Wehther Santana/Estadão
Wehther Santana/Estadão

Turismo voluntário quase sem esforço

Sem mudar em nada seus planos de férias, é possível fazer a diferença na vida de quem precisa com alguma atenção às boas iniciativas - antes, durante e depois da viagem

Bruna Toni, Estadão

20 Setembro 2016 | 00h07

Ao pensar em turismo socialmente responsável, a lembrança que vem à cabeça é a dos pacotes de viagem para trabalhar voluntariamente por algumas semanas em um lugar pobre do planeta? Sem dúvida essa é uma das possibilidades. Mas qualquer viajante pode fazer a diferença e ajudar a tornar o mundo um lugar um pouco melhor, seja qual for o destino escolhido ou a forma de viajar. Não é preciso nem gastar mais (ou menos) para o turista ajudar quem precisa.

No planejamento das férias, nos passeios feitos durante a estada em uma cidade ou mesmo depois de voltar para casa, é possível fazer um pouco pelo bem do próximo. A seguir, reunimos iniciativas voluntárias para você escolher e usar já na próxima viagem, sem ter de alterar seus planos – apenas se dispondo a apurar o olhar solidário. 

ANTES: Consumo consciente

Tudo começou com a vontade do empresário Luiz Gouvêa de tornar mais efetivas as doações periódicas que fazia a entidades dedicadas a causas sociais. Em parceria com Rodrigo Felismino, criou a Shop4Help (shop4help.com), um site de vendas online – tem livrarias, eletroeletrônicos, utilidades domésticas, construção, cosméticos e, claro, viagens – que reverte uma parte do que foi pago pelo comprador a entidades e ONGs.

Hotel Urbano, Click Bus, Booking.com, Voltem e Viajanet são as opções turísticas desse e-commerce, cujo funcionamento é como o de um agregador. Ou seja, ao pesquisar um produto, a página devolve uma comparação entre preços de diversas lojas. Efetivada a compra, a loja vendedora paga uma comissão ao site, cujo valor é ela mesma quem determina. Metade dessa comissão vira doação às instituições previamente cadastradas. 

E, se não é possível para o consumidor determinar o valor da sua compra que será doado, dá para escolher o beneficiado pela doação. Há entidades que atendem a idosos, crianças, animais, ações de conservação do meio ambiente. Segundo Rodrigo Felismino, 85% das instituições cadastradas não têm um site, ou seja, a Shop4Help acaba sendo a única forma de captarem dinheiro pela internet. A pagina também permite acompanhar o caminho do dinheiro até a entidade escolhida. 

Também é possível doar diretamente às ONGs e instituições por meio do Shop4Help, sem comprar nada. Nesse caso, 88% da doação vai para os beneficiados. O site quer aumentar a oferta de produtos disponíveis para os compradores, inclusive os turísticos. “Queremos trazer companhias aéreas, por exemplo”, diz Felismino. “Não é só o altruísmo, mas a possibilidade de a empresa ter mais ferramentas que facilitem a venda”, diz.

A Shop4Help criou também um seguro viagem. O Bencard custa, anualmente, R$ 180 (individual) e R$ 300 (familiar) e cobre até ¤ 30 mil euros em despesas médicas nas viagens internacionais. Do valor pago, de R$ 25 a R$ 35 vão para a instituição escolhida pelo comprador.

DURANTE: O olho da rua

Amsterdã, Barcelona, Praga, Londres. O que essas cidades têm em comum além de ficarem no mesmo continente e de estarem sempre cheias de visitantes? Iniciativas (justamente por meio do turismo) para ajudar pessoas que não têm onde morar. São os moradores ou ex-moradores de rua que guiam os tours. Para eles, a chance de ter uma fonte de renda e diminuir o preconceito que sofrem. Já o visitante ganha um tour nada óbvio, com bons achados e interpretações fora dos pontos turísticos de sempre. 

