venda de artesanato da comunidade por um perfil de Instagram. O movimento, encerrado em janeiro deste ano, rendeu R$ 1.451 aos Guaranis pela venda de 30 produtos.

Como são as experiências online com comunidades

As duas iniciativas virtuais são bem diferentes e, de certo modo, até complementares. A Conexão Baré é ao vivo; você interage, faz perguntas aos indígenas sobre costumes e tradições. Com preço sugerido de R$ 150 por pessoa (quem pode colabora com R$ 200), a vivência da Braziliando leva umas 2h30. Formada em Administração com MBA em Marketing, Ana usou sua experiência profissional também para estruturar o material enviado aos viajantes, com conteúdo relevante e visual caprichado. Durante o pré-embarque, período de três dias anteriores à vivência ao vivo, a imersão do grupo já começa, por meio de quiz e sugestões de playlists de músicas e vídeos.

Na Terra Nativa, o guia se mantém conectado online com o viajante virtual, enquanto exibe uma gravação feita com a comunidade, com pausas para perguntas e interações sobre a questão indígena. Também é abordado no vídeo o Nhandereko, estilo e filosofia de vida dos Guarani, integrados à natureza e alinhados com uma concepção mais universal. Dura em média 1h30 e custa R$ 69 por pessoa – é indicada a participação de 6 a 10 pessoas para estimular o debate.

Matan Ankava, que me apresentou virtualmente o território Guarani pela Terra Nativa, comentou que a maioria das pessoas não pensa em indígena morando na metrópole, só na Amazônia. “A linha Azul do Metrô liga o Tucuruvi ao Jabaquara. Na Cantareira e na zona sul, São Paulo ainda é delimitada por terras indígenas”, lembra. Formado em História, ele fez mestrado sobre o processo de modernização da capital paulista. “O indígena está com iPhone do século 21, não é aquele que morreu com a chegada dos portugueses, e a gente é muito diferente dos bandeirantes, inclusive porque a gente toma banho, uma coisa que aprendeu com os índios.”

Nas duas viagens online, a dificuldade de acesso físico dá lugar a outro tipo de perrengue, o tecnológico. O viajante está sempre sujeito a quedas de sinal. Na Conexão Baré, vi sem nitidez o trajeto percorrido pela biblioteca com seus grafismos, pela oficina do grupo de artesanato Surisawa Muraki, pela escola onde o nheengatu é ensinado ao lado do português e pelo lugar de preparo da salada de cubiu (parece um tomate amarelo) com chibé de farinha (prato em que ela é hidratada com água). Natural, e tudo previamente avisado pela Braziliando. A internet na comunidade amazônica é via satélite, então o clima chuvoso causa interferências.

“A gente sabe que a internet não é muito boa. Porém, a gente entende que essa interação em tempo real é muito valiosa”, diz Ana. Para compensar as instabilidades, ela rapidamente põe na tela fotos ou vídeos do que está sendo comentado ao vivo pelos integrantes da comunidade.

Desde outubro de 2020, a Braziliando toca também um programa de voluntariado online, para ensinar inglês a uma comunidade da etnia Kambeba. A empresa tem ainda planos de organizar uma Conexão Baré só para crianças e de expandir seu tour virtual a outras comunidades.

“As 170 pessoas que participaram das viagens online estão animadas e dispostas a passar por essa vivência em outros destinos também. É uma forma mais sustentável de seguir realizando as viagens online, sem sobrecarregar a comunidade Baré”, diz a fundadora da Braziliando. Ela lembra que há outros indígenas, além de quilombolas, caiçaras e uma variedade cultural grande no exterior também. A empresa está em contato com duas comunidades na Ásia e uma do México para possivelmente fazer algo juntos.

Para querer visitar depois as aldeias

“Acho excelente que as expedições virtuais estejam acontecendo. É um primeiro contato para despertar o interesse. A grande diferença que essas iniciativas podem fazer é em divulgação e que isso possa trazer futuros visitantes. Recomendo que as pessoas busquem depois organizações indígenas e parceiros para apoiá-los na retomada do turismo”, diz a antropóloga Camila Barra, que trabalha com a ONG Garupa.

Na Amazônia, ela indica que os viajantes busquem informações sobre roteiros presenciais no futuro em entidades como a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) e parceiros, caso da própria Garupa e do Instituto Socioambiental (ISA).

