Turistas estrangeiros: 5 milhões é pouco

Quando subi até a Table Mountain - o Pão de Açúcar da Cidade do Cabo, na África do Sul -, precisei enfrentar uma fila de uma hora e meia. O estacionamento estava lotado feito pátio de shopping em dia de feirão. Mas não eram carros, e sim ônibus e mais ônibus de turistas.

RICARDO FREIRE, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2010 | 01h51

Recentemente voltei a subir ao Pão de Açúcar - a Table Mountain do Rio de Janeiro. Era a semana de carnaval, o dia estava bonito e ainda assim o meu embarque foi imediato. Foi o tempo de pagar o ingresso, passar pela roleta e entrar.

A África do Sul, distante de todos os países emissores de turistas, e com problemas de segurança pelo menos tão graves quanto os nossos, recebe 10 milhões de visitantes por ano. O Brasil, muito maior e mais próximo de alguns mercados importantes (Argentina, Estados Unidos), não consegue passar da marca de 5 milhões. O real valorizado é uma explicação procedente para a escassez de gringos - mas não é a única. Uma série de outros fatores ajuda a espantar o visitante estrangeiro. Isso não é ruim apenas para a indústria: é também prejudicial ao viajante brasileiro. Se o Brasil atraísse mais turistas de fora, a estrutura para o turismo interno ficaria melhor e os preços tenderiam a baixar, pelo ganho de escala e o aumento de concorrência.

Faltam voos aos destinos turísticos. A Argentina tem voos regulares diários - e lotados de turistas - a lugares como El Calafate, Bariloche, Trelew e Ushuaia. No Brasil, os únicos destinos exclusivamente turísticos servidos por voos regulares diários são Fernando de Noronha e Porto Seguro. Tente voar para outros lugares de natureza ou interesse histórico que não sejam capitais e a tarefa vai variar entre difícil (Bonito, Chapada Diamantina, Tiradentes, Búzios, Lençóis Maranhenses) e impossível (Paraty).

Falta foco no viajante independente. O Brasil vai relativamente bem no turismo de eventos - acaba de captar os dois maiores que existem, a Copa e a Olimpíada. Na época do real desvalorizado, fizemos sucesso junto às grandes operadoras, que invadiram o Nordeste com voos charter.

Onde o Brasil tem falhado é na captação do viajante independente. Esse turista reage instantaneamente a promoções, torna menos vazia a baixa temporada, movimenta todos os níveis do mercado (do supereconômico ao alto luxo, que ficam fora do turismo organizado de massa), põe destinos na moda.

É muito barato trazer o viajante independente: ele só precisa de informação. E que não lhe compliquem a vida.

O turista independente decide e bate o martelo de suas viagens pela internet. Para vir ao Brasil ele precisa encontrar sites simples, organizados e completos na sua língua. Precisa que o seu cartão de crédito seja aceito pelas companhias aéreas brasileiras. Precisa ao menos ser informado sobre as rotas de ônibus. Precisa de confirmação imediata para a sua reserva de hotel ou mesmo de pousada.

E o que é mais interessante: no dia em que o viajante independente estrangeiro estiver bem atendido na internet, o viajante independente brasileiro - que já se acostumou a decidir online todas as suas viagens para o exterior - vai naturalmente aumentar a frequência de suas escapadas pelo Brasil.

Falta cair o visto para americanos. Ou flexibilizar, se você prefere assim.

Veja pelo outro lado. Atualmente o Brasil é o terceiro maior emissor de turistas para a cidade de Orlando. Estamos, inclusive, prestes a ultrapassar a Inglaterra. A indústria do turismo e o varejo da Flórida não param de pressionar o governo americano pelo fim da exigência do visto para brasileiros. Porque sabem que podem crescer exponencialmente no nosso mercado.

Em contrapartida, apenas 1% dos americanos que viajam ao exterior chega ao Brasil. Nenhum outro país das Américas (está bem: com exceção da Bolívia) exige visto prévio dos americanos (o Chile concede na chegada ao aeroporto). A exigência do visto não é apenas um item da política de reciprocidade: na prática, é uma barreira alfandegária inventada por nós mesmos, contra os nossos melhores interesses econômicos. E, mesmo assim, qualquer um que defenda o fim do visto é tachado de entreguista. No entanto, ninguém acha antipatriótico que os parcos voos dos Estados Unidos para o Nordeste sirvam apenas para levar mais brasileiros aos outlets da Flórida.

Falta mudar a mentalidade. No fundo, no fundo, achamos indigno fazer força para trazer turistas de fora: isso é coisa de república das bananas, e frequentemente associada a turismo sexual. (Garanto a quem interessar possa que há mais turismo sexual em Las Vegas do que em Fortaleza.)

Isso é complexo de subdesenvolvido. Espanha, França, Itália e Estados Unidos não poupam esforços para captar visitantes. Achar que só os ricos podem ser destinos turísticos revela baixa autoestima.

O turismo é a indústria que mais rapidamente espalha seus benefícios pela comunidade.

Não dá para se contentar com o mercado interno ou esperar a Copa para ver no que vai dar. Quanto mais estrangeiros vindo para cá, melhor para o Brasil - e melhor também para o turista brasileiro.

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