Em Praga, na República Checa, o Pragulic (pragulic.cz) tem passeios baseados nas experiências de vida de cada um de seus nove guias, todos moradores de rua – no site, há um perfil de cada um deles, incluindo quais línguas falam e o foco de seus roteiros. Os passeios duram até 2h30 e custam a partir de 250 coroas (R$ 34).

O Amsterdam Underground (amsterdamunderground.org) faz algo parecido pelas ruas da capital holandesa, mas aqui o roteiro é único e dura 1h30, em média – desde 10 euros por pessoa (R$ 37). São ex-moradores de rua que vão contando suas histórias pelo Bairro da Luz Vermelha, conhecido por ser uma área de prostituição legalizada. O roteiro parte de um charmoso café e segue por áreas que foram marcadas pelo tráfico, pela prostituição, onde medicamentos ilegais eram vendidos em espaços que, hoje, atendem dependentes químicos. 

Os roteiros do Hidden City Tours (hiddencitytours.com) pelo multifacetado bairro de Rava, na Cidade Velha de Barcelona, são pessoais, variando com a trajetória de vida de cada um dos guias. Também há passeios predeterminados como o que leva para um outro olhar sobre o Mercado de la Boquería. A ideia é conhecer a cidade e também o cotidiano de quem vive em suas ruas. Apesar de não terem moradia, os guias falam alemão, inglês ou francês, além do espanhol. Custam de ¤ 15 a ¤ 34 por pessoa (R$ 54 a R$ 123), por cerca de 2 horas. 

O site do Unseen Tours, de Londres, oferece passeios guiados por ex-moradores de rua pela cidade “que não é vista”. São 20 guias para seis roteiros (a 12 libras, R$ 52 cada) – lugares moderninhos como Shoreditch e Camdem são vistos com um olhar que vai além do hype que cerca essas regiões. Mais: sockmobevents.org.uk.

DEPOIS: Pequenos grandes agrados

Uma infinidade de frascos de xampus, condicionadores, desodorantes, hidratantes, sabonetes e outros itens de higiene pessoal estavam espalhados pelo chão. Cores e até a qualidade dos produtos variava bastante. O que não mudava era o tamanho: quase tudo em miniatura. 

Moradora da zona sul paulistana, a engenheira ambiental Pamela Assis, de 25 anos, tem mania de juntar amenities de hotéis, pousadas e resorts. Mas eles não vêm todos de suas viagens pessoais. Muitos dos viajantes que doam os itens ela nem sequer conhece. Pamela é voluntária do projeto Mini Gentilezas, criado há cerca de quatro meses, cujo objetivo é distribuir produtos de higiene a moradores de rua – esses que sobram na mala, que são trazidos do hotel ou do avião na volta para casa e muitas vezes não são nem usados. 

O Mini Gentilezas foi criado por dois cariocas, Karina Rocha e Israel Mesquita, ligados à ONG Argilando. A ideia inicial era apenas mandar mensagens a amigos que estivessem viajando e pudessem ajudar. A ideia viralizou: em três dias, a página do projeto no Facebook chegou a 5 mil seguidores. Hoje, passa dos 41 mil. “Percebemos que as pessoas estão dispostas a ajudar, só não sabem como”, disse Karina, que também trabalha em uma multinacional. “Os produtos são cobrados na diária que pagamos. Por que não trazê-los para ajudar quem precisa?”, questiona.

A paulistana Pamela Assis entrou em contato com a dupla, no Rio, para trazer a ideia a São Paulo. Uma vez por mês, passa nos pontos de coleta, recolhe as doações e, com a ajuda da namorada, faz uma triagem inicial antes de repassar os produtos a instituições. 

Além de São Paulo e Rio, o Mini Gentilezas está em cinco Estados e no Distrito Federal, em um total de 16 cidades. Veja a lista de pontos de coleta e instituições: facebook.com/minigentilezas.

 

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