Camila acredita que apoiar e participar é muito importante, mas como uma solução temporária. “A vivência ao vivo é outra coisa: experimentar dormir na rede, percorrer o território com as pessoas de lá, comer sentado embaixo do telhado de palha ouvindo os conhecimentos. E para eles são dias de festa. Também estão ansiosos para tudo voltar. Nessas experiências, a conexão é de ambos”, afirma a antropóloga, que ajudou a formatar o roteiro Serras Guerreiras de Tapuruquara. “Com o recurso que o visitante leva para essa comunidade, eles fazem frente ao garimpo e à extração de madeira ilegal.”

A iniciativa rendeu ao líder Marivelton Baré o prêmio The Vanity Fair Changing Your Mind Travel Awards 2021, da publicação americana da editora Condé Nast sobre moda, cultura pop e comportamento. De turismo comunitário, o roteiro foi desenhado no território indígena no Médio Rio Negro, mas aguarda o fim da pandemia para se tornar realidade. A Terra Nativa estava se preparando para levar viajantes para lá em 2020, antes da pandemia.

“As comunidades no Médio Rio Negro estão amplamente vacinadas, mas estamos em busca de captar recursos para ir até lá para ajudá-los na construção do protocolos para a retomada”, conta Camila. Enquanto isso, para apoiar 23 etnias da Amazônia, é possível fazer doações na página noscuidamos.foirn.org.br.

O Serras Guerreiras de Tapuruquara envolve cinco comunidades, com quase 500 pessoas, das etnias Baré, Baniwa, Piratapuya, Desana, Tukano, Tariana, Dow e Kuyawí. Segundo Camila, a ONG Garupa chegou a pensar em montar uma experiência virtual durante a pandemia, em que o participante recebesse em casa um kit em parceria com a Casa Wariró (do Rio Negro) ou com a GaleriAmazônica (de Manaus) – veja abaixo as duas entre as dicas de compra de artesanato indígena. A ideia não foi adiante por falta de verba.

Vivência online sobre espiritualidade e educação nas aldeias

Artista plástica e nutricionista, We’e’ena Tikuna é neta de pajé. Para oferecer uma imersão na cultura do seu povo, da região paraense de Alter do Chão, ela organizou uma vivência online indígena (R$ 497). Nos cinco encontros virtuais ao vivo, fala de música, espiritualidade e pintura. We’e’ena também faz peças de moda indígena e bonecas de pano (leia abaixo) e diz que doa 30% do que ganha não só para os Tikuna, mas para outras etnias também.

“A vivência é para a pessoa se conectar com a própria essência. Começo com a espiritualidade e abro uma experiência para quem quer se aprofundar na sabedoria contada a partir dos povos indígenas, sobre os grafismos, a alimentação e a educação nas aldeias”, conta. “A gente faz a diferença como indígena urbano para matar todo esse preconceito contra nós. A tecnologia está aí como uma forma de arma, de poder. Hoje, por causa da pandemia, tudo está sendo mais visto”, acredita.

Visita 360 graus a uma aldeia e programa em streaming

Lançado em 19 de abril (Dia do Índio) deste ano, o projeto Aldeia360 funciona como uma visita virtual de museu, na qual você descobre conteúdos conforme clica em diferentes direções. Um mapa apoia a experiência gratuita. Como o nome entrega, ela traz a visão 360 graus da Tekoa Itakupe, aldeia do povo Guarani Mbya, na região do Pico do Jaraguá, na capital paulista. Uma realização da Claque Produções, em parceria com a Triarts New Media e o artista Dinas Miguel, a imersão online foi possível pelo Prêmio Aldir Blanc de Apoio à Cultura na Cidade de São Paulo, em edital da Secretaria Municipal de Cultura. O projeto prevê continuidade e expansão para outras aldeias.

Na plataforma de streaming Tamanduá, é possível assistir a nove produções que tratam de etnias de todo o Brasil, entre elas, Piripkura que conta a história de dois índios nômades desse povo, que vivem cercados por fazendas e madeireiros.

Festival e bate-papo sobre música indígena

O contato online com as comunidades indígenas do Brasil pode seguir também pelas expressões de sua cultura. De 18 a 23 de maio, às 20 horas, o Nhandereko – Festival de Música Indígena de São Paulo ecoa cantos de cinco aldeias Guarani no Estado. A transmissão será pelo YouTube do músico e produtor Emerson Boy, que há 17 anos pensava em realizar o projeto, possível agora pela Lei Aldir Blanc.

Ainda sobre música indígena, o Sesc Digital promove um bate-papo sobre a conexão entre tradição e contemporaneidade. Em 29 de maio, das 16 horas às 17h30, no YouTube e no Facebook do Sesc 24 de maio, esse é o tema do encontro entre Renata Tupinambá (uma das fundadoras da Rádio Yandê) e Magda Pucci (diretora musical e criadora do grupo Mawaca, que pesquisa músicas de povos de várias partes do mundo, incluindo indígenas do Brasil).

Exposição virtual de fotos com pajés e artesãos

O cinegrafista e fotógrafo indígena Paulo Desana acredita que todas essas maneiras de interação ajudam as pessoas a perceber a cultura dos povos indígenas. Em busca de representar a força dos antepassados que pinturas corporais e artefatos como cestos carregam, o artista usou tinta néon para capturar as imagens da série Pamürimasa (Os Espíritos da Transformação), na qual fotografa pajés e artesãos do Alto Rio Negro. O projeto está na exposição coletiva Desmanche, em cartaz no site do Centro Cultural Vale Maranhão, com 11 artistas brasileiros no total.

“Os trabalhos fotográficos que fazem com os parentes indígenas pelo Brasil são lindos, mas eu sentia falta de algo forte que pudesse mostrar a ancestralidade. Pesquisando na internet para outro projeto, vi em um anúncio sobre tinta para festas de Halloween que as fotos ficavam brilhantes, que os efeitos luminescentes geravam imagens intensas e coloridas, então pensei que isso daria a experiência sensorial e artística.”

Onde comprar artesanato indígena

Outra forma de contribuir com a manutenção da cultura e a geração de renda para os povos indígenas, é comprar peças de artesanato feitas pelas etnias:

Colares e botos da Conexão Baré

No tour ao vivo da Braziliando, artesãos mostram sementes e explicam como tecem a palha, por exemplo. Os trabalhos da comunidade na Amazônia incluem também peças de madeira, em formato de botos e arraias, e estão à venda no Instagram @surisawa__muraki.

Artesanato da terra indígena Tenondé Porã

Acesse tenondepora.org.br para entrar em contato para a compra de artesanato da terra indígena no extremo sul da cidade de São Paulo. As experiências descritas no site ainda não estão sendo realizadas devido à pandemia.

Moda e bonecas Tikuna, ao lado de pajés de madeira

Há 11 modelos de bonecas de pano (a partir de R$ 129), com nomes e grafismos diferentes. Como são fabricadas manualmente, We’e’ena Tikuna entrega o que está encomendado antes de abrir novas compras no site; a próxima leva deve estar disponível até junho. Na loja online, há ainda peças feitas pelos indígenas da aldeia na Amazônia, caso do boneco de madeira feito pelo pajé (R$ 250).

Banco do benzedor e cerâmica de etnias do Rio Negro

A Wariró Rio Negro é uma marca coletiva de 23 etnias do Alto e do Médio do Rio Negro. Tem banco de madeira Tukano (instrumento cerimonial usado pelo benzedor), cerâmica do povo Baniwa e cestaria dos Koripaco e dos Yanomami, por exemplo. No Instagram @casa.wariro, é possível ver nos destaques onde encontrar o artesanato em endereços físicos, em São Paulo e Paraty (RJ).

Biojoias e cestaria na GaleriAmazônica, em Manaus

Vende cestaria, cerâmica, pinturas e camisetas, entre outras peças feitas por pelo menos 15 etnias – entre elas, Tikuna, Tukano, Parakanã, Waimiri Atroari, Yanomami, Baniwa e Saterê Mawé. Na loja online da GaleriAmazônica, custam a partir de R$ 12,50 (brinco de piaçava). Quem vai a Manaus também pode ver as exposições do espaço que surgiu a partir de um projeto para valorizar a diversidade socioambiental na Amazônia, uma parceria entre a Associação Comunidade Waimiri Atroari e o Instituto Socioambiental.